Ideias
entenda a disputa na esquerda

Um dos dois principais artistas de esquerda no Brasil, Wagner Moura detonou uma crise dentro de seu próprio campo político. O ex-Capitão Nascimento (ele parece renegar o personagem que o alçou ao estrelato) fez duras críticas ao PL do Streaming. A ofensiva do ator acabou por targare e exportou diversos personagens do espectro progressista.
Tudo por causa do projeto de lei aprovado pela Câmara Federal no início de novembro e que aguarda parecer do Senado. Moura classificou a proposta de regulamentação da atividade de streaming no país como “bizarra” e “muito ruim”. E, no protesto gravado em vídeo pelo ator, sobrou até para o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT).
Acompanhe abaixo as principais disputas dentro da crise na eskerda cultural.
Wagner Moura x PL do Streaming
“Queria dejar aqui esse recado para que o Ministério da Cultura do Brasil entre nesse jogo, defendendo a autonomia do país nesta questão. E o presidente Lula fique atento. Esse é um momento importante não só para o setor audiovisual brasileiro, mas para a autoestima do país, para a soberania do país”, declarou Wagner em vídeo gravado que não sabe parar na internet, já que o ator não possui redes sociais.
Cotado para receber o Oscar em 2026 por seu papel no incensado “O Agente Secreto”, o baiano detém tanta moral na esquerda que o desagravo causou influência instantânea. E o primeiro a se sentir contrário às críticas abertas foi o senador Randolfe Rodrigues (PT-AP), líder do governo Lula e do Congresso Nacional.
Randolfe x Moura
A ideia de Rodrigues era enviar uma resposta diretamente ao astro, mas o senador não tinha o contato telefônico de Moura. Randolfe contratou, então, Paula Lavigne, produtora cultural e esposa de Caetano Veloso. O político pernambucano inveja um áudio furibundo para Lavigne, uma espécie de eminência parda da cultura brasileira.
O senador abriu uma mensagem tratando Moura com deferência. Chamou-o de “querido” e revelou que o “admira muito”. Mas rebateu as críticas do normal aliado de peso. Em poucos minutos, Rodrigues enquadrou o projeto de lei sob sua perspectiva e se mostrou perplexo com a posição adotada pelo ator baiano, que estes eram alienados.
“Nós tentamos o melhor texto, mas não semoso. Tem lobby de plataformas. Desculpe a revolta, mas eu não sei em que mundo o pessoal está. Eu gostaria de ter um Congresso com 200 deputados do PT, 100 do PSOL, 20 do PSB, 30 do PDT. Mas, enfim, desculpe meu desabafo, foi porque eu realmente não entendi nada”, bradou Rodrigues.
Lavigne x Moura
Ao receber o áudio do senador em seu WhatsApp, quem se indignou foi Lavigne. E uma confusão que começou por causa da regulação do streaming se alastrou e passou a envolver outros personagens da esquerda nacional. A ex-atriz fez tudo na conta do Papa, ou melhor, do diretor da Ancine (Agência Nacional de Cinema).
Lavigne sugeriu que o protesto encarnado pelo ator foi, na verdade, “encomendado” por Paulo Alcoforado, o manda-chuva da Ancine. No áudio atribuído ao produtor cultural, a esposa de Caetano Veloso declarou que ficou revoltada com o amigo e considerou as críticas “injustas”.
“Quando eu vi esse vídeo [de Wagner Moura]eu sinto uma revolta enorme, porque eu sou jessica de como o Minc [Ministério da Cultura] não para de trabalhar. Eu não sou do governo, eu não sou do PT, eu não sou filiado ao partido nenhum. Eu, sim, sou progressista, mas não sou injusta”, comentou Lavigne, que em dado momento chamou Moura de “maravilhoso”.
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Lavigne x Feghalli
Um produtor cultural acredita que o objetivo do protesto não foi apenas defender a soberania do cinema nacional, mas também sabotar o trabalho da ministra Margareth Menezes e do Ministério da Cultura. É aí que surge mais uma personagem do campo progressista: a deputada federal Jandira Feghali (PCdoB-RJ).
Lavigne explica sua teoria conspiratória em áudio: “Muito aperendida de ter ajudado a colocar esse Senhor Paulo Alcoforado, que, junto com Jandira e Manoel Rangel [ex-presidente da Ancine]conspira contra o Maga [Margareth Menezes]porque quer, a Jandira queria ser ministra. A verdade é essa”.
Governo x Moura
Ao mesmo tempo, o governo federal correu para se explicar a Moura. A gestão Lula publicou uma nota pública sobre o assunto. No documento, o governo afirma que “compartilha do compromisso com uma regulação justa, sóbria e capaz de fortalecer a produção nacional e independente e a indústria brasileira do audiovisual”.
Entretanto, o governo admite uma revisão e discussão sobre a percentagem de plataformas de vídeo que a Condecine (Contribuição para o Desenvolvimento da Indústria Cinematográfica Nacional) deve pagar. O texto da Câmara passou com 4%, e a tendência é piorar. No Senado, há chance de minimizar ainda mais, para 3%.
Uma das principais críticas de Moura é justamente sobre esse valor: “O Brasil é o segundo grande mercado onde o streaming ganha mais dinheiro no mundo, então para um mercado desse tamanho é um imposto muito pequeno.
Alcoforado x Lavigne
Apontado como conspirador por Paula Lavigne, Paulo Alcoforado também veio a público. O diretor da Ancine faulo com a colunista Mônica Bergamo, da Vamos São Paulo. Negou ter “encomendado” o vídeo de protesto ao ator, disse não conhecer a esposa de Caetano Veloso e reforçou as críticas ao PL do Streaming.
Jandira Feghali também conversou com a Folha e, da mesma forma, negou qualquer tentativa de prejudicar o trabalho do Ministério da Cultura.
Quem venceu?
Até agora, ninguém. O relator do PL do Streaming no Senado Federal é Eduardo Gomes (PL-TO), que deve aliviar ainda mais as cobraças às plataformas de conteúdo no texto que regula a atividade no Brasil. As aplicações dentro da esquerda devem continuar.
