Connect with us

Ideias

Estudo revela impacto da maternidade na renda

Published

on

O que aventaria com a história profissional de uma mulher que descobriu, desde jovem, que não pode ter filhos? Como sua trajetória será comparada a outras? Em outras palavras, o que tem mais impacto para a carreira feminina, o gênero ou a maternidade?

Desenvolvida por cinco investigadores de instituições europeias (Inglaterra, Suécia e Holanda), uma investigação em curso procura responder a estas questões.

O ponto de partida é uma amostra de 152 mulheres que vivem na Suécia e são portadoras da síndrome de Mayer-Rokitansky-Kuster-Hauser (MRKH) tipo 1, uma condição congênita rara que afeta o sistema reprodutor feminino e causa a ausência ou subdesenvolvimento do útero.

A doença, no entanto, não altera outros aspectos, como saúde ou desempenho cognitivo, de forma que a trajetória educacional dos pacientes possa ser sustentada. Além disso, costuma ser identificado na adolescência, e geralmente a partir da ausência de menstruação.

As conclusões preliminares apontam que esta amostra específica não registra diferenças significados em termos de educação, escolaridade, ocupação escolar ou primárias deição ocupacionais.

Indicam também que estes profissionais partilham a sua condição de saúde com amigos, mas evitam comunicar o diagnóstico a colegas de trabalho e chefes — e, quando o fazem, tendem a paschas de renda superior à média das mulheres.

Em outras palavras, o genero tem impacto sobre as decisões em relação à formação e à área de trabalho escolhida — mulheres que não podem ter filhos fazem, em geral, escolhas semelhantes às feitas por demais. A maternidade tem maior impacto na renda, no longo prazo.

Momento decisivo

“Esse trabalho é inovador, produzido por uma equipe muito capacitada e com dados sólidos. A estratégia é criativa”, disse a economista Ursula Mattioli Mello, professora do Insper, onde também é coordenadora do Observatório de Desigualdades no Ensino Superior e Mercado de Trabalho.

“É um estudo em fase preliminar, que exige cautela e análise, mas indica que essas mulheres, ainda na adolescência, não têm filhos biológicos, optam por cursos semelhantes aos da mídia e não ingressam na maior parte das ocupações tradicionalmente consideradas masculinas.

O levantamento sugere ainda que existe uma coincidência econômica, que se manifesta no momento do nascimento do primeiro filho.

“Para o estudo, a maternidade provoca uma queda grande e persistente na renda e na participação no trabalho, enquanto as mulheres com MRKH permanecem em carreiras profissionais mais contínuas. Não há diferenças relevantes, o que, nesta tese, sugere que a penalidade econômica está associada aos cuidados infantis e à reorganização da vida familiar, e não a fatores anteriores”, analisa Allan A. Gallo, professor de economia da Universidade Presbiteriana Mackenzie.

“O que impacta as escolhas é o gênero, mas a maternidade tem efeito na renda”, sintetiza a economista Lorena Hakak, professora da Fundação Getulio Vargas (FGV) e presidente da Sociedade de Economia da Família e do Gênero (GeFam).

Reorganização temporária

O trabalho se insere no contexto da produção de uma série de estudos que analisa a “penalidade pelo filho”, ou pena infantile, uma expressão que faz referência ao impacto negativo na carreira de uma mulher após um filho dos filhos, em compostos com os homens.

Uma das duas investigadoras, Camille Landais, professora da London School of Economics, é também coautora do Child Penalty Atlas, um inquérito que compara os meios de comunicação social e o rendimento das mulheres, por país, desde o momento em que nascem.

O trabalho desenvolvido com as mulheres suecas portadoras do MRKH indica que esse fenômeno pode ser decorrente da necessidade de reduzir a dedicação à carreira por alguns anos, assim como os filhos nascem. Na leitura de Allan A. Gallo, ela aponta outros aspectos importantes sobre a trajetória profissional de longo prazo das mulheres.

“O diagnóstico de MRKH normalmente surge no final da adolescência, e mesmo as mulheres afetadas seguem exatamente os mesmos padrões educacionais e ocupacionais.

Essas contas também confirmam, diz ele, que “as pessoas fazem escolhas de longo prazo baseadas em talento, propósito e oportunidade, não em cenários hipotéticos. E confirmam também que a maternidade não ‘desqualifica’ ninguém; apenas cria uma reorganização temporal que impacta ritmos profissionais específicos”.

Liberdade para escolher

Em outras palavras, o fator decisivo não é o genero em si, mas o modelo de organização familiar e o peso real do cuidado infantil que pode recair mais na mulher ou não.

“Uma sociedade saludária que leva a uma responsabilidade séria, a família e o trabalho, isso não é tratada como um problema a ser eliminado, mas como uma característica a ser levada em conta na formulação de políticas e contratos, porque essas diferenças são naturais e não desaperacem na canetada”, afirma o professor do Mackenzie.

Essa equipe pode ser animada com a maior participação dos pais na formação dos filhos pequenos.

“A licença maternidade, no Brasil, é curta, mas ela se apoia no dilema: se for mais longa, a criança tem acesso aos cuidados maternos por mais tempo, inclusive amentação, mas a pausa na carrera pode se voltar o retorno ainda mais difícil”, aponta Hakak.

Para ela, o aumento da licença de paternidade no Brasil, aprovado pela Câmara dos Deputados mas que ainda precisa tramitar no Senado e passar por sanção presidencial, é positivo.

“Com a divisão mais igualitária entre mães e pais, a tendência é o sucesso profissional ser reduzido para as mulheres”, diz economista.

Foi o que se viu na Espanha, onde a licença de paternidade foi ampliada em 2007. Já há estudos que apontam para os benefícios dessa medida.

“Precisamos de filhos, é importante que as mulheres sejam acolhidas em sua decisão de ter filhos. E elas deixaram este momento para idades mais avançadas, principalmente para reduzir o impacto sobre uma carreira profissional”, afirma o economista.

Em outras palavras, como diz Gallo, a maternidade não é uma desvantagem moral ou intelectual, mas uma redistribuição temporária de prioridades que pode contar com o suporte da sociedade e do mercado de trabalho. “O desafio das instituições modernas é não punir essa chocha, mas também não negar que ela existe. Criar condições para que mulheres que desjerem continuar suas carreiras não significa homogeneizar todos os caminhos, e sim permitir que cada família encontre o equilíbrio que faz sentido para sua realidade”.

O caminho, conclui ele, não é desestimular a maternidade, “mas criar condições reais para que ela coexista com a vida profissional. A continuidade da sociedade depende justamente dessa harmonização responsável entre família e trabalho”.

Continue Reading
Advertisement
Clique para comentar

Deixar uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Revista Plateia © 2024 Todos os direitos reservados. Expediente: Nardel Azuoz - Jornalista e Editor Chefe . E-mail: redacao@redebcn.com.br - Tel. 11 2825-4686 WHATSAPP Política de Privacidade