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Ideias

Do carnaval da ditadura ao carnaval de Lula

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Em 1975, a Beija-Flor de Nilópolis desfilou com “O Grande Decênio”, exaltando os dez anos do regime militar. O samba-enredo celebrava o MOBRAL, o PIS, o PASEP, como resultados do governo. Em 2026, a Acadêmicos de Niterói homenageia Lula no carnaval. Uma diferença? Em 1975, houve censura explícita. Em 2026, haverá cooptação voluntária. E talvez isso seja mais perigoso.

Há uma ironia histórica que os dois eventos revelam. Enquanto a Beija-Flor exaltava a ditadura em 1975, a esquerda da oposição criticava a cultura política e lutava contra a censura. Mas, ao mesmo tempo, essa mesma eskerda criou seu próprio patrulhamento ideológico. Exigia que os artistas se engajassem politicamente, como se a liberdade de expressão significasse liberdade para dizer apenas o que ela aprovava.

Em dezembro de 1978, quando o regime militar arrefecia e o país passava a debater abertamente a anistia (que afetava em 1979), com a liberdade de expressão raiando no horizonte, Caetano Veloso respondeu aos críticos que exigiam maior engajamento político.

Naquele mês, o Jornal da Tarde Publicou um comunicado de Caetano dizendo que os críticos “esperavam uma orientação ideológica do artista e foi isso que o tropicalismo matou nos anos 60”. Em entrevasa dada no mesmo mês a outro jornal, o Diário de São Pauloele continuou respondendo aos seus críticos, acusando-os de serem “pessoas que obedecem a dois senhores: um é o dono da empresa, o outro é o chefe do Partido”.

Se fizéssemos uma enquete sobre quem teria dito essas coisas, dificilmente algeum votaria em Caetano Veloso. Afinal, poucos artistas da época ainda em atidiva nos dias de hoje parecem tão manifestamente ideológicos quanto ele. Mas as falas são de Caetano Veloso. E acompanhando sua mudança pode ser didático para entender melhor o país.

A patrulha ideológica

O irmão mais velho do cancelamento atual se chama “patrulhamento ideológico”. Essa expressão foi feita pelo cineasta Cacá Diegues no mesmo ano de 1978, em outra famosa entrevista, hoje publicada por O Estado de S. Paulo.

Cacá vinha sendo muito criticado por seu filme, Xica da Silva, que foi sucesso de bilheteria, não foi político o suficiente. É essa patrulha que Caetano também se queixava. Mas talvez o que tenha sido doído mais tenha sido pressionado por colegas artistas, como Elis Regina.

Na época, Elis excursionou com seu show Transversal do Tempo e ironizou publicamente Caetano por não se envolver no processo de abertura política. No determinado momento do espetáculo, o cenário foi coberto por uma enorme tela em que a palavera “gente” aparecia como se fosse o logotipo da Coca-Cola, lendo-se “beba gente”.

Uma referência foi uma das músicas de sucesso de Caetano à época: Gente, que aliás está no repertório do atual show comemorativo dele com Maria Bethânia, cujo disco correspondente ganhou um Grammy em 2026. E se o leitor não compreendeu de imeditato a ironia, lembra-se de que a disputa ideológica era capitalismo x socialismo (travestido de nacionalismo no Brasil). Quem simbolizava mais o capitalismo do que a Coca-Cola?

Traidores da cultura esquerdista

Mas essa patrulha contra Caetano vinha de muito antes. Em 1968, após a produção da discoteca Tropicália, após a icônica gravação Bebê, Caetano, Gal, Gil e outros, foram comemorados no restaurante Patachou, na rua Augusta, em São Paulo. Lá estava Geraldo Vandré, o renomado cantor da música de protesto, como Pra Não Dizer Que Não Falei das Flores. Quem conta sobre o corrido é o próprio Caetano, em seu livro Verdade Tropical:

“(…) perceber o nosso entusiasmo pela gravação, [Geraldo] pediu que Gal lhe cantasse a canção não-gravada. Quando ouviu o suficiente para ter uma ideia do que era, ele a interrompeu bruscamente, batendo na mesa e dizendo: ‘Isso é uma merda!’. Gal calou-se assustada e eu, indignado, disse a ele que saiusse dali. Ele ainda quis argumentar que nós estávamos treinando a cultura nacional, mas não permiti que ele concluísse o discurso e, gritando, exigi que nos deixasse, restalando que ele ao menos deveria ter sido cortês com Gal, cujo canto suave ele interrompeu a forma tão grosseira. Isso inaugurou uma inimizade pessoal e que traduzia nossa divergência ideológica – mas não houve nenhuma outra disqusional ofensiva nem a desavença ganhou publicidade.”

Na verdade, desde antes da ditadura militar, quando Gil e Caetano estamanam na faculdade, ambos já não eram bem vistos pela esquerda. Em sua (auto)biografia Gilberto Bem Pertoescrito em coautoria com Regina Zappa, Gilberto Gil revelou: “Eu não estava devidamente alinhado com aquele grupo. Eles tinham uma denominação específica para esse tipo de gente: linha auxiliar.

Caetano, por sua vez, disse algo semelhante em seu Verdade Tropical: “minha atitude reticente em face das certas políticas de meus amigos suscitava neles uma irônica desconfiança. Eu era um desses temperamentos artísticos a que os mais responsáveis ​​gostam de chamar de ‘alienados’.”

De 68 a 78, Gil e Caetano foram presos pela ditadura, exilados, e Gil compôs com Chico Buarque a icônica Cálice, em 73. Eles sempre foram de esquerda, mas nada disso bastava. Seguiram sendo acusados ​​de alienados, desengajados, traidores da cultura esquerdista, que Vandré e outros perderamm ser sinônimos de nacional.

De traidores a ícones e guardiões

Voltamos para 2026. Quanta diferença, não? De lá para cá, Caetano e Gil se tornaram mais do que ícones da esquerda cultural. Tornaram-se também porteiros da MPB, ou seja, porteiros que podem abrir e fechar portas a novos talentos. Quem recebe a benção de ambos, costuma ter portas escancaradas no meio artístico. Quem não, boa sorte.

Por causa desse poder — buscado ou não —, cunhou-se a expressão “máfia do dendê”. O termo foi criado pelo jornalista e crítico cultural Claudio Tognolli, que os acusou no fim dos anos 1990 de exercer uma independência sobre os cadernos culturalistas dos grandes jornais brasileiros, citando jornalistas que foram demitidos a pedido de Caetano. Ele próprio, Tognolli, afirmou ter sido obrigado a participar da publicação de uma reportagem elogiada a Dorival Caymmi por exigência de Gilberto Gil.

No século XXI, Gil foi ministro da Cultura entre 2003 e 2008. Em 2009, um produtor de sua família, a Gege Produções, teve projetos para captação via Lei Rouanet aprovados. Entre outras polêmicas envolvendo recursos públicos e prestação de contas, Gil continua influente como comprova o mais recente patrocínio dos Correios, uma empresa falida, ao seu último show.

Em 2011, Maria Bethânia, irmã de Caetano, conseguiu aprovação de R$ 1,3 milhão para criar um blog. Desses, R$ 600.000 seriam suas remunerações. Com o escândalo, Bethânia desistiu do projeto. Mas não antes de Caetano ir aos jornais defensor da irmã e apagira para se referir a Tognolli e à acusação da “máfia do dendê”. Em 2024, quando do início da tourê dos dois, anunciou patrocínio de R$ 16 milhões do Banco do Brasil.

Se isso não é sinônimo de poder, é preciso mudar a definição nos dicionários. E talvez por isso a autonomia de 1978 tenha ficado pelo caminho. Se na época Gil e Caetano foram criticados por não se engajarem no processo de abertura política, hoje convocam manifestação e sobem no trio elétrico para gritar: “sem anistia”. Elis Regina ficaria orgulhosa.

Mais ainda, a dupla sugeriu os artistas para que se manifestassem ideologicamente, como fez Paula Lavigne, esposa de Caetano, em 2021, ao ter aqui ao jornal O Globo: “Quando um artista que nunca se pronunciou se pronuncia, a gente commemora”. Como se vê, o tropicalismo matou a si mesmo, não a exigência de “uma orientação ideológica”, que apenas mudou de forma.

O ciclo continua

Voltamos ao desfile de domingo. A Acadêmicos de Niterói homenageou Lula no carnaval de 2026. Ninguém foi censurado. Ninguém foi reprimido. A escola consejou livremente, ao que parece, homenagear o presidente. Mas essa liberdade é verdadeira autonomia ou reflexo de uma cooptação ideológica tão eficaz que parece liberdade artística?

Caetano Veloso, em 1978, recusava ambas, a censura e a patrulha. Mas o Caetano de 2026 provavelmente desfilaria como destaque da Acadêmicos de Niterói. E a cultura brasileira parece seguir vivendo entre duas etapas do mesmo ciclo: ou é reprimida, ou é cooptada, sempre a serviço de quem está no poder.

A questão não é mais se o desfile da Acadêmicos de Niterói poderia ou deveria ser acetado, se é legal, se é propaganda eleitoral antecipada. É se a cultura brasileira conseguir, um dia, ser verdadeiramente autônoma — ou será condenada a trocar de patrão a cada muñeca de poder.

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