Música
Fãs estão literalmente vendendo o próprio sangue por ingressos para shows de Harry Styles

Quando Chante Whyte viu Harry Styles anunciar seu quarto álbum de estúdio Kiss All The Time. Disco, Occasionally., seu primeiro pensamento foi de pura alegria com o retorno de seu artista favorito. Mas, assim que as datas da turnê foram anunciadas, outro sentimento ameaçou tomar conta: preocupação.
Para Daniella Barone, de 24 anos, conseguir ingressos é mais do que simplesmente se divertir em uma noite de festa. É a sua segunda chance de vivenciar um fandom que ela ama. A estudante de ilustração frequenta a faculdade na Flórida, mas é originalmente da Venezuela. Ela planejava ir a um show em Miami em 2020, mas teve que sair do país para obter seu green card (cartão de residência permanente dos Estados Unidos). Então, a Covid-19 chegou, fechando a embaixada e a deixando presa na Venezuela por vários meses. Quando finalmente conseguiu voltar aos Estados Unidos, o show havia sido cancelado.
“Eu ouço One Direction desde os 11 anos e agora tenho 24”, diz ela. “Sempre amei a música do Harry, mas também amo o fandom. É como uma pequena família. Isso sempre foi algo que me atraiu muito; ter essa comunidade”.
Ela contou à Rolling Stone que, no minuto em que viu o anúncio da turnê, soube que precisava de dinheiro rápido. Mas, como estudante, precisava de um emprego que não interferisse em sua agenda de aulas lotada. Sua solução? Doação de plasma. Ela já doou duas vezes e planeja continuar doando até conseguir pagar dois ingressos e passagens aéreas para Nova York. E o resto? Bem, ela não tem tanta certeza. “Só posso comer uma vez por dia, mas já fiz isso antes!”, diz ela, rindo. (A prática é geralmente considerada segura para pessoas com 17 anos ou mais que atendam a certos requisitos médicos, de acordo com a Clínica Mayo e a Cruz Vermelha Estadunidense, mas é importante esperar pelo menos 28 dias entre as doações.)
Ava Engle, de 18 anos, teve uma ideia semelhante. A estudante da Universidade Estadual de San Diego se descreve como uma frequentadora assídua de shows. “Já travei muitas batalhas contra a Ticketmaster”, diz ela. Mas, como universitária, ela conta à Rolling Stone EUA que sua agenda limita bastante o tipo de trabalho que pode fazer para ganhar dinheiro e acompanhar as aulas. Ela tem pavor de agulhas, mas depois de não conseguir encontrar um ingresso para o show de Styles por menos de US$ 1.000 na venda oficial da Ticketmaster, ela se inscreveu para doar plasma.
Cada sessão rende a ela cerca de US$ 90 (aproximadamente R$ 472) , o que, segundo ela, dá uma boa soma quando ela também dá aulas particulares. Durante as férias escolares, ela também recebe o valor do salário mínimo trabalhando na recepção de um clube de natação, então, com essas três fontes de renda, ela espera ter o suficiente. Mas ter que se esforçar tanto para conseguir os mesmos ingressos pelos quais algumas pessoas pagaram US$ 200 (aproximadamente R$ 1050) na última turnê ainda a frustra.
“Tenho terror de agulhas, e estava morrendo de medo”, diz ela. “Sentada na cadeira, comecei a ter dúvidas. Tipo, ‘O que estou fazendo?’ Eu só queria ver um dos meus artistas favoritos. Não deveríamos ter que fazer tudo isso só para conseguir dinheiro para ingressos para uma noite”.
“Eu faço tudo certo. Não sou um robô. Então, o fato de eu ainda ser a [100.000ª na] fila e, quando finalmente entro, vejo os preços dos ingressos e não há quase nada disponível, e todos custam mais de US$ 1.000 ou US$ 700 (aproximadamente R$ 5.251 e R$ 3.675, respectivamente) e nem são lugares incríveis. É muito frustrante”, diz Engle. “É tipo, ‘Harry, o que estamos fazendo?’”
Aaron Fern, de 28 anos, não era um grande fã do One Direction. Mas quando ouviu o primeiro álbum solo de Styles, se apaixonou imediatamente. Styles tem sido um de seus artistas favoritos todos os anos desde 2019. Quando ele e seus amigos viram o anúncio da turnê, ele correu para o grupo de mensagens. “Foi tipo, ‘Precisamos comprar ingressos’”, diz ele. “Parecia que precisávamos ir agora, ou então seriam mais cinco anos até vê-lo”.
Fern se inscreveu em dezenas de pré-vendas para os shows no Madison Square Garden, mas ainda planeja se endividar ainda mais no cartão de crédito para comprar os ingressos. Seu orçamento previsto era de cerca de US$ 1.000 (R$ 5.251) para dois ingressos, mas depois de falhar em várias pré-vendas, ele diz que vai com tudo e está procurando um segundo emprego. “Estou realmente surpreso. Não culpo o Harry, porque é como culpar o homem do tempo pelo clima. Mas é uma loucura”, diz ele. “Estou procurando trabalhos como bartender, em restaurantes, em lojas de discos. Qualquer coisa em que eu sinta que tenho experiência, mas que também possa me render dinheiro rapidamente”.
Quando Whyte, de 25 anos, pensa nas dezenas de vezes em que assistiu aos shows de Styles, ela os descreve como experiências “transformadoras”, repletas de amizade e senso de comunidade. “Na última turnê do Harry, eu fui a quase 30 shows. É meio insano”, diz ela, rindo. “Eu sempre digo para minha mãe que tem um neurônio que entra em curto-circuito quando se trata desse homem”.
Como os ingressos estão muito caros, Whyte, formada em direito e atualmente estudando para o exame da Ordem dos Advogados, diz que terá que usar boa parte de suas economias para ver Styles se apresentar ao vivo. É um sacrifício que ela está disposta a fazer — principalmente porque planeja ir ao máximo de shows para os quais conseguir ingressos. Mas Whyte disse à Rolling Stone que o alto custo dos ingressos é mais do que frustrante — parece contradizer os temas que Styles promove.
“Existe um fascínio em estar num show do Harry Styles. Sim, é o Harry. Mas também tem a ver com a comunidade à qual você se junta, estar na pista, dançando junto, acampando. É essa sensação de pertencimento que me faz voltar sempre”, diz ela. “Acho irônico que toda a turnê se chame Together, Together e que a ideia seja de que pertencemosjuntos, quando os preços dos ingressos claramente dizem o contrário”.
