Cultura
Bad Bunny no Super Bowl: como empacotador de humilde cidade porto-riquenha virou fenômeno global
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Ronald Alexander Ávila-Claudio e Equipe de Jornalismo Visual
BBC
“Você consegue imaginar um coelho mau? Não. Por pior que seja, você vai querer abraçá-lo. Eu me considero assim.”
Em 2016, Bad Bunny contava em um podcast a origem do seu nome artístico.
Uma foto de infância, vestido de coelho, olhando para a câmera com um sorriso travesso. Daí surgiu o nome Bad Bunny (“coelho mau”, em inglês).
Mas, na época, ele era pouco conhecido.
Dez anos depois, com sua mais recente produção, o disco Debí Tirar Más Fotos, Bad Bunny fez história ao ser o primeiro artista a ganhar o prêmio Grammy de melhor álbum com um disco totalmente em espanhol.
Com 31 anos, ele irá cantar neste domingo (8) no show de intervalo do Super Bowl, a final da liga de futebol americano, o evento esportivo mais importante dos Estados Unidos, para mais de 120 milhões de espectadores.
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Quando era adolescente, no quarto de casa em Vega Baja, uma humilde cidade litorânea no norte de Porto Rico, Benito Antonio Martínez Ocasio subia músicas de trap na plataforma SoundCloud, mas o mundo do estrelato parecia distante.
Ele trabalhava como empacotador em um supermercado e não tinha conexões na indústria. Seu pai era motorista de caminhão, e sua mãe, professora.
“Não conheço ninguém no mundo da música”, dizia ele. “Não é possível que eu saia para comprar um pincho [comida de rua] e me encontre com Daddy Yankee.”
O Super Bowl é um dos eventos midiáticos mais importantes dos Estados Unidos.
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Mas ele não precisou de um encontro tão fortuito com o rei do reggaeton. No ano passado, a revista The New Yorker o considerou a “maior estrela do pop” e o jornal The New York Times afirmou que ele “reinventou o panorama da música em espanhol”.
Bad Bunny foi o artista mais ouvido do mundo no Spotify em 2020, 2021, 2022 e 2025, superando estrelas como Drake e Taylor Swift.
Dados Spotify
BBC
Em 2024, seu disco Un Verano Sin Ti foi reconhecido como o álbum mais reproduzido na história da plataforma. Foram mais de 15 bilhões de reproduções, segundo o Guinness Records.
Para Leila Cobo, uma das diretoras de conteúdo da revista musical Billboard, Benito redefiniu a relação entre os artistas latinos e a indústria global. Ele impregnou o gênero urbano com um novo som, graças às suas inesperadas misturas de ritmos urbanos e gêneros autóctones da América Latina.
Durante este processo, ele se tornou uma figura política, que desafia a hipermasculinidade da indústria musical latina e defende a independência da sua ilha, um território dos Estados Unidos sem poder de soberania.
Dados Spotify
BBC
Música nova, mas antiga
Em janeiro de 2025, Bad Bunny compareceu ao set do programa Popcast, do New York Times, para conversar sobre seu disco recém-lançado, DtMF.
Ele tentou falar em inglês, mas acabou falando uma mistura de inglês e espanhol.
A população de Porto Rico tem cidadania americana, mas apenas 22% consideram que falam inglês “muito bem”, segundo dados do Censo dos Estados Unidos.
“Sempre soube que poderia ser grande sendo porto-riquenho, com minha música, minha gíria e minha cultura”, declarou ele.
A cada canção, ele “desenha um mapa de Porto Rico e do Caribe”, segundo explica à BBC News Mundo (o serviço em espanhol da BBC) o professor Albert Laguna, que ministra um curso sobre Bad Bunny na Universidade Yale, uma das mais prestigiadas nos Estados Unidos.
Os versos levam do sexo explícito (Safaera) até o romântico (Baile Inolvidable). Mas eles também denunciam os constantes cortes de eletricidade de uma ilha com um sistema energético obsoleto (El Apagón) e a gentrificação (Lo que le Pasó a Hawái).
“Seus álbuns trazem uma sensação nova, vibrante e inclusiva”, segundo o repórter de música da BBC Mark Savage. “E cantar em espanhol oferece a ele uma autenticidade que seria perdida se ele buscasse sucessos pop em outro idioma.”
“Seu rico tom de barítono transmite desprezo, desamor, ira ou êxtase, com uma clareza tão vívida que não resta nenhuma dúvida sobre sua intenção”, prossegue Savage.
Bad Bunny mantém forte conexão com sua cultura porto-riquenha
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Para os porto-riquenhos, preservar o espanhol, historicamente, é um símbolo de resistência frente à substituição da sua cultura pela americana.
Ao anunciar que cantaria no Super Bowl, em outubro, ele avisou às pessoas que não falam espanhol que teriam “quatro meses para aprender” o idioma.
Política além do perreo
Aquele jovem que, nas suas primeiras canções, se preocupava mais com as mulheres ou com o dinheiro, teve um despertar político ao longo dos anos.
Este desenvolvimento se reflete não apenas na sua música, repleta de símbolos nacionais porto-riquenhos, mas também nas suas ações.
Bad Bunny foi um dos rostos observados nos históricos protestos de 2019 em Porto Rico. E usou suas redes sociais para apoiar políticos independentistas para o governo da ilha.
Ele também criticou as batidas contra imigrantes do governo Donald Trump. Na última cerimônia de entrega do prêmio Grammy, ele lançou a mensagem “Fora ICE”, a sigla em inglês do Serviço de Imigração e Alfândega dos Estados Unidos.
Anteriormente, em 2025, ele se negou a incluir os Estados Unidos na sua turnê, por receio de que o ICE a usasse para deter imigrantes.
Este ativismo também lhe rendeu críticas, especialmente de setores da direita americana.
Donald Trump criticou a escolha de Bad Bunny para cantar no Super Bowl.
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Ao tomar conhecimento da escolha de Bad Bunny para o Super Bowl, Trump afirmou não saber quem é o cantor. O presidente americano declarou que, para ele, era “absolutamente ridícula” sua escolha para o show.
É difícil avaliar se os esforços de Bad Bunny trazem impacto real para a política dos Estados Unidos em relação a Porto Rico, comenta à BBC News Mundo o sociólogo porto-riquenho Luis J. Cintrón, especialista em meios de comunicação e cultura latino-americana.
Bad Bunny se inspira nos símbolos de Porto Rico para suas produções, como o sapo-concho, natural da ilha, que aparece nos vídeos do seu álbum DtMF
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O que se sabe ao certo é que o artista deu visibilidade à ilha, que costuma ficar de fora da agenda da imprensa dos Estados Unidos. E, sem ter soberania nem relações bilaterais com outros países, Porto Rico depende da sua cultura para chegar ao mundo.
“Sem deixar de ser capitalista, ele se transformou em um símbolo de resistência” e “embaixador da cultura e da identidade porto-riquenha”, segundo Cintrón.
Gênero, feminismo e moda
Desde o início da carreira, Bad Bunny surpreendeu com o uso de cores vibrantes, estampas arriscadas e esmalte de unhas. Era uma estética contrastante com o determinado pelo gênero urbano.
E esta política do corpo logo influenciou sua música.
Músicas como Yo Perreo Sola reivindicam o direito da mulher a desfrutar do seu corpo sem companhia. E, em Andrea, Bad Bunny deu voz à violência enfrentada pelas mulheres no seu dia a dia.
Ele alimentou esta fama com ações como beijar um homem durante uma apresentação e denunciar em rede nacional de televisão o assassinato de uma mulher trans.
Bad Bunny beijou um dos seus bailarinos durante a entrega dos prêmios da MTV em 2022
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Mas alguns estudiosos afirmam que o cantor se contradiz constantemente.
A socióloga Silvia Díaz Fernández, especialista em meios de comunicação da Universidade de Coventry, no Reino Unido, alerta que as mensagens feministas de algumas das canções contrastam com outras, nas quais persistem ideias misóginas e hipersexualização.
Fernández defende, no site de notícias acadêmicas The Conversation, que o artista flerta com estéticas andróginas, mas, no fundo, preserva o sexismo.
Ainda assim, Bad Bunny se transformou em um ícone da moda, capaz de dominar as passarelas do Met Gala de Nova York, nos Estados Unidos, e vestir modelos de estilistas exclusivos.
Nas suas aparições mais recentes, ele integrou símbolos do nacionalismo porto-riquenho, como a pava, um chapéu típico dos camponeses da ilha durante a colonização espanhola.
Local e global
O grande impacto de Bad Bunny foi ter convertido o local e regional em um fenômeno de interesse global, segundo Leila Cobo, da Billboard.
O porto-riquenho se afastou dos ritmos normalmente sintetizados do reggaeton para incorporar instrumentos reais e acústicos, além de suas menções e homenagens à cultura caribenha e de Porto Rico.
Dados Spotify, Billboard, Grammy e Guinness Word Records
BBC
Em suas produções, Bad Bunny mistura o reggaeton e o trap com ritmos como salsa, merengue, mambo, bossa nova e plena, um gênero tipicamente porto-riquenho.
Suas letras também estão repletas de referências aos artistas que ele admira, desde o reggaeton de Daddy Yankee até o orgulho afro-caribenho do cantor e compositor Ismael Rivera (1931-1987).
Com sua apresentação no Super Bowl, Bad Bunny entra para um seleto grupo de latinos que atuaram como artistas centrais do show do intervalo, ao lado da colombiana Shakira e da cubana Gloria Estefan. Mas ele será o primeiro a ter gravado, até agora, todos os seus álbuns em espanhol.
Seu show chega em um momento de grandes tensões devido à questão migratória nos Estados Unidos, frente a um público em Santa Clara, Califórnia, que não necessariamente entenderá a letra das suas canções.
Mas Bad Bunny já fez turnês mundiais com recordes de renda, conquistou dezenas de prêmios, atingiu feitos inéditos e conquistou um público massivo sem precisar que todas as pessoas entendessem espanhol.
Só por isso, ele já tem seu lugar reservado na história da indústria musical.
