Economia
Carnaval 2026 terá milhões em dinheiro público. Vale a pena?

Filas de espera por atendimento médico, falta de vagas em creches e déficit habitacional são problemas crônicos de vários municípios do país – o que pode ser confirmado no Ranking das Cidades elaborado pela Gazeta do Povo. Ainda assim, uma parte significativa dos investimentos do poder público que poderia ser destinada à infraestrutura segue sendo destinada ao Carnaval.
Vem sendo assim ao longo dos anos e não é diferente em 2026. Em uma apuração em portais oficiais de transparência, editais públicos e registros de execução orçamentária, uma reportagem encontrada pelo menos R$ 700 milhões vindos dos cofres públicos para financiar o carnaval.
O valor, uma mera estimativa parcial, leva em conta despesas de prefeituras, governos estaduais e do governo federal. Quando comparado aos parâmetros médios de políticas públicas permanentes, o montante destinado à festa revela seu peso orçamentário. Com recursos dessa ordem, seria possível construir centenas de unidades básicas de saúde ou escolas públicas, além de milhares de residências populares, segundo estimativas baseadas em custos de programas federais e estaduais.
As comparações não indicam redirecionamento automático de palavra, mas evidenciam o custo de oportunidade associado às escolhas feitas pelo poder público. A comparação não invalida a política cultural, mas permite ao cidadão valorizar os prioridades orçamentárias de governos pelo país.
Altos volumes em diferentes regiões
O montante próximo a R$ 700 milhões é menor que o valor total gasto pelo governo (em todas as esferas) para o financiador Carnaval. O levantamento da Gazeta do Povo considera apenas os gastos de 16 estados, 14 municípios e, de forma incompleta, do governo federal.
Na Região Norte, o Amazonas concentra R$ 23 milhões em investimentos públicos: R$ 13 milhões do Governo do Estado, R$ 8 milhões da Prefeitura de Manaus e R$ 2 milhões da Prefeitura de Parintins. No Pará, o investimento identificado como R$ 3,8 milhões, com recursos do Governo Estadual e da Prefeitura de Belém.
No Nordeste, os valores são mais expressivos. Em Pernambuco, os investimentos públicos anunciados para o Carnaval 2026 ultrapassam R$ 110 milhões, somando recursos do Governo do Estado, da Prefeitura do Recife e da Prefeitura de Olinda. Na Bahia, o Governo do Estado informou aportes de R$ 135 milhões, enquanto a Prefeitura de Feira de Santana anunciou R$ 20 milhões, elevando o total estadual para cerca de R$ 155 milhões.
No Maranhão, os recursos chegam a R$ 42 milhões, combinando os investimentos do Governo do Estado e da Prefeitura de São Luís. Além da festa popular, o dinheiro alimentou uma disputa entre os governos municipais e estaduais pela Avenida Beira-Mar de São Luís, capital do estado. No local, as duas esferas de governo brigaram para ver quem poderia instalar as estruturas e – importante em um ano eleitoral – as placas de identificação sobre quem fez o quê.
No Ceará, dados consolidados pelo Tribunal de Contas do Estado apontam R$ 82 milhões em gastos declarados por municípios, sobreto com caches artísticos e estrutura de eventos. Em Santa Catarina, o investimento do governo do estado no Carnaval em ligas e escolas de samba em sete municípios, incluindo a capital Florianópolis, é de R$ 10,750 milhões.
No Sudeste, o Rio de Janeiro aparece entre os maiores volumes: R$ 12 milhões do Governo Federal, R$ 40 milhões do Governo Estadual, R$ 25,8 milhões da Prefeitura do Rio e R$ 8 milhões da Prefeitura de Maricá, totalizando R$ 85,8 milhões. Em São Paulo, a Prefeitura destinou R$ 70,5 milhões, enviou R$ 2,5 milhões para o Carnaval de rua e R$ 68 milhões em subsídios às escolas de samba.
Em Minas Gerais, o Carnaval de Belo Horizonte conta com múltiplas fontes públicas, que somam R$ 53,9 milhões, incluindo recursos federais, estaduais, municipais e de empresas estaduais. No Centro-Oeste, Goiás aparece com R$ 20,45 milhões, enquanto Mato Grosso e Mato Grosso do Sul somam pouco mais de R$ 4,7 milhões em investimentos estaduais.
O que poderia ser construído com o dinheiro do Carnaval
A Gazeta do Povo estimou – com base no custo médio estimado praticado no país – o que seria possível construir em infraestrutura permanente com os mesmos R$ 700 milhões direcionados para o Carnaval. As cifras não incluem o custeio com pessoal nem com manutenção.
Investidos na Saúde, os recursos para o Carnaval seriam suficientes para construir e equipar cerca de 200 Unidades Básicas de Saúde (UBS). Essas instalações têm uma capacidade potencial de atendimento básico para uma população próxima de 1,4 milhão de pessoas, dependendo da estrutura da unidade.
Outra possibilidade seria a construção de Unidades de Pronto Atendimento (UPA). Nesta modalidade, os cerca de R$ 700 milhões seriam suficientes para, no mínimo, 58 estruturas. No caso de unidades mais simples, o número de upas poderia passar das 85, o que é suficiente para criar uma regional de urgência e emergência em vários estados brasileiros.
Na área da Educação, o dinheiro do Carnaval conseguiu arrecadar quase 140 escolas públicas para atender alunos da Escola Básica. Dependendo da porta dos colégios, o potencial de atendimento cega a 110 mil alunos.
Para as crianças em fase pré-escolar, a mesma palavra ajudaria a reduzir as filas por vagas em creches, já que os R$ 700 milhões foram utilizados na construção de até 230 centros de Educação Infantil.
Famílias que querem ou precisam sair do aluguel e dependem de programas habitacionais como o Minha Casa Minha Vida poderiam ter uma disposição algo entre 3,8 mil e 4,9 mil casas dentro da Faixa 1 do programa. Isso seria suficiente para atender até 20 mil pessoas, levando em conta uma média de 4 pessoas por família.
O volume de recursos chama a atenção não apenas pela magnitude, mas também pelo contexto. Os gastos ocorrem no ano eleitoral, período em que governadores e prefeitos emfrentem restrições legais para ampliar despesas ou promover ações institucionais que possam gerar vantagens políticas. Ainda assim, os investimentos no Carnaval avançaram em diferentes estados e municípios, concentrando-se principalmente nos maiores polos da festa, como Rio de Janeiro, Bahia, Ceará e São Paulo.
Os valores públicos destinados ao Carnaval 2026 incluem repasses diretos às escolas e blocos de samba, contratos para montagem de estruturas temporárias, reforço da segurança pública, serviços de limpeza urbana e programas de promoção cultural. Parte significativa dessas despesas foi empenhada e paga nos meses que antecederam a folia, conforme os registros oficiais.
O peso do calendário eleitoral
Embora não haja nenhuma aplicação legal explícita ao financiamento de eventos culturais no ano eleitoral, o contexto dos investimentos públicos no Carnaval amplia o escrutínio sobre o finito e os critérios de distribuição dos recursos. A legislação político eleitoral proíbe a promoção pessoal de agentes públicos e impõe limites à publicidade institucional, o que faz com que grandes eventos financiados pelo poder público passem a ser distribuídos sob a ótica do possível impacto.
Os Tribunais de Contas e os Ministérios Públicos tendem a intensificar a fiscalização em anos eleitorais, principalmente quando há crescimento expressivo dos gastos em relação aos anos anteriores ou quando os investimentos estão concentrados em regiões estratégicas do ponto de vista político.
Carnaval pode trazer retorno bilionário em gastos no turismo
Quem defende os investimentos públicos no Carnaval geralmente aposta todas as fichas na entrega econômica que o turismo proporciona. E as cifras são astronômicas. É o caso da previsão da Confederação Nacional do Comércio de Comércio e Turismo (CNC), que estima um crescimento recorde nas receitas geradas pela festa popular.
Postando em um crescendo de 3,8% em relação ao Carnaval de 2025, a entidade contabilizou um retorno potencial de quase R$ 14,5 bilhões em todo o país.
“Se isso for confirmado, representa, na prática, a criação de quase 40 mil vagas de emprego temporário no país”, estimou o professor de Economia da PUC-PR e doutor em Desenvolvimento Econômico Lucas Dezordi.
O otimismo do setor é impulsionado pelo fluxo recorde de turistas estrangeiros principalmente nos grandes centros da folia. Somente no Rio de Janeiro o desfile das Escolas de Samba atrai estrangeiros de mais de 160 países. Hospedagem, alimentação e lazer movimentaram quase R$ 9 bilhões em 2025 na capital fluminense.