Celebridade
Entre tabus, Daniel Perpétuo trata a saúde masculina com escuta

Há homens que chegam ao consultório com um sintoma. Outros chegam, antes de tudo, com receio. Quando o assunto envolve próstata, sexualidade ou dificuldade para urinar, o silêncio costuma vir junto. O médico Daniel Perpétuo construiu sua trajetória profissional em contato direto com esse tipo de paciente, que muitas vezes adia a consulta, tenta normalizar o desconforto e só procura ajuda quando o incômodo começa a interferir na rotina. Em sua fala, técnica e acolhimento não aparecem como campos separados. O cuidado, para ele, começa quando o paciente consegue falar.
Daniel nasceu em São Paulo, mas foi ainda bebê para o Rio de Janeiro, cidade onde cresceu, estudou e construiu a carreira. Entre uma origem e outra, costuma falar dessa trajetória com leveza, como alguém cuja formação afetiva e profissional aconteceu no Rio. Foi ali que cursou Medicina na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e onde começou a se aproximar da área em que passaria a atuar.
Ainda na graduação, conheceu o médico Fernando Vaz, nome que aponta como decisivo nesse caminho. O contato não ficou restrito ao ambiente universitário. Enquanto estudava durante a semana, acompanhava cirurgias aos sábados, numa rotina que fez a especialidade ganhar forma concreta diante dele. O interesse deixou de ser apenas uma possibilidade e passou a se organizar em torno da prática, da observação e da convivência com o cotidiano cirúrgico.
Depois da formação na UFRJ, seguiu para a residência no Hospital Pedro Ernesto, da Universidade do Estado do Rio de Janeiro. Essa etapa o colocou diante de duas realidades distintas da medicina: a do hospital público, com suas limitações e exigências diárias, e a da rede privada, com outros recursos e outra velocidade. Essa diferença moldou seu modo de enxergar a própria profissão. O cuidado, em sua leitura, nunca depende apenas de técnica. Também depende de acesso, estrutura, presença e continuidade.
O hospital, a chefia e o amadurecimento da prática
Hoje, Daniel está à frente da chefia de clínica do serviço de Urologia do Hospital Federal dos Servidores do Estado, no Rio de Janeiro. Ao falar do hospital, ele menciona tanto a relevância histórica da instituição quanto as dificuldades concretas de sustentar um serviço público de qualidade em meio à burocracia, à limitação de recursos e à necessidade constante de negociação.
A chefia chegou em um momento de virada. Havia, da parte dele, a possibilidade de deixar o serviço, já pressionado por uma vida externa intensa. O convite para assumir a função alterou esse percurso e deu novo sentido à permanência. “Eu estive quase saindo dos servidores quando me chamaram para ser chefe. Isso me deu um ânimo, uma força muito grande. Agora não tem a menor chance de eu sair de lá.” A fala ajuda a entender que sua relação com o hospital não é apenas funcional. Há ali um vínculo construído no cotidiano e reafirmado na escolha de permanecer.
Ao falar desse lugar, Daniel volta a um ponto que considera central: um serviço só se fortalece de fato quando consegue cuidar dos pacientes e formar bem os residentes ao mesmo tempo. “Se você melhorar a formação do residente, você vai melhorar o tratamento dos pacientes.” E emenda, com a mesma lógica: “Melhorar o tratamento é também melhorar os residentes.” Na prática, sua visão de medicina passa também pela responsabilidade de ensinar, orientar e deixar estrutura para quem vem depois.
Próstata aumentada e os sintomas que muitos homens ignoram
Entre os temas que mais atravessam sua rotina está a hiperplasia prostática, condição frequente com o passar dos anos e ainda cercada por desinformação. Daniel explica o quadro de forma simples e direta. “A partir dos 40, 45 anos, a próstata começa a crescer.” Esse crescimento, porém, não significa automaticamente um problema importante. O ponto central, como ele ressalta, está no efeito funcional desse aumento. “O crescimento da próstata não significa problema por si só. Para trazer problema, ela tem que atrapalhar o esvaziamento da bexiga.”
Essa explicação ajuda a desfazer um dos atalhos mais comuns no imaginário masculino: a ideia de que toda próstata aumentada é automaticamente uma ameaça grave, ou de que o tamanho do órgão, sozinho, define o grau do problema. Daniel insiste em uma frase que resume bem essa cautela. “Tamanho de próstata não é documento.” Em outras palavras, há homens com próstatas maiores e poucos sintomas, assim como há casos em que alterações menores já produzem impacto relevante sobre a rotina.
Os sinais aparecem de maneiras conhecidas, embora frequentemente banalizadas: jato urinário mais fraco, demora para começar a urinar, interrupções na micção, sensação de esvaziamento incompleto e aumento da frequência urinária, especialmente à noite. Para ele, há um sintoma que merece atenção especial. “Aquele senhor que acorda três, quatro, cinco vezes durante a noite, isso não é um bom sinal.” O problema, diz, é que muita gente vai se acostumando a esse desconforto antes mesmo de entendê-lo como algo que deveria ser avaliado.
Com o tempo, a bexiga também sente o efeito desse processo. Daniel explica que ela passa a funcionar sob esforço, pode perder eficiência e trazer repercussões que ultrapassam a esfera urinária. “A qualidade de vida do homem que urina mal é muito ruim.” Sono interrompido, deslocamentos planejados em função do banheiro, receio em viagens e limitações em programas simples entram nessa conta. Em vez de aparecer como urgência explícita, o problema vai ocupando espaço na rotina até se tornar normalizado.
Ele também chama atenção para outro ponto importante: muitos homens só percebem a gravidade do quadro quando a limitação já está instalada. Ao falar desse impacto na rotina, Daniel lembra que a hiperplasia não afeta apenas um órgão, mas a forma como o paciente vive. “Aquele senhor que chega em um evento social, a primeira coisa que ele quer procurar é saber onde é que é o banheiro.” A frase ajuda a traduzir, de maneira concreta, como um sintoma que parecia banal pode reordenar silenciosamente a vida inteira.

O medo, a sexualidade e os tabus no consultório
Se os sintomas urinários costumam ser minimizados, o medo que os acompanha muitas vezes fica ainda mais escondido. Daniel observa que o homem chega ao consultório já cercado por uma camada anterior de resistência. “O homem já chega aqui sem querer estar aqui.” Por isso, para ele, a consulta não começa com a conduta, mas com a escuta. “A primeira parte é escutar.”
Essa escuta, no entanto, não se resume a ouvir. Ela também exige desmontar a tensão inicial. Daniel conta que procura tornar esse encontro mais leve desde o começo. Há, em seu consultório, um quadro do Zico que frequentemente abre espaço para um comentário sobre futebol e ajuda a quebrar o gelo. “Eu tento ser o mais leve possível.” Em uma área cercada por vergonha, ansiedade e silêncio, tornar o ambiente menos duro é uma forma concreta de cuidado.
Na experiência dele, o maior medo masculino no consultório costuma ter relação direta com a sexualidade. “Se você perguntar realmente o que é o primeiro medo, a parte sexual do homem é uma coisa impressionante.” A apreensão aparece tanto diante da possibilidade de uma doença quanto diante do tratamento. Muitos pacientes chegam preocupados com o impacto de remédios, cirurgias e procedimentos sobre a própria vida íntima. “Esse é o grande medo do homem aqui no consultório.”
Essa ansiedade também é alimentada por mitos. Um dos exemplos mais frequentes, segundo ele, aparece na vasectomia. Há homens que acreditam que o procedimento pode diminuir testosterona, desejo sexual ou virilidade. Daniel rebate essa associação e usa o tema como exemplo de quanta desinformação ainda cerca a saúde masculina. A cirurgia, explica, modifica a composição do sêmen, mas não redefine masculinidade nem atua dessa forma sobre a vida sexual.
O mesmo esforço de esclarecimento vale para a próstata. “A próstata é um órgão de fertilidade. Não é um órgão de ereção.” Essa distinção é essencial para reduzir medo e desinformação. Em muitos casos, o paciente chega ao consultório com associações apressadas entre próstata, sexualidade e perda de desempenho. Para Daniel, parte do trabalho é justamente desfazer esse emaranhado de ideias antes que ele produza mais medo do que informação.
Também por isso, a consulta se torna um espaço em que acolhimento e orientação caminham juntos. Não basta nomear o sintoma. É preciso entender o que aquele paciente teme perder, o que ele silenciou e o que ainda não conseguiu perguntar. Daniel observa que essa resistência masculina tem raízes culturais antigas. Isso porque o homem ainda carrega a ideia de que não pode adoecer, de que deve suportar sozinho e de que prevenção seria quase um sinal de fraqueza.
Há também um detalhe cotidiano que ajuda Daniel a contar essa história com precisão. Muitas vezes, os homens não chegam ao consultório sozinhos. São levados, ou ao menos impulsionados, por mulheres da família. “Se não fossem as mulheres, metade dos meus pacientes não viriam.” Mães, esposas, irmãs e filhas acabam sendo responsáveis por romper a inércia e empurrar esse primeiro movimento de cuidado.
Tratamento, critério e decisões individualizadas
Na prática clínica, Daniel evita qualquer ideia de resposta única. Nem todo paciente com sintomas urinários precisará do mesmo tratamento, e nem toda técnica mais recente será a melhor opção em qualquer caso. Há situações em que o acompanhamento basta, outras em que medicamentos entram em cena e outras em que procedimentos passam a ser discutidos. Em sua fala, o tratamento precisa sempre partir da combinação entre: quadro clínico, anatomia, expectativa do paciente e impacto sobre a qualidade de vida.
Ao falar sobre hiperplasia prostática, ele lembra que a medicina passou muitos anos com poucas mudanças nas abordagens disponíveis e que, mais recentemente, começou a conviver com a ampliação de alternativas menos invasivas. Entre elas, cita o uso do laser e o Rezūm, procedimento com vapor d’água aplicado em situações selecionadas. Daniel explica que essas técnicas ampliaram o leque de possibilidades, mas não substituíram o critério médico. “O novo não quer dizer que seja o melhor.”
Esse ponto, para ele, é decisivo. Muitos pacientes chegam ao consultório já pedindo uma técnica específica porque ouviram falar dela nas redes sociais ou por indicação de conhecidos. “Para o paciente é muito sedutor uma técnica nova.” Nesse cenário, a tarefa do médico é recolocar a decisão no terreno da análise individual. Nem tudo o que parece mais moderno será o mais adequado. “A gente vai ter que discutir.” Em sua visão, a indicação depende do formato da próstata, dos sintomas, do momento de vida e do que aquele homem espera preservar.
A conversa se torna ainda mais delicada quando envolve vida sexual. Daniel não evita esse tema e tampouco o trata como detalhe. Ao contrário, o médico entende que o paciente precisa saber, com clareza, o que pode ou não ser afetado por cada abordagem. “Esse assunto tem que ser muito bem discutido.” Em alguns casos, a prioridade estará em aliviar a obstrução urinária. Em outros, em preservar a ejaculação. Em outros ainda, em equilibrar risco, segurança e expectativa. O importante, para ele, é não reduzir essa escolha a uma decisão automática.
A prevenção entra nessa lógica como rotina, e não como susto. Daniel insiste que muitos problemas do homem avançam em silêncio e que o acompanhamento regular faz diferença justamente porque permite identificar alterações antes que elas se imponham de forma mais grave. “A prevenção das doenças urológicas no homem está na consulta com o urologista uma vez por ano.” Mais do que um alerta, a frase expressa sua tentativa de naturalizar um cuidado que ainda costuma chegar tarde.
Entre ensino, equipe e visão de futuro
Ao falar da própria prática, Daniel volta com frequência à ideia de disponibilidade. Isso aparece no modo como pensa a equipe, na atenção que valoriza entre os colegas e na forma como entende o atendimento. Ele prefere trabalhar com pessoas alinhadas à noção de que o paciente precisa encontrar alguém quando procura ajuda. “A medicina é isso. Você tem que estar disponível.”
Essa disponibilidade, em sua fala, não diz respeito apenas ao médico, mas ao ambiente inteiro de cuidado. Ele menciona assistentes e colegas que compartilham essa lógica de presença, educação e prontidão. “O paciente, quando está precisando, tem que ter alguém para pedir socorro. E isso somos nós.” A frase ajuda a entender por que sua atuação se distribui entre hospital, consultório, ensino e atualização constante.
Daniel também se define como inquieto. Acompanha novas possibilidades terapêuticas, observa o avanço de abordagens menos invasivas e mantém vivo o interesse por recursos que possam ampliar as opções de tratamento sem afastar o critério clínico. O futuro, no entanto, não aparece em sua fala como promessa grandiosa. Surge mais como aprofundamento de um caminho já em curso, no qual técnica e presença precisam seguir lado a lado.
No fim, sua visão sobre saúde retorna sempre à mesma ideia: o corpo não deve ser tratado como detalhe secundário da rotina, mas como a base concreta da própria vida. “O corpo é a primeira casa que habitamos, e aprender a escutá-lo e a cuidar dele é parte essencial de uma vida mais saudável.”
CRM 5264372-6
Instagram: @dr.daniel.perpetuo

O conteúdo dessa publicação é de responsabilidade da TV Notícias Assessoria de Imprensa / Brasil News.
