Música
Maior companhia de ópera dos EUA reage aos comentários ofensivos de Timothée Chalamet

Timothée Chalamet cometeu uma gafe, e não saiu barato. Em entrevista à Variety e à CNN, o ator indicado ao Oscar por Marty Supreme disse que não gostaria de trabalhar com ópera e ballet, pois estas áreas estariam tentando “se manter vivas” mesmo quando “ninguém se importa”.
A polêmica começou durante uma conversa com Matthew McConaughey sobre a diminuição da capacidade de atenção do público, e se ainda existe interesse por filmes com ritmo mais lento. “É preciso levantar uma bandeira dizendo: ‘Ei, este é um filme sério’, ou algo assim, e algumas pessoas querem se entreter rapidamente”, comentou Chalamet.
Apesar de ser filho e irmão de bailarinas e ter começado sua carreira nos palcos de teatro, o ator acrescentou que o cinema é uma arte que ainda “desperte o interesse” das pessoas. “Não quero trabalhar com ballet ou ópera, ou coisas do tipo ‘ei, vamos manter isso vivo’, mesmo que ninguém se importe mais com isso — todo o respeito ao pessoal do balé e da ópera por aí”, disse. “Acabei de perder 14 centavos de audiência”.
Em resposta, a Metropolitan Opera, ou The Met — a maior companhia dos Estados Unidos e uma das mais famosas do mundo — publicou um vídeo nas redes sociais, demonstrando os bastidores da produção de um espetáculo. “Todo o respeito ao pessoal da ópera (e do ballet) por aí”, escreveu em tom irônico, marcando Chalamet na publicação.
O The Met teve uma temporada de The Amazing Adventures of Kavalier & Clay com ingressos esgotados em 2025, e está às vésperas de sua próxima produção, Tristan und Isolde, que já teve sua temporada estendida devido à alta demanda.
A Ópera de Los Angeles também brincou com a situação em publicação nas redes sociais. “Desculpe, @tchalamet. Gostaríamos de lhe oferecer ingressos de cortesia para Akhnaten, mas estão se esgotando. Ainda há alguns lugares disponíveis para compra, se você se apressar”, escreveu (via Playbill).
As bailarinas do New York City Ballet, Megan Fairchild e Sara Mearns, também se pronunciaram. Mearns escreveu nos stories do Instagram: “Gostaria de desafiar @tchalemet a entrar no estúdio comigo e criar e fazer parte de algo que resistiu ao teste do tempo. Mostre à sua mãe o respeito que ela merece”, escreveu, em referência à mãe de Chalamet, Nicole Flender, que já dançou no New York City Ballet e na Broadway.
Fairchild, por sua vez, apontou um outro aspecto da fala do ator que lhe incomodou. “Não é nem a ideia de que ele tenha menosprezado o balé e a ópera que me incomoda; é a sugestão de que ele tinha talento e aptidão para seguir essas áreas artísticas de nível olímpico”, ressaltou. “Timmy, eu não sabia que você era um dançarino ou cantor de ópera de nível internacional que simplesmente optou por não seguir essa carreira porque atuar é mais popular!”
Na legenda, ela também deixou uma mensagem educativa: “Boa sorte na corrida pelo Oscar. É importante que artistas apoiem uns aos outros. Nenhum desses caminhos é fácil, e não há necessidade de menosprezar o balé ou a ópera no processo”.
Dezenas de casas de ópera internacionais, como a Ópera Estatal de Viena, a Ópera de Paris e o Royal Ballet and Opera, em Londres, também responderam Chalamet — e algumas até o convidaram a conferir uma performance, antes de emitir comentários ofensivos às artes em público.
“Todas as noites, milhares de pessoas se reúnem na Royal Opera House para assistir a balé e ópera. Pela música. Pela narrativa. Pela pura magia da apresentação ao vivo”, escreveu a casa londrina. “Se você quiser reconsiderar, @tchalamet, nossas portas estão abertas”.
A Opera Holland Park, também em Londres, acrescentou: “As 40.000 pessoas que nos visitam todos os verões podem discordar de você (mas adoramos seu trabalho, @tchalamet)”.
Cantores de ópera renomados, incluindo Dean Murphy, Theo Hoffman, Isabel Leonard, Aprile Millo e Anita Hartig também se manifestaram. “Honestamente, estou chocada que alguém aparentemente tão bem-sucedido possa ser tão pouco eloquente e de mente tão fechada em suas opiniões sobre arte, enquanto se considera um artista”, disse Isabel, cantora mezzo-soprano vencedora de três Grammys e um Richard Tucker.
“Atacar outros artistas de forma mesquinha diz mais nesta entrevista do que qualquer outra coisa que ele pudesse dizer. Revela muito sobre o seu caráter”, continuou. “Você não precisa gostar de toda arte, mas só uma pessoa/artista fraca sente a necessidade de menosprezar justamente as artes que inspirariam aqueles que estão interessados em desacelerar, a fazer exatamente isso.”
O premiado tenor irlandês Seán Tester, por sua vez, definiu as palavras de Chalamet como “o tipo de visão reducionista que se ouve quando popularidade é confundida com valor cultural” (via The Hollywood Reporter). “Não são formas de arte ultrapassadas. São formas de arte vivas, constantemente reinterpretadas, em constante evolução […]. Chamar essas formas de arte de irrelevantes diz muito menos sobre a arte em si do que sobre o pouco tempo que alguém dedicou a vivenciá-la de verdade.”
Até agora, Chalamet ainda não respondeu às críticas.
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