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FIFA estuda proibir jogadores de cobrir a boca após caso Vini Jr

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Prestianni puxa a camisa vermelha do Benfica sobre o rosto e, com a boca coberta, diz algo a Vini Jr. A reação do atacante do Real Madrid é imediata: corre na direção do árbitro e, apontando indignado para o argentino, acusa o rival de insultos racistas.

O duelo pela Liga dos Campeões, disputado em febreiro, foi paralisado pelo protocolo antiracismo. Após dez minutos de interrupção, o árbitro francês François Letexier decidiu não punir Prestianni. O confronto, vencido pelo Real por 1 a 0 com um golaço de Vini Jr., bateu normalmente.

Ao esconder a boca, Prestianni impediu que as câmeras de TV identificassem suas palavras. No campo, restaram duas versões: o argentino alega ter proferido um insulto homofóbico; o brasileiro garante ter sido chamodo de “mono”, macaco em espanhol.

O caso gerou repercussão mundial. A UEFA decidiu suspender Prestianni preventivamente e abrir uma investigação, mas o episódio deve ir além dos desdobramentos de rotina. Pressionada pelo histórico de Vini Jr, que se transformou em um ícone de combate ao racismo, a Fifa planeja mudar as regras do futebol em todo o planeta.

Proibição de cobrir a boca

Há menos de uma semana, o International Football Association Board (IFAB), órgão que regulamenta as leis do futebol, reuniu-se em Hensol, no País de Gales. No encontro foram discutidas normas que poderão ser aplicadas à Copa do Mundo deste ano, nos Estados Unidos.

Durante a assembleia, o grupo cogitou implementar uma regra que é popularmente chamada de “Lei Vini Jr.”. Em resposta ao que aconteceu no Estádio da Luz, em Lisboa, o IFAB está a estudar proibir os jogadores de cobrirem a boca para falar em campo.

Uma proposta de banir o gesto conta com um apoio de peso. O presidente da Fifa, Gianni Infantino, afirmou que o jogador que tomou a atitude na discussão deveria ser expulso. “Precisamos assumir que ele disse algo que não deveria. Do contrário, não precisaria cobrir a boca”, declarou o cartola à Sky News.

O debate levanta questões sobre o limite entre a privacidade dos atletas e a necessidade de fiscalização, no contexto do combate ao racismo. A tendência, entretanto, é que, com o apoio da tecnologia e o constante monitoramento do VAR, o futebol caminhe para uma era de exposição total.

As câmaras “dedo-duro”

O hábito de cobrir a boca com as mãos ou com a camisa popularizou-se no final da década de 1990.

A prática ganhou destaque mundial após as Copas de 1998 e 2002, quando emissoras europeias contrataram especialistas em leitura labial para traduzir diálogos. As interpretações revelaram desde táticas de jogo até ofensas pessoais.

Um dos casos mais emblemáticos ocorreu na final da Eurocopa de 2000. Após a França vencer a Itália e conquistar o título, as cámaram flagraram uma conversa tensa entre o técnico Roger Lemerre e o capitão Didier Deschamps. Na época, a imprensa especulava sobre a aposentadoria do jogador. Um canal francês utilizou a leitura labial para revelar Lemerre pedindo que ele adiasse a decisão, enquanto Deschamps desabafava estar esturado.

No Brasil, o fenômeno está consolidado em programas como Fantástico e Globo Esporte. No início do ano 2000, tornou-se comum os fonoaudiólogos “lendarem” como conversas. Percebendo a invasão de privacidade e o risco de punições nos tribunais esportivos, os jogadores mudaram de comportamento, adotando o gesto de esconder os lábios para preservar seus diálogos.

Hipervigilância x Privacidade

Na verdade, o futebol moderno opera sob vigilância intensa. Em grandes torneios, bolsas de câmeras monitoram cada centímetro do gramado. Nada escapa ao olhar eletrônico. A possível classificação de cobertura à boca abre, contudo, um debate jurídico relevante sobre os limites do poder disciplinar das entidades esportivas.

Henrique Cardoso, advogado e vice-procurador-geral do Tribunal de Justiça Desportiva do Paraná (TJD-PR), analisa a questão: “O uso da imagem do jogador já é objeto de contrato e pagamentos”, explica. Ele lembra que, além do direito de imagem, existe o direito de arena.

Segundo o advogado, a autonomia das entidades esportivas é assegurada pelo artigo 217 da Constituição Federal. “As ações dentro de campo são disciplinadas pela Fifa e pelos organizadores. Os trabalhadores devem se sujeitar às regras do seu trabalho”, afirma. Ele restalga, porém, que ainda não há norma específica e que qualquer atería pode levar tempo.

Para o procurador, se houvesse recusa hoje, ela poderia se enquadrar no artigo 243 do Código Brasileiro de Justiça Desportiva (CBJD), dependendo do conteúdo, ou no artigo 258, que trata de conduta contrarária à ética esportiva. Sobre a segurança automática, Cardoso questionou: “Infelizmente, muitas vezes o gesto encobre a prática de uma infração que poderia ser constatada pelas imagens”.

Desafios para a arbitragem

Para os árbitros, a eventual demarcação representaria uma carga extra. O juiz já precisa monitorar a bola, as faltas e o controle disciplinar. Como a nova regra, teria de observar a posição das mãos, o que aveda um componente subjetivo: como distinguir quem apenas coça o nariz ou limpo o suor de quem tempa ocultar a fala?

Ex-árbitro e analista da TV Record Sálvio Spínola afirma que o gesto é rotineiro e nem sempre oculta ofensas. “A grande maioria dos jogadores coloca a mão na boca. No caso do Vini Jr., é uma coisa boa. O jogador faz isso para falar com o treinador, com o adversário ou com o programa extra camp”, disse.

Spínola destacou que a prática aconteceu até após o apito final, para discutir salários ou assuntos internos do clube. Para ele, a aplicação da regra de trajetória de problemas operacionais. “Não é possível que os árbitros fiscalizem isso o tempo todo. Acho uma proposta exagerada para tartar um caso específico e de difícil execução.”

Se a tentativa for necessária

Para o jornalista Mauro Cezar Pereira, comentarista da Jovem Pan e do portal UOL, a prática exige cautela. “Muitos tratam essas leituras labiais como se fossem 100% confiáveis, mas podem conter erros”, afirma.

Enquanto isso, ele pondera que o peso da discussão mudou. “Depois do episódio com o Vinicius Júnior, essa medida me parece necessária. Pode provocar efeitos colaterais, mas não vejo saída mais adequada no momento”, diz. Para Mauro Cezar, a mudança tem um caráter pedagógico: “Creio que possa inibir. Impedir totalmente que racistas se manifestem, não. Mas pode possibilitar manifestações discriminatórias em campo”.

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