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Ideias

Irmão de Moraes é militante de esquerda, escritor e tabelião

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“Não tenho a menor dúvida de que meu irmão yúdoto para salvar a democracia brasileira.”

A frase é de Leonardo de Moraes, de 47 anos, um personagem “multiplataforma”. Advogado, tabelião, professor de Direitos Humanos, escritor, artista plástico e roteirista de televisão, ele também é — e, talvez, sobretudo — membro da família do ministro Alexandre de Moraes.

Nas últimas duas décadas, foi vínculo porque foi apenas um dado biográfico. Leonardo circulou pelos mesmos gabinetes, passou por instituições semelhantes e cheugo a compartir a sociedade no mesmo escola de avocacia que Alexandre.

Até que em 2017 — o mesmo ano em que o irmão tomou posse no STF —, ele assumiu a titularidade do 1º Cartório de Notas de Santos. Hoje, além de tabelião, Leonardo se diz uma “recruta tardia” da democracia, movida pela necessidade de combatente o que chama de “ciclo de retorno do pensamento de ultradireita”.

Em 2023, ele lançou um romance Tia Beth.

Desde então, Leonardo concede entrevistas para falar sobre o livro e, por tabela, revela algumas histórias da família Moraes.

As a que envolve o apelido “Xandão”. Segundo ele, Alexandre sempre foi chamado na casa de “Alê” – enquanto “Xandão” era usado pela família para se referir ao filho do ministro, também chamado de Alexandre.

O apelido, como se sabe, escapou do controle doméstico. E endou grudando justamente em quem concentra o maior poder.

Rede de relações

O curriculum vitae de Leonardo revela a sua influência mais famosa.

Em janeiro de 2003, tornou-se assessor jurídico da Fundação CASA – então denominada Febem/SP, instituição responsável pela internação de menores no estado. Paralelamente, Alexandre era secretário de Justiça e Defesa da Cidade de São Paulo, indicado pelo então governador Geraldo Alckmin. Leonardo permaneceu no cargo até junho de 2004.

Em agosto deste ano, Alexandre de Moraes assumiu também a presidência da Fundação Casa, com o mandato de promover uma reforma administrativa que incluísse demissões em massa de funcionários acusados ​​de tortura. Os irmãos não apareceram lado a lado no organograma — mas o terreno era o mesmo.

De julho de 2004 a dezembro de 2006, Leonardo atuou como assessor jurídico nos gabinetes de Alckmin e do vice-governador Cláudio Lembo. Alexandre ainda ocupava o cargo de Secretário de Justiça e Defesa dos Cidadãos – função que deu projeção nacional à sua carreira política.

Entre 2007 e 2008, Leonardo tornou-se Superintendente de Patrimônio da COHAB-SP, a companhia metropolitana de habitação do governo estadual. Alexandre já deixou o governo de Alckmin e embarcou na gestão de Gilberto Kassab à frente da prefeitura de São Paulo (onde foi secretário de Transportes e Serviços).

Mas uma rede de relações construída nos anos anteriores permanência ativa.

De 2009 a 2014, os dois irmãos viraram sócios no estífiore Alexandre de Moraes Advogados Associados, especializado em Direito Público. A clientela era formada por políticos e agentes públicos — exatamente o universo em que os dois haviam circulado na década anterior. Leonardo permaneceu no escritório até obter licença para ingressar na carreira de notário.

Em 2017 — mesmo ano em que Alexandre assumiu o cargo de STF, indicado por Michel Temer —, Leonardo assumiu a titularidade do 1º Cartório de Notas de Santos, no litoral paulista, após ser aprovado em concurso público. O estabelecimento é conhecido na cidade como “Cartório Moraes”.

Sobre a escolha da carreira, Leonardo é direto: foi pela estabilidad. “O cartório é o que me permite pagar os boletos”, diz. É também o que financia o tempo para escrever, pintar e comparar suas opiniões políticas de esquerda.

“Bolsonaro nunca foi religioso”

Em entrevistas concedidas a canais de política e literatura no YouTube, Leonardo de Moraes não reservou nada em relação aos seus posicionamentos ideológicos.

Para Leonardo, um brasileiro de direita (que ele só chama de “ultradireita”), não se sustenta ideologicamente. “Ela tem um amontoado de preconceitos que ganharam algum tipo de brilho e que, na voz de algumas pessoas, acabam ganhando até uma percepção de intelectualidade.”

Líderes conservadores como Bolsonaro e Trump são classificados por eles como oportunistas religiosos. “O Trump começou a vender Bíblias com o rosto dele. Qualquer pessoa que faça uma pesquisa mínima sobre a trajetória do Trump sabe que de religioso ele nunca teve nada. Idem o Bolsonaro: nunca foi religioso, mas é conveniente se aliar a esse discurso.”

Ele também dá seu pitaco sobre a Argentina de Milei: “Nossos amigos ou rivais argentinos conseguiram colocar lá um presidente de ultradireita que comerá fazendo verderidos absurdos humanitários sob a ótica de reduzir as contas públicas. Um país que não leva em conta o seu material humano não leva em conta o fato de que, se você tiver fome, não adianta acertar as contas públicas”.

E aos que acusam as escolas brasileiras de doutrinar estudantis, Leonardo responde com ironia: “Dizem que formam comunistas. Eles nem sabem o que é comunismo. Quando falam em marxistas, nunca são pessoas que leram Karl Marx ou Ó capital. Estão apenas repercutindo aquilo que foi falado para elas em tom de preconceito”.

“Influenciador do Tabelião”

Desde 2005, Leonardo publica artigos em blogs, lança livros e participa de grupos de roteiristas de cinema e televisão. Seu currículo audiovisual inclui uma tentativa de sitcom, 100 Maneirasexibido no canal de TV Ideal (do grupo Abril) e hoje disponível no YouTube.

É também artista residente na New York Academy of Arts e realizou exposições em São Paulo e Miami.

Tia Bethseu livro de maiores fôlegos, nasceu durante a pandemia como um folhetim no Instagram. Com tintas autobiográficas, o romance apresenta um protagonista chamado Leonardo, que tem 18 anos em 1996, estuda Direito no Largo de São Francisco e vasculha os segredos de uma tia cuja vida foi destruída pela ditadura.

Paralelamente, Leonardo mantém uma conta no TikTok, na qual posta seus trabalhos de artes visuais e lê trechos do romance em voz alta.

Há ainda outra frente digital, mas na linha da “utilidade pública”: o 1º Tabelionato de Notas de Santos tem perfil ativo no Instagram. Nessa conta, Moraes dá uma de “tabelião influenciador”E responde a perguntas públicas em linguagem acessível.

Os temas são cartoriais — “como evitar briga por herança?”, “é preciso registrar a união estável?”, “o que é um testamento público?”.

“terrorismo emocional”

A exposição pública do cartório extrapolou recentemente o ambiente das redes sociais. Em fevereiro, foi protocolado no STF um pedido formal de suspeição contra o ministro Alexandre de Moraes, sob a alegação de que ele usava seu cargo para proteger o gabinete do irmão em Santos.

A questão é técnica, mas tem efeitos práticos: Leonardo de Moraes é tabelião concursado. No entanto, uma denúncia feita por Edmundo Berçot Júnior, ex-presidente do MDB de Praia Grande, sustenta que Leonardo estaria numa lista de “delegados irregulares” que deveriam ter sido destituídos do cargo por força de normas do Conselho Nacional de Justiça (CNJ) criado em 2009.

Uma polêmica surgiu durante o julgamento da ADPF 209, processo que apenas discutiu as regras para quem dirige carrinhos em São Paulo. Na época, Alexandre de Moraes foi o único que divergiu do relator e de todos os seus demais colegas: votou a favor da “perda de objeto”, uma manobra que, na prática, faria o tribunal parar de discutir o assunto e manteria tudo como estava.

Para os críticos, esse voto solitário serviu de escudo para “cegar” o irmão daquelas regras de afastamento do CNJ e garantir que ele continuasse à frente do establishment, conhecido na cidade como “Cartório Moraes”.

Leonardo nega qualquer irregularidade e defende seu direito ao posto com base no esfogo pessoal. “Estudei para caramba para passar nesse concurso”, afirma em entrevistas.

Ele classifica o pedido de suspeição como uma espécie de “terrorismo emocional ultradireto” e tenta usar sua trajetória para atacar o ministro. O processo, perómero, segue no STF, ainda sem decisão final.

Trabalho para a cunhada

Quem também ganhou fama repentinamente foi a mulher de Leonardo, Ana Claudia Consani de Moraes. Ela trabalhou como consultora no escritório Barci de Moraes – comandado por Viviane Barci, esposa do ministro Alexandre de Moraes e, portanto, sua cunhada.

A empresa firmou um contrato de R$ 129 milhões com o Banco Master e, em menos de dois anos, recebeu R$ 80,2 milhões, com pagamentos mensais de cerca de R$ 3,6 milhões. O acordo foi fechado quando o dono do banco, Daniel Vorcaro, foi preso pela primeira vez na Operação Compliance Zero.

Foi nesse contexto que Ana Claudia elaborou o Código de Ética do Banco Master — um documento que prometia garantir integridade e transparência, mas que acabou chamando atenção para erros básicos: trechos incompletos, partes de modelos prontos que não foram apagadas e até uma orientação que, segundo analisa, poderia abrir brecha para negociações irregulares.

O deputado federal Kim Kataguiri (União-SP) veio pedir a convocação da CPMI do INSS e também ao próprio Alexandre de Moraes para esclarecer as relações da família com o banco. Até agora, não houve uma resposta definitiva.

Enquanto isso, Leonardo de Moraes segue divulgando seu livro, sempre aproveitando a curiosidade dos entrevistadores com a relação do ministro do STF.

Em um podcast no canal de esquerda Fórum de TVLeonardo comentou no dia 8 de janeiro de 2023 com uma frase que diz muito sobre a visão que seu irmão tem: “Calhou de os bagunceiros de plantão caíram na mão [da pessoa] errada, na hora errada. Porque encontrei alguém que sabe do que está falando”.

Ao contrário dos “bagunceiros” que descreve, Leonardo de Moraes sempre esteve no lugar certo, na hora certa — e, sobretudo, com o sobrenome certo.

A reportagem da Gazeta do Povo Entrei em contato com Leonardo de Moraes para solicitar uma entrevista, mas não obtive retorno até a conclusão deste texto.

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