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Muitos brasileiros não entendem por que não se deve jogar papel higiênico no vaso, mas o motivo é mais sério do que parece

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Para quem cresceu em países como Estados Unidos ou boa parte da Europa, jogar papel higiênico no vaso sanitário é algo tão automático quanto dar descarga. Mas no Brasil, a situação é diferente, e a recomendação de usar a lixeira ao lado do vaso ainda causa estranhamento em muitos lares, especialmente entre quem nunca recebeu uma explicação de verdade sobre o motivo. Esse hábito não é exagero de placa de banheiro mal colocada. Ele existe porque boa parte da infraestrutura de saneamento do país simplesmente não foi projetada para suportar esse tipo de uso, e as consequências de ignorar isso vão muito além de um entupimento doméstico.

O vaso começa a demorar mais para esvaziar após a descarga
O vaso começa a demorar mais para esvaziar após a descargaImagem gerada por inteligência artificial

Por que o sistema de esgoto brasileiro não suporta papel higiênico?

A rede de esgoto do Brasil foi construída, na maioria das cidades, com tubulações de diâmetro menor do que o padrão adotado em países onde o papel é descartado no vaso. Em muitas regiões, especialmente em cidades do interior e em bairros mais antigos das grandes capitais, as tubulações têm apenas quatro polegadas de diâmetro, contra os seis a oito polegadas comuns em sistemas projetados para receber papel. Essa diferença de calibre parece pequena, mas é suficiente para que o acúmulo progressivo de papel higiênico, mesmo o mais fino e macio, crie obstruções parciais que com o tempo evoluem para entupimentos completos.

Outro fator estrutural relevante é a declividade das tubulações. Para que os resíduos se movam pela rede por gravidade, sem precisar de bombeamento constante, as tubulações precisam ter uma inclinação mínima calculada. Em instalações antigas ou mal executadas, essa declividade está abaixo do ideal, o que faz com que o fluxo seja mais lento e o papel acumule em pontos específicos da tubulação antes de chegar à rede coletora principal. Esse acúmulo progressivo é o que transforma um hábito diário aparentemente inofensivo em um problema real de manutenção, tanto no encanamento doméstico quanto na rede pública.

Quais são as consequências práticas do entupimento causado pelo papel?

No nível doméstico, o entupimento causado por papel higiênico descartado no vaso manifesta-se de forma gradual. O vaso começa a demorar mais para esvaziar após a descarga, depois passa a não esvaziar completamente e eventualmente chega ao ponto de retorno, quando o que deveria ir embora volta para dentro do banheiro. Esse processo pode levar semanas ou meses dependendo da frequência de uso e da espessura do papel, mas é quase inevitável quando o hábito é constante em tubulações de calibre inadequado. O desentupimento nessa situação pode ser simples e barato quando resolvido cedo, ou extremamente custoso quando o bloqueio já está profundo na tubulação ou na rede coletora externa.

No nível da rede pública, o impacto é ainda mais amplo. As estações de tratamento de esgoto recebem o material que chega pelas redes coletoras e precisam processar esse conteúdo antes de devolver a água ao meio ambiente. Quando grandes volumes de papel chegam a essas estações, especialmente papel que não se dissolveu adequadamente no percurso, as grades de separação e os filtros ficam sobrecarregados, aumentando os custos operacionais e reduzindo a eficiência do tratamento. Em casos mais graves, o entupimento acontece nas próprias redes coletoras públicas, causando o transbordamento de esgoto bruto para ruas, calçadas e cursos d’água.

O vaso começa a demorar mais para esvaziar após a descarga
O vaso começa a demorar mais para esvaziar após a descargaImagem gerada por inteligência artificial

Existe diferença entre os tipos de papel higiênico e o impacto no esgoto?

Sim, e essa diferença importa mais do que a maioria das pessoas imagina. O papel higiênico convencional vendido no Brasil, especialmente as versões mais macias, multicamadas e com maior gramatura, dissolve-se muito mais lentamente em água do que o papel projetado especificamente para sistemas de esgoto de menor calibre. Os principais fatores que determinam o risco de um papel causar entupimento são:

  • Número de folhas e espessura: papéis de duas, três ou quatro camadas absorvem mais água e demoram mais para se desfazer do que papéis simples de uma camada. Em tubulações estreitas, essas camadas se comprimem umas contra as outras antes de se dissolver, formando bloqueios que resistem mesmo ao fluxo de descarga.
  • Aditivos de resistência úmida: alguns papéis higiênicos de maior qualidade contêm aditivos que aumentam a resistência da folha quando molhada, tornando a experiência de uso mais confortável. Esse mesmo aditivo, porém, reduz significativamente a velocidade de dissolução no sistema de esgoto, fazendo com que o papel percorra uma distância maior da tubulação ainda praticamente intacto antes de começar a se desfazer.

O impacto ambiental vai além dos entupimentos?

Vai, e de forma considerável. Quando o esgoto transborda por conta de entupimentos na rede coletora, ele chega a rios, córregos e lagos sem tratamento, carregando bactérias, vírus e parasitas que contaminam a água e o solo ao redor. No Brasil, onde o índice de cobertura de tratamento de esgoto ainda está muito abaixo do ideal, qualquer fator que sobrecarregue ainda mais a rede existente agrava um problema que já é grave. Segundo dados do Sistema Nacional de Informações sobre Saneamento, apenas cerca de 50% do esgoto gerado no país passou por algum tipo de tratamento nos anos recentes, o que significa que metade do esgoto brasileiro já chega ao meio ambiente sem processo adequado, e qualquer entupimento que redirecione mais volume para fora da rede piora esse quadro.

A solução mais prática e imediata continua sendo o uso da lixeira, com troca frequente do saco plástico para evitar odores e acúmulo excessivo. Em países onde a infraestrutura permite o descarte no vaso, o papel utilizado é formulado para se dissolver rapidamente e as tubulações têm diâmetro compatível com esse uso. No Brasil, enquanto a infraestrutura de saneamento não for completamente modernizada e universalizada, o hábito da lixeira não é uma restrição, é uma adaptação inteligente à realidade do sistema que existe, e entender esse motivo torna a orientação muito mais fácil de seguir do que uma simples placa pedindo para não jogar papel no vaso.



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