Música
Bryan Adams fala à RS sobre shows no Brasil, ser dono de gravadora e futuro

“Igor, essa é uma foto muito bonita sua.” Estas foram as primeiras palavras ditas por Bryan Adams ao repórter da Rolling Stone Brasil que conversaria com ele nos minutos seguintes, em chamada de áudio. O artista canadense, um dos nomes mais bem-sucedidos da história da música, soava amigável e simpático para conversar sobre seus próximos shows no país — os primeiros desde outubro de 2019.
A vindoura turnê será a maior de Adams por aqui em número de cidades: quatro. Rio de Janeiro (Qualistage, 06/03), São Paulo (Vibra São Paulo, 07/03), Curitiba (Live Curitiba, 09/03) e Porto Alegre (Auditório Araújo Vianna, 11/03) recebem o autor de hits como “Heaven”, “Summer of ’69”, “(Everything I Do) I Do It For You” e tantos outros. Os sites Eventim (Rio e SP) e Bilheteria Digital (Curitiba e Porto Alegre) estão a cargo da venda de ingressos.
O clima amistoso do bate-papo com a Rolling Stone Brasil se manteve quando Adams brincou que demitiria seu empresário por levar tanto tempo para retornar ao país e pediu à assessora para, como em 2019, se apresentar novamente no Allianz Parque, “um belo estádio ao ar livre” onde fez “um dos melhores shows na América do Sul” em toda a sua carreira. O ícone pop rock só entrou na defensiva quando se negou a dar detalhes de repertório e produção de sua atual turnê, em divulgação ao álbum Roll with the Punches (2025). “Confie em mim: terá todas as músicas que você conhece e ama, e isso é o mais importante, a música”, respondeu.

Não é mentira. Em seu set atual, Bryan enfileira quase 30 músicas em duas horas. Nas primeiras duas canções, geralmente “Can’t Stop This Thing We Started” e “Straight from the Heart”, surge tocando num palco no meio da plateia. Só depois vai para a frente. A partir daí, desfila um número enorme de hits sem deixar de destacar músicas mais recentes: são quatro do último disco e duas do antecessor So Happy It Hurts (2022), além de uma oriunda de Shine a Light (2019) e outra presente em Get Up (2015).
Para um artista em atividade há mais de quatro décadas, é rara a medida de manter tantas faixas atuais no setlist. Entretanto, de acordo com o artista, a escolha das canções ocorre de maneira natural, sem pensar nos álbuns dos quais elas vêm.
“Monto o setlist realmente pensando no que é mais divertido. Tipo: ‘isso ou aquilo funciona’ ou ‘o pessoal adora essa música’. Às vezes, mesmo que não conheçam uma música, as pessoas adoram, gostam da vibe. Criamos um set envolvente, interessante e colorido. As pessoas saem pensando: ‘uau, talvez eu não conhecesse todas essas músicas, mas caramba, foi bom e é isso que importa’.”
https://www.youtube.com/watch?v=videoseries
Não é da boca pra fora. A montagem de repertório de Adams foi bastante testada nos últimos tempos. O canadense de 66 anos é, de longe, um dos artistas veteranos que mais faz shows e turnês em escala global: foram mais de 130 apresentações ao vivo em 130 e outras mais de 100 em 2024. Na média, seriam duas a três performances em todas as semanas do ano. Músicos mais jovens mal fazem metade disso.
“É realmente importante tocar ao vivo, porque é a única maneira de divulgar sua música hoje em dia. Claro, você pode obviamente colocar suas músicas no YouTube e no Spotify e tudo mais, mas no final das contas, você precisa chegar às pessoas, e essa é a melhor maneira de fazer isso.”
Adaptando-se às adversidades
O discurso de Bryan Adams sobre música ao vivo atingir o público melhor do que plataformas de streaming surge em um momento curioso de sua carreira. O mencionado álbum mais recente, Roll with the Punches (“Adaptar-se às adversidades” em tradução livre) é o seu primeiro disco de estúdio lançado de forma independente, através do selo próprio Bad Records.
Foram décadas de vínculo com a Universal Music — que incentivou a criação da Bad em 2013 — até a decisão de sair da gravadora major e anunciar o vínculo exclusivo com sua empresa fonográfica em 2024. Adams garante estar satisfeito não apenas com o resultado musical de Roll with the Punches, como também pela operação da gravadora sob seu comando.
“O álbum soa ótimo. Sinceramente, acabamos de ser indicados para um prêmio no Canadá pelo álbum, como o melhor álbum do ano, e eu realmente esperava que também fôssemos indicados a um Grammy, mas tudo bem. Estou realmente, realmente orgulhoso do álbum, e principalmente orgulhoso porque é o meu primeiro lançamento independente.”
O papo de “demitir o empresário” no início da entrevista era meio que brincadeira. Bryan, claro, tem um responsável pelo agendamento de shows, mas ele assumiu para si a função de empresariamento.
“Não tenho mais uma gravadora, não tenho um empresário, estou fazendo tudo sozinho, e isso é meio que empolgante. E eu trabalho com um jovem engenheiro de som chamado Hayden Watson, que antes fazia chá no meu estúdio e agora ele está gravando a banda, e é muito divertido.”
Deixadas à parte adversidades como não receber uma aguardada indicação ao Grammy e lançar sua própria gravadora a essa altura do campeonato, Adams vai bem. Poder recusar propostas de outros selos, inclusive, o colocou na situação atual, definida pelo próprio como “divertida”.
“Decidi ter meu próprio selo porque todas as ofertas que vinham de outras gravadoras não faziam sentido. Se você fizer as contas e perceber que eles querem manter sua música por tantos anos… não há como garantir que vão manter as promessas. Você não pode pressioná-los para dizer: ‘sim, vamos fazer isso com certeza’. Se nada é certo, então eu prefiro pular do avião sozinho. Tem sido fantástico. Queria ter feito isso há 20 anos.”

A menção “há 20 anos” pode ter ocorrido em modo aleatório, mas também diz algo. Nesta época, Bryan preparava o álbum 11, lançado em 2008. Depois disso, curiosamente, passou por seu maior hiato sem discos: só voltaria a disponibilizar um material neste formato em 2014, com o registro de covers Tracks of My Years. Se estar presente na Universal afetou a inspiração do músico, não dá para saber, mas ele garante que já não se sentia bem no contexto de uma grande gravadora.
“Uma das razões pelas quais fiquei feliz de finalmente sair da Universal foi que eu me sentia como um móvel da recepção, sabe? Nunca parecia que eu estava em casa. Nunca parecia que estávamos fazendo como antigamente. Foi bom por um tempo, mas é como ter uma namorada que não quer mais te beijar.”
Bryan Adams, CEO de gravadora
Comandar uma gravadora própria, ainda que independente e tendo apenas ele próprio como contratado, é mais uma das diversas atividades de Bryan Adams. Além de cantor e performer, o canadense nascido em Kingston é:
- multi-instrumentista, pois toca guitarra, violão, baixo, bateria, piano, teclados e gaita;
- compositor para além de seu próprio catálogo, tendo até músicas gravadas por nomes como Kiss e Bachman-Turner Overdrive;
- filantropo, comandando a ONG The Bryan Adams Foundation;
- ativista pelo direito dos animais, extensão de seu veganismo desde 1989;
- produtor musical, assinando ou coassinando a função em praticamente todos os seus discos;
- fotógrafo premiado e publicado pelas principais revistas de comportamento do mundo, com suas lentes registrando nomes como a rainha Elizabeth II, Iggy Pop, Cher, Rammstein e até uma edição inteira do calendário Pirelli, em 2021.

Ativo desse jeito, Adams não deixaria passar a oportunidade de colaborar com praticamente toda a rotina da Bad Records. Convidado a explicar o que exatamente faz, ele responde:
“Tudo! Desde escolher as distribuidoras musicais até criar a arte do álbum. Criar os vídeos, criar as músicas, checar as provas de prensagem de disco… O conjunto todo. Até então, eu nunca tinha ido a uma fábrica de prensagem de discos. Agora, eu realmente fui visitar a fábrica para ver como era feito.”
Como citado, a Bad Records cuida apenas de Bryan. Isso não o impede, contudo, de trazer outros artistas para lançamentos colaborativos e pontuais pela gravadora — a exemplo do álbum natalino A Great Big Holiday Jam, que o vê trabalhar com Alessia Cara, Alan Doyle, The Sheepdogs e mais.
“A Bad Records foi feita para mim. Se acontecer algo que nos permita trabalhar com outros artistas, seria legal, mas não é o motivo principal do selo. A razão principal é criar um lar para a minha música. Isso já é bastante! O que poderia ser interessante é fazer músicas com outros artistas em vez de álbuns com outros artistas.”
Futuro — próximo e distante
Assim que concluir sua vindoura turnê pela América Latina — que passa por Porto Rico e México antes de vir ao Brasil e segue por Uruguai, Argentina, Chile e Colômbia —, Bryan Adams tira um mês de descanso. Retoma as atividades em abril, com shows na África (África do Sul, Tunísia e Marrocos). Em junho, há três apresentações em Las Vegas e uma na Itália.
A partir daí, sua agenda não é pública, mas está bem definida. O próprio conta:
“No fim de junho, começo alguns shows acústicos bem minimalistas por toda a Europa Oriental, Itália e Espanha. Em agosto, começo minha turnê americana de novo, por três semanas. Em setembro, outra turnê canadense por três semanas. Entre outubro e dezembro, Europa. Vamos tocar muito este ano.”
Quando dá tempo, Adams exercita a criatividade. Embora Roll with the Punches tenha saído há apenas seis meses, já existem novas músicas nascendo.
“Duas semanas atrás eu gravei um monte de músicas de forma acústica. Vamos lançá-las nas próximos seis semanas. Em abril lançamos Tough Town (disco exclusivo para o Record Store Day com faixas presentes apenas na versão deluxe de Roll with the Punches). Mas estou preparando um novo álbum. Tudo depende das músicas, certo? Se eu conseguir umas boas músicas, eu farei outro disco.”

Todos esses compromissos contemplam um futuro mais distante. De modo mais próximo, há a turnê sul-americana, com quatro shows no Brasil. O bate-papo se encerra com uma informação curiosa compartilhada pelo repórter ao artista: seu single mais vendido no Brasil, ao menos no que diz respeito a certificações, não é “Heaven” ou “(Everything I Do) I Do It For You”, mas “Please Forgive Me”. Segundo a instituição responsável por esse tipo de medição no país, Pró-Música Brasil, a única faixa inédita da coletânea So Far So Good (1993) acumula disco de platina duplo, enquanto as outras duas canções mencionadas receberam platina simples.
Ao ser apresentado a este dado, Adams pergunta, quase gritando: “Sério?!”. Chega a perguntar: “Como você sabe disso?”, antes de ser avisado de que esses dados são públicos e convidado a compartilhar suas lembranças do processo de composição de “Please Forgive Me”. Talvez tenha se esquecido de que esta faixa é a única dele a ter ultrapassado 1 bilhão de reproduções no YouTube. De todo modo, a resposta:
“Bem, ela foi composta mais ou menos em 1993. Na época, estava montando essa coletânea So Far So Good, que não está mais em catálogo. ‘Please Forgive Me’ é uma linda música que gravamos na França, realmente linda. Lembro de ter gravado os vocais tarde da noite em Paris.”
Por sorte, o público ouvirá esta e muitas outras canções nos quatro shows agendados no Brasil. E, provavelmente, algumas palavras em português, já que Adams encerrou o papo com um “obrigado” em nosso idioma.
*Bryan Adams se apresenta no Rio de Janeiro (Qualistage, 06/03), São Paulo (Vibra São Paulo, 07/03), Curitiba (Live Curitiba, 09/03) e Porto Alegre (Auditório Araújo Vianna, 11/03). Os sites Eventim (Rio e SP) e Bilheteria Digital (Curitiba e Porto Alegre) estão a cargo da venda de ingressos.
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