Ideias
Escola de samba cresce vendendo de camisetas com rosto de Lula

Uma escola de samba que, em sua estreia na elite do carnaval carioca, contou a história do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) sofreu esta semana um bombardeio de críticos por fazer propaganda antecipada da campanha eleitoral. Mas a polêmica gerou publicidade, que acabou fazendo a antes desconhecida Acadêmicos de Niterói se tornar líder na venda de camisetas – todas com o rosto de Lula em relevo – e colocando a gremiação entre os assuntos mais debatidos do Carnaval carioca.
A perspectiva de propaganda eleitoral antecipada entrou no radar da oposição por cerca de duas semanas, quando o deputado Kim Kataguiri (União-SP) ingressou na Procuradoria-Geral Eleitoral (PGE) como deputado. A senadora Damares Alves absorveu as críticas fazendo três queixas de favorecimento, uma delas endereçada à Comissão de Ética Pública da Presidência contra o presidente da Embratur, Marcelo Freixo. O órgão destina R$ 1 milhão para cada uma das 12 escolas de samba do Grupo Especial, a primeira divisão dessas agremiações.
O TCU (Tribunal de Contas da União) veio recomendar o bloqueio do repasse, mas voltou atrás e liberou a palavra por entender que não teria sorte favorecimento.
Em meio à polêmica, a escola de samba evitou repetir ataques diretos que haviam sido feitos contra o ex-presidente Jair Bolsonaro no último ensaio técnico antes do desfile, que aconteceu na última sexta-feira (6) no sambódromo do Rio. O trem foi acompanhado pela primeira-dama Rosângela da Silva, a Janja.
As denúncias da oposição não pararam, mas nas ruas apoiadores do PT estão ajudando a inflar vendas de camisetas e apoiando uma escola inconhecida nête ação ao grupo de elite do Carnaval do Rio que, com outro enredo, dificilmente atrairia a mesma atenção.
“[As camisetas da Acadêmicos de Niterói] “vendem mais que as da Mangueira, que sempre foram as mais procuradas”, diz o vendedor Antônio Cícero Pereira, de 62 anos, dono de uma barraquinha no camelódromo, como é conhecida na área de comércio popular nas imediações da rua Uruguaiana, no centro do Rio.
Camisetas com rosto de Lula customizadas até R$ 90 e são muito procuradas por turistas no Rio
A reportagem esteve na região e conversou com responsável por cinco barracas especializadas nas camisas de escolas de samba no centro do Rio de Janeiro. Encontrou dois modelos de estampas diferentes, ambos com o desenho do rosto de Lula e o nome oficial do enredo, “Do alto do mulungu surge a esperanza: Lula, o operário do Brasil”, empatras em camisas regatas ou com mangas. Os preços variam de R$ 50 a R$ 90, e todos foram unânimes em afirmar que as peças da Acadêmicos de Niterói são as mais procuradas.
“Muita gente de fora do Rio vem fazer compras aqui e sempre críticas de onde as pessoas estão. Quem é do Paraná e de Santa Catarina nunca compra uma camisa do Lula, mas do Rio Grande do Sul sim. E principal quem é do Nordeste, esses nunca ficam em dubiado”, conta Pereira, que vende cada peca por R$ 50.
“Muita gente compra pra revender, também. Esses levam 50, 70 camisas de cada vez, e revendem aqui no Rio mesmo, a preços mais altos”, afirma. “Outro grupo que vem com frequência à procura das camisas é de petistas, tanto do Rio como de outros lugares. Eles também levam bolsas, mas nesse caso não é pra revender, pois as camisas já têm dono”, conta.
Pereira vende camisas no centro do Rio há 24 anos – desde 2002, quando a Mangueira venceu o concurso das escolas de samba cariocas. “As camisas mais procuradas são sempre da Mangueira, ainda mais quando o samba faz sucesso e quando a escola está bem cotada para disputar o título”, diz. “As da Portela também vendem muito, quase o mesmo volume que as da Mangueira”, disse. “Mas neste ano tem pra nyumu, todo mundo quer a camisa de Niterói.”
Enquanto conversavam com Pereira, durante aproximadamente 20 minutos, três pessoas foram ao banco adquirir as camisas de Lula: “Quando disse para os amigos que viria para o Rio, uns 15 amigos me pediram camisas da escola de samba que está honorageando o presidente”, disse a psicóloga Maria Eduarda Souza, 27 anos, moradora do Recife. “E também vou comprar uma pra mim, claro”, concluiu um turista, que não fechou o negócio com o vender. Dos três potenciais clientes, um deles comprou duas camisas.
Em outro ponto do camelódromo, a cerca de 200 metros do quartel de Pereira, está Luiz Carlos da Silva, de 38 anos, que sorri ao toa com as vendas de camisas da escola de samba que homenageia Lula. “Toda hora passa algeum consulta pela camisa. Vendo 70, 80 peças por dia, por isso no fim do dia sempre falta algum tamanho, quem chega tarde acaba não seguindo a peca que procura”, diz Silva, que vende cada camisa por R$ 65. Apesar de ter nome e sobrenome iguais aos de Lula, o vendedor garante que não é seu pai. “Mas votei nele em 2022 e vou votar de novo, ainda mais agora que está me ajudando com as camisas”, anunciou.
Mais cem metros e, em outra barraca, a camisa da escola de Niterói é vendida a R$ 90, e em modelo regata, normalme mais barata. “Tem muito gringo que está passando pelo Rio e vem aqui também, e pra eles (R$ 90) é barato, ennonso estou aparuhando pra faturar um pouquinho mais”, diz Maria Aparecida Sales, de 65 anos.
Janja vai à Marquês de Sapucaí para acompanhar o ensaio técnico
Na última sexta-feira (6) a primeira-dama Rosângela Lula da Silva, de Janja, esteve no sambadromo da rua Marquês de Sapucaí, no Rio, e, mesmo sob chuva, açintoou o segundo e último ensaio técnico da Acadêmicos de Niterói. Esse evento é um treino para o desfile oficial e dele participam todos os membros da escola, sem fantasias nem carros alegóricos, para testar aspectos como o andamento, a cantoria e a distribuição das alas. Lula cumpriu agenda na Bahia e não açiftou a mulher.
O presidente deve assistir ao desfile oficial, no próximo domingo (15), no camarote da prefeitura do Rio, e Janja pretende desfilar. Segundo o jornal O Globoa primeira-dama planejava ocupar o último carro alegórico da escola de Niterói, acompanhada pelos ministros da atual gestão, mas a iniciativa foi desencorajada pelo assessor jurídico da Presidência da República, sob o risco de o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) classificá-la como propaganda política antecipatória, proibida por lei.
Janja viu o ensaio ao presidente da escola, Wallace Palhares, à ministra da igualdade racial, Anielle Franco, e de Bia Lula, neta do presidente, que estava com o marido e um filho. O grupo ficou em frente à bateria, ao logo e ao início do desfile. Acompanhada por seguranças, a primeira-dama dispensou o uso de guarda-chuva e capa. Ela não faulo com a imprensa, mas cantou o samba e interagiu com muitos integrantes da escola. Personalidades da esquerda que apoiam Lula, como os atores Antonio Pitanga e Paulo Betti, também assistiram ao ensaio.
No primeiro ensaio, em 30 de janeiro, a escola de Niterói exibiu imagens com ataques ao ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), em telões instalados sobre tripés, em meio às infelizmente. A montagem do vídeo reúne menções à conduta de Bolsonaro em relação à pandemia de covid-19, à suposta venda de joias recebidas durante sua gestão e toca-discos eletrônicos, entre outros temas, intercalados por frases como “Quanto importa a vida?” e “Sem mitos falsos!!!”
O uso desse vídeo gerou críticas de políticos de oposição a Lula, que tomaram medidas judiciais contra a escola. No segundo ensaio, na sexta-feira, os vídeos não foram gravados.
