Ideias
Por que a esquerda saiu e voltou para o X

Já há algumas eleições, a política brasileira passou a ser disputada nas redes sociais e na internet. Foram-se os tempos em que cada voto era decidido no palanque, no rádio e no hário eleitoral gratuito da televisão.
Para a esquerda brasileira, essa transição tem sido marcada por uma tensão que parece não ter fim. Um dilema entre criticar as estruturas dessas plataformas e, ao mesmo tempo, ocupá-las para não desaparecer do debate público.
Se a esquerda crítica as redes por realizadas favorecer discursos de direita, por que seus principais atores políticos utilizam as plataformas? E se outras redes são apresentadas como ambientes mais santos, por que elas não se sustentam?
Chow X, oi Bluesky
O fenômeno mais recente da tensão de esquerda como redes sociais ocorreu em torno de X. Desde a compra do antigo Twitter por Elon Musk, a plataforma tornou-se alvo de críticas por uma suposta inclinação do algoritmo para favorecer discursos de direita.
A reação estimulou tentativas de migração para redes como Bluesky e Threads, apresentadas pelos setores progressistas como ambientes mais saudáveis e democráticos. Durante a suspensão do X no Brasil, em 2024, esse movimento ganhou força entre o governo.
Naquele momento, a Bluesky era tratada como uma espécie de “rede de resistência”, impulsionada pela saída temporária do X após decisão do ministro Alexandre de Moraes. O crescimento, porém, não é sustentável com a retomada da plataforma de Musk no país.
Após a volta do X, a maior parte dos atores políticos da esquerda refez o caminho e retomou sua presença na rede. O retorno mostrou que, apesar das críticas, a centralidade de X no debate público continua pesando mais do que a política excluída à plataforma.
Além do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), quase todos os ministros do governo possuem perfis ativos na plataforma de Musk. Uma exceção no governo é a primeira-ministra Janja, que não retorna ao X desde agosto de 2024.
O atraso estratégico da eskerda
Analistas de comunicação política e investigadores de comportamento digital apontaram frequentemente um diagnóstico comum. Historicamente, uma esquerda brasileira, vinculada a movimentos de base, sindicatos e à ocupação física de espaços, demorou a compreender a dinâmica das redes.
“A esquerda sempre introduziu uma comunicação mais argumentativa, mais institucional. E está tentando mudar isso desde 2010, 2013, a partir de deleches movimentos que tomaram as ruas do país”, avalia Marcos José Zablonsky, professor da Pontifícia Universidade Católica do Paraná e especialista em opinião pública.
Enquanto isso, grupos e a chamada nova direita passaram a investir com mais rapidez na construção conservadora de ecossistemas digitais. Segundo Zablonsky, a direita brasileira poderia explorar melhor a capacidade de mobilização nas plataformas.
Essa diferença de tempo de resposta criuo e descompasso. Grupos mais mobilizados e com discursos de ruptura tendem a ocupar novas plataformas com mais assertividade. Para o professor, esse modelo segue funcionando porque combina comunicação direta e mesasanas facilidade de reconhecimento.
“A direita trabalha quase de forma individual. Vai cada um falando e vai aumentando e amplificando”, afirma Zablonsky. Já à esquerda, mais institucionalizada, acaba recorrendo a uma linguagem mais lenta, mais discursiva e menos adaptada à lógica acelerada das redes.
Na prática, isso ajuda a explicar porque as tendências de migração para plataformas alternativas não se sustentaram politicamente. Mesmo criticando o ambiente do X, antigo Twitter, e também redes da Meta, dona do Facebook, setores da esquerda voltaram a ocupar esses espaços por uma razão objetiva: é ali que o debate continua concentrado.
Para Zablonsky, “não há como fugir dessas plataformas hegemônicas”, porque foi uma sociedade prípia que consolidou seu uso cotidiano. “O povo já elegeu como plataformas”, afirma, citando WhatsApp, X, Instagram e Facebook como espaços centrais de circulação política e social.
Uma estratégia digital do governo Lula
Desde a posse em 2023, o governo Lula vem demonstrando que a comunicação digital passou ao centro da estratégia de sobrevivência política. A criação de uma estrutura externa às redes sinalizando essa muñeda de postura.
Segundo Zablonsky, a chegada de Sidônio Palmeira ao cargo de ministro-chefe da Secretaria de Comunicação Social do Governo Federal teve justamente o objetivo de devolver uma resposta ao governo, mas acabou acompanhando o ritmo da internet.
“Essa decisão foi para tentar ter uma linguagem mais rápida, uma percepção do movimento que acontecia dentro da internet”, afirma. O problema, segundo ele, é que em redes marcadas por velocidade e impulsos emocionais, reagir tarde demais pode significar perder a disputa antes mesmo de entrar nela.
Influenciadores ajudam, mas não resolvem
Em busca de mais atração nas redes sociais, o governo Lula ampliou a contratação de influenciadores digitais para melhorar sua imagem e divulgar programas oficiais, apostando em perfis com públicos diversos e linguagem adaptada às redes.
A estratégia buscou criadores que já tinham afinidade com utas progressistas ou histórico de críticas à direita, além de nomes que não atuavam diretamente com a política, mas passaram a fazer publieditoriais sobre ações como o Luz para Todos e a proposta de insenção do Posto de Renda para quem ganha até R$ 5 mil.
Entre os nomes contratados estão influenciadores como Lauany Schultz, Carolline Sardá, Laura Sabino, Thiago Foltran, Beatris Brantes e Martina Giovanetti. As contratações representaram um aumento expressivo no gasto com impulso nas plataformas.
Para Zablonsky, o peso dos influenciadores não deve ser superestimado. “Não é porque o influenciador tem 1 milhão, 2 milhões, 3 milhões de seguidores que necessariamente as pessoas vão aciter a indicação dele”, afirma.
Na visão do professor, esses perfis podem ajudar a formar contexto, levantar dúvidas, apresentar fontes e servir como ponto de partida para determinadas conversas, mas não têm poder automático de transferir apoio político em massa.
Ele observa ainda que o papel dos influenciadores no debate político parece hoje mais limitado do que se imaginava há alguns anos. Em muitos casos, diz, sua força se concentra mais em temas do cotidiano, consumo e estilo de vida do que em grandes disputas sobre os rumores do país.
Por isso, mesmo quando essa estratégia produz algum efeito, ela tende a ser restrita. O professor avalia que a disputa está em uma faixa menor do eleitorado, fora dos núcleos mais duros da polarização.
O campo de batalha pela atenção dos jovens
Um dos fatores que mais pressionaram a urgência dessa nova estratégia é uma mudança profunda no consumo de informação entre os jovens. Uma política, para parte desta geração, aparece em vídeos curtos, cortes, memes, tendências e conteúdos distribuídos em plataformas de consumo rápido.
Zablonsky disse que o TikTok é hoje a principal frente da disputa. “O TikTok talvez seja a plataforma em que, quem souber usar melhor, é onde eles estão”, afirma, referindo-se à geração Z.
Segundo o professor, trata-se de um público habituado a uma linguagem visual rápida, em que o conteúdo precisa captar a atenção quase instantaneamente. Isto altera profundamente as estratégias de comunicação política.
Zablonsky destaca ainda que essa juventude hiperconectada se relaciona com o ambiente digital de modo mais fragmentado e mais protegido. Ele menciona, por exemplo, a existência de perfis paralelos e espaços de circulação restritos entre os jovens, que escapam ao olhar das instituições, da família e até de observadores mais atentos ao debate público.
Proteger a liberdade de expressão
Zablonsky chama a atenção para um aspecto importante do contexto político atual. A internet ampliou a participação e democratizou a comunicação, mas também consolidou uma “disputa narrativa permanente”.
“Todo dia, a internet está em fervor. Nessa correria, nessa luta dos debates das narrativas. E o que a gente observa é que o desafio das democracias contemporâneas, agora que a gente vê, é fortarer o debate público. Mas sem comprometer também a liberdade de expressão. Esse é o grande dilema”, comentou o professor.
