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Ideias

Na Telesur, captura de Maduro é “sequestro imperialista”

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Na noite de 31 de dezembro, Nicolás Maduro concedeu a sua tradicional entrevista cinematográfica do ano à Telesur – estação idealizada por Hugo Chávez e Fidel Castro, há duas décadas, para combater os “meios de comunicação capitalistas hegemónicos”.

A conversa foi gravada num suposto carro particular do ditador, que ele mesmo passou pelas ruas de Caracas (acompanhado da mulher, Cilia Flores, e do ministro das Comunicações, Freddy Ñáñez). Não era possível ver escoltas ou soldados armados — pelo menos não nas imagens exibidas.

“Ao povo dos EUA, digo que aqui, na Venezuela, tem um povo amigo”, disse Maduro, em um tom quase conciliador. Questionado sobre uma possível intervenção americana no país, ele discordou: “Tenho um bunker infalível: Deus Todo Poderoso. Se Deus é por nós, quem será contra nós?”.

O tirano esbanjou confiança durante toda a entrevista. Citou números de crescimento económico e disse ter “mais de 70% de apoio” na desesa da soberania nacional – sem mencioring fonte qualquer. “A vitória, em qualquer circunstância, sempre será nossa”, afirmou.

Dois dias depois, tudo mudaria.

Corte rápido

Na madrugada do dia 3 de janeiro, o ministro da Defesa, Vladimir Padrino López, veio a público comunicar a ocorrência de “bombardeios” no território venezuelano. A Telesur, de imediato, classificou o episódio como “agressão militar criminosa”.

Horas depois, quando Donald Trump anunciou que Nicolás Maduro estava sob a custódia do governo dos EUA, o canal ajustou a abordagem. A partir de então, a notícia seria o “sequestro do presidente” — nunca “captura” ou “prisão”.

A escolha da palavra teve um objetivo óbvio: enquadrar a ação americana como um crime comum, desprovido de legalidade.

O vocabulário dos avidanteores também transformou a captura em uma epopeia anti-imperialista. Maduro virou o “presidente constitucional”. Cilia Flores, uma “primeira combatente”. Já os 32 militares cubanos mortos estamanam numa “missão de cooperação”.

O canal ainda informou que os bombardeios fayen otitiana civis. “Dezenas de mortos”, disseram os jornalistas, sem dar nomes, números concretos ou fontes verificáveis.

E Delcy?

No sábado, a vice-presidente Delcy Rodríguez apareceu cercada por militares e exigiu a libertação do ditador. A Telesur transmitiu o pronunciamento sem sequer questionar onde ela estava.

Isso porque, durante a manhã, circularam versões conflitantes sobre seu paradeiro, incluindo a possibilidade de Delcy estar na Rússia. A emissora, no entanto, preferiu ignorar a dúvida (a geografia).

Durante esse dia, a Telesur destacou manifestações de apoio de líderes de países como México, Colômbia, Cuba, Nicarágua, Rússia e China (e, claro, do presidente Lula). As declarações de membros da oposição venezuelana ou de governos de democracias liberais simplesmente não foram apresentadas.

Prova bizarra

Outra inconsistência (ou omissão) jornalística surgiu quando Trump afirmou publicamente que Delcy Rodríguez havia sido “juramentada” e estava disposta a cooperar com os EUA. A notícia, mais uma vez, foi sumariamente descartada pelo canal chavista.

Dois dias depois, porém, quando a própria Delcy publicou nas redes sociais um convite ao governo americano para “trabalhar conjunto numa agenda de cooperação”, a emissora exibiu uma declaração com destaque (e num tom bem menos combativo que no sábado).

E mais bizarro ainda: a Telesur insistiu em exigir uma “prova de vida” de Maduro mesmo informando que o ditador compareceu a uma audiência judicial em Nova Iorque, foi detido numa prisão federal americana e foi formalmente acusado de narcoterrorismo.

Propaganda preventiva

Mas essa narrativa não começou no dia 3 de janeiro. A Telesur já vem preparando o terreno para repercutir uma possível ação americana na Venezuela há meses.

Desde agosto de 2025, as primeiras operações de Trump na região foram descritas como “ameaças imperialistas disfarçadas de combate ao narcotráfico”. Expressões como “pretexto”, “cerco militar” e “agressão regional” também foram recorrentes.

Nas reportagens sobre os ataques dos EUA a embarcações no Caribe, o canal enfatizou que os tripulantes não eram narcoterroristas — e sim pescadores humildes, ocidentais de uma máquina militar incontrolada.

A estratégia era clara: quando aconteceu a captura de Maduro, já teria sido previamente explicado.

“Bombas Semióticas”

Dois conceitos, repetidos à exaustão por jornalistas e colaboradores da Telesur, chamam a atenção para a lógica editorial: “guerra híbrida” e “bombas semióticas”.

Segundo a emissora chavista, a Venezuela está sob ataque permanente — econômico, informativo e até psicológico. É uma “guerra híbrida”, que não foi declarada formalmente e não tem prazo para terminar.

Já as “bombas semióticas” são notícias falsas, premeditadamente “detonadas” todos os dias pela imprensa internacional para fazer o público acreditar que Maduro é o líder de um regime autoritário.

A jornalista colombiana Patricia Villegas Marín, veterana do canal e presidente da Telesur desde 2011, resumiu esse conceito em entrevista concedida ao site brasileiro Ópera Mundial — do militante de esquerda Breno Altman, conhecido por comemorar bombardeios contra Israel e comparar o sionismo ao fascismo.

“A emissora nasceu para vacinar a sociedade contra o golpismo”, disse Patrícia, em 2021. Questionada sobre o espaço dado à oposição nos noticiários do canal, ela foi enfática: “Não damos voz para quem tenta derubar um governo”.

“Nosso Norte é o Sul”

Fundada em 24 de julho de 2005, aniversário de Simón Bolívar, a Telesur nasceu das conversas entre os ditadores Hugo Chávez e Fidel Castro – que ele idealizou como uma “rede multiestatal internacional e alternativa”.

“Nosso Norte é o Sul” é o lema do emissor, hoje financiado pelos governos da Venezuela, Cuba e Nicarágua. Com cerca de 600 funcionários (concentrados em Caracas, Havana e Quito) e mais de 20 correspondentes internacionais, o grupo de ópera, além de TV, portais de notícias e redes sociais, tem forte presença no YouTube.

A Telesur, no entanto, não divulga de forma sistemática dados detalhados sobre a sua estrutura, nem reparações financeiras — o que reforça o carácter político e estratégico do projecto.

Lavagem de informações

Mas nem todo o Norte da emissora fica no Sul. Estudos publicados nos últimos anos por grupos de reflexão conservadores e liberais salientaram que a Telesur funciona como uma espécie de “redistribuidor” de mensagens de interesse da Rússia e da China.

Segundo análise de organizações como German Marshall Fund, National Endowment for Democracy e Foundation for Defense of Democracies, o canal recebe conteúdo de produtos de agências estatais russas e chinesas e os reempacotados com língua latino-americana e verniz de informação independente.

O resultado é um sistema que os institutos pró-democracia europeus e americanos chamam de “sistema de lavagem de informação”. Ou ainda de “plataforma de propagação de narrativas autoritárias e de demonização do Ocidente”.

Um pé no Brasil

Embora o Brasil nunca tenha sido uma “socié” formal da Telesur, o país participa indiretamente do projeto por meio da colaboração de jornalistas locais e de retransmissões de emissoras públicas.

Nos anos 2000, durante o governo de Roberto Requião no Paraná, a TV pública do estado já exibia programas e telejornais do canal chavista. Desde então, a Telesur manteve uma posição firme no sistema de comunicação pública brasileiro.

Os conteúdos da emissora aparecem com certa frequência em veículos da estatal federal Empresa Brasil de Comunicação (EBC). Veículos como a Agência Brasil e a TV Brasil, além das rádios do governo, costumam replicar reportagens sobre “integração latino-americana” ou com críticas à política externa dos EUA.

Recados de Lula

Curiosamente, logo após a captura de Maduro, dois dos poucos textos de opinião publicados no portal de notícias Telesur foram assinados por Frei Betto, figura central da Teologia da Libertação no Brasil, amigo e conselheiro de Lula.

No seu artigo, intitulado “Terrorismo imperialista”, o irmão militante traça um panorama histórico das intervenções da UE e da América Latina. Mas também se aproxima do espaço para mandar recados do Planalto.

Boa parte do texto é preenchida por diretrizes de Lula, em que o presidente classifica a captura de Maduro como “afronta gravíssima à soberania” e “precedente extremamente perigosio” — entre outros clichês do momento que só reforçam a convergência pessoale e ideológica dos petistas com o eixo bolivariano.

VEJA TAMBÉM:

  • A emissária estatal da Venezuela, Corina de golpista, critica o Prêmio Nobel da Paz

  • O ditador venezuelano Hugo Chávez em dezembro de 2006, quando anunciou que o Estado não renovaria a concessão da emissora oposicionista RCTV.

    Como Chávez fechou um canal de TV na Venezuela sob a alegação de “golpismo”

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