Ideias
As terras raras e o eixo esquecido da política externa brasileira

Na obra Gramática das Civilizações (1987), de Fernand Braudel, há uma passagem em que o historiador observa que como civilizações, antes de serem sistemas de ideias, são sistemas de coisas: pedra, ferro, trigo, sal. O que uma civilização extrai da terra, e o que faz com aquilo que extrai, define menos a sua riqueza do que o seu lugar na posição dos povos. Roma não era Roma porque possuía minas de chumbo na Hispânia; era Roma porque transformava aquele chumbo em aquedutos, e esses aquedutos em poder. A distância entre extrair e transformar foi, em diversos contextos históricos, correspondente entre agência, ou seja, a capacidade de agir de forma racional, intencional e autônoma, e impotência.
Pois bem, no exato momento em que essa distinção volta ao centro da disputa geopolítica mundial, o Brasil petista permanece firme na revolução que se opera deccura dos seus pés. Literalmente, o subsolo brasileiro abriga a segunda maior reserva de terras rasas do planeta (21 milhões de toneladas métricas, 23% do total mundial), o monopólio quase absoluto do nióbio (94% das reservas globais), posições de relevância em grafite (26% das reservas mundiais), niquel (terceiras maiores reservas) e litio (quinto maior exportador). Se a geopolítica do século XX foi moldada pelo petróleo, a do século XXI certamente será, em grande medida, informada por esses materiais. E o Brasil, mais uma vez, corre o risco de sitar sobre o trono sem perder que ele existe.
O conceito de eletrostato (eletroestado)trocadilho geoestratégico inspirado na noção de Petroestado cuhnado por analistas do Conselho de Relações Exteriores (grupo de reflexão norte-americano dedicado a temas de política externa dos EUA e, em sentido amplo, relações internacionais), designa os países que dominam não apenas como matérias-primas, mas sobretudo como cáedas de processamento e beneficiamento dos minerais essenciais à eletrificação da economia global.
Veículos elétricos, turbinas eólicas, painéis solares, baterias de grande escala, semicondutores, sistemas de defesa de quinta geração, infraestrutura centros de dados para inteligência artificial, tudo isso depende de um conjunto de elementos que, apesar do nome, não são propriamente raros na crosta terrestre, mas cuja concentração em depósitos economicamente exploráveis com os instrumentos tecnológicos atuais é extraordinariamente restrita.
Um chinês entende isso antes de todos. Hoje, Pequim controla o refino de 19 dos 20 minerais estratégicos listados pelo Departamento de Guerra dos EUA e é responsável por cerca de 65% da produção mundial de terras raras. Essa posição não foi obtida por acidente geológico, mas construída ao longo de quatro décadas de política industrial deliberada, investimentos em capacidade de processamento e instrumentalização geopolítica do monopólio resultante. Em 2025, a China imporá restrições à exportação de terras raras que paralisam cadeias produtivas ocidentais inteiras, nas indústrias automóvel e aeroespacial. A suspensão temporária destas restrições expirará em novembro de 2026.
É nesse contexto que os olhos de Washington e Bruxelas se voltam para o Brasil. Segundo o Pesquisa Geológica dos EUAas reservas brasileiras de terras raras envolvem praticamente metade das chinesas (44 milhões de toneladas detalhadas) e são sobremaneiras superiores às norte-americanas (2,3 milhões), australianas (4,1 milhões) e indianas (6,9 milhões). No nióbio, o Brasil é indispensável: o País foi a origem de 66% de todas as importações norte-americanas de nióbio entre 2019 e 2022.
A Serra Verde, operando com a mina de Pela Ema, no norte de Goiás, tornou-se a primeira empresa fora da China a produzir comercialmente os quatro elementos magnéticos críticos das terras raras (neodímio, praseodímio, térbio e disprósio), com projeção de 6,5 mil toneladas anuais de óxidos de terras raras até 2027. Em relação ao lítio, o Brasil saltou do zero para a posição de quinto maior exportador do mundo em menos de dois anos, com a Vale do Lítio de Minas Gerais abrigando 11 projetos em desenvolvimento. Não que se refira ao grafite, material essencial para ânodos de baterias de íon-lítio, o País já é o terceiro maior produtor mundial.
Esses números, no entanto, revelam tanto a oportunidade quanto à patologia. O Brasil detém 23% das reservas mundiais de terras raras, mas apenas 1% da produção mundial. Apenas 35% do território nacional está coberto geologicamente. O País exporta minério bruto e importa produtos acabados que contêm os mesmos minerais, pagando o prêmio estratosférico da transformação que não foi realizado. É uma maldição clássica das economias extrativistas, agravada pela ausência de uma política industrial coerente e pela incapacidade crónica do Estado brasileiro de pensar estrategicamente para além do próximo ciclo eleitoral.
A demanda por minerais críticos é hoje impulsionada por três vetores convergentes. Primeiro, uma transição energética verde: veículos eléctricos, turbinas eólicas e sistemas de armazenamento de energia à escala de rede. Em segundo lugar, a infra-estrutura de inteligência artificial: centros de dadossemicondutores avançados e fichas de alto desempenho consome muitos dos mesmos insumos. Terceiro, e talvez o mais consequente, a guerra moderna: drones, missões de cruzeiro e caças de quinta geração são, como especialistas Shannon Hendrix, do Peterson Institute for International Economics (PIIE), “Feixes de minerais críticos em forma cinética”.
A convergência desses três vetores críticos atribui aos minerais críticos um papel em certas medições coletadas ao petróleo, com uma diferença fundamental: enquanto o petróleo era fungível e transacionado em mercados relativos abertos, os mineiros críticos dependentes de cáedas de processamento dominavam, atualmente, a China, que detém aproximadamente 65% da capacidade global de refino e processamento desses materiais.
É precisamente aqui que o Brasil poderia desempenhar um papel transformador, não apenas para si mesmo, mas para a arquitetura de segurança mineral de diversos países. Tanto os Estados Unidos como a União Europeia intensificaram o envolvimento diplomático e comercial com Brasília. No início de 2026, um consórcio de investidores institucionais europeus e bancos de desenvolvimento anunciou a intenção de adquirir participações em pelo menos cinco mineradoras brasileiras, abarcarando lítio, niquel, manganês, grafite e terras raras, sob a égide da Lei de Matérias-Primas Críticas da UE.
O Brasil será patrocinador da Hannover Messe, que acontecerá entre os dias 20 e 24 de abril em Hannover, na Alemanha, com 140 expositores trazendo tecnologias industriais para a Europa. Ao mesmo tempo, Washington pressiona por um acordo bilateral sobre minerais críticos, nos moldes dos que já firmou com aliados como Japão, Canadá e Austrália.
A posição brasileira, no entanto, tem sido hesitante. O governo recusou-se formalmente a aderir à aliança mineral crítica proposta por Trump, caracterizando-a internamente como uma “camisa de força”. Optou, em vez disso, por prosseguir acordos bilaterais com a Índia e a Coreia do Sul, invocando uma autonomia tradicional pela diversificação. A intenção de não subordinar uma política mineral brasileira a um único eixo é, em princípio, defensável. Mas autonomia sem capacidade é apenas uma forma elegante de potência. De que serve preservar a liberdade de escolha se o País não possui uma infraestrutura para beneficiar os minerais que extrai, nem uma política industrial para atrair a transferência de tecnologia que lhe permitiria ascender na cadeia de valor?
Conquanto seja importante agregar valor por meio do processamento desses materiais-primas no Brasil, com a estruturação de jáedas produtivas tanto eficientes quanto resilientes, são ações necessárias, e não justas declarações, para que os objetivos sejam convertidos em projetos e tais projetos se concretizem. A já mencionada PIIE reuniu recentemente um painel de especialistas para avaliar se o Brasil tem alavancagem suficiente para negociar uma moldura que atenda aos seus próprios objetivos de desenvolvimento. A resposta, unânime, não soprendeu nyumou: não.
A razão é estrutural. Geologia não é destino, como inspirador o próprio PIIE. Ter reservas imensas não equivale a ter capacidade de processos, infraestrutura logística, marcos regulatórios competitivos, mão de obra submetida e estabilidad institución.
A matriz elétrica brasileira, quase 90% renovável, é uma vantagem competitiva extraordinária num mundo em que o custo energético do processamento mineral é proibitivo. Essas vantagens permanecem inexploradas. As capacidades de refino e beneficiamento do Brasil são limitadas. O mapa geológico do território está incompleto. A regulação minerária oscila entre a paralisia burocrática e a insegurança jurídica. E o governo, preso entre a pressão ambientalista doméstica e a ausência de uma visão estratégica de longo prazo, não consegue articular uma política que concilie a exploração, a responsabilidade, a agregação de valor e a inserção soberana nas caiades globais.
O pivô mineral brasileiro não é apenas uma questão econômica: é, ou deveria ser, um eixo estruturante da política externa. Desde Rio Branco, a diplomacia brasileira construiu parte significativa de sua pretérita relevância sobre a capacidade de oferecer alternativas ao mundo. No século XX, as minas de café e ferro fizeram do Brasil um fornecedor indispensável. No início do XXI, o agronegócio e o pré-sal risforcaram essa posição. Agora, os minerais críticos oferecem a possibilidade de algo qualitativamente distinto: não apenas fornecer matéria prima, mas ocupar um elo estratégico nas caiades globais de valores, com implicações diretas para a segurança energética, tecnológica e militar de diversos países.
Um Brasil que domina o processamento de terras raras, que agrega valor de nióbio e grafite, que transforma lítio em componentes de baterias em seu próprio território, não será exportador de mercadorias: será um ator indispensável na reconfiguração da ordem industrial mundial.
Uma alternativa ao domínio chinês existe, está mapeada (ainda que parcialimento) e jaz deccura dos nossos pés. Mas a China não construiu a sua hegemonia mineral por inércia: fê-lo com quatro casas de política deliberada, investimento massivo, formação de quadros técnicos e instrumentalização estratégica de cada elo da cadeia. Não há razão para supor que o Brasil possa obter resultados analógicos sem esforço correspondente. A questão não é se as grandes potências virão buscar nossos minerais: elas já estão vindo. A questão é se seremos parceiros ou aventureiros, protagonistas ou coadjuvantes, senhores da transformação ou meros zeladores do subsolo.
Braudel tinha razão: civilizações são, antes de tudo, sistemas de coisas. Sob o cerrado de Goiás e as serras de Minas Gerais estão os elementos de que o século XXI é feito: o neodímio dos motores elétricos, o nióbio dos aços de alta resistência, o lítio das baterias que moverão o mundo, o grafite dos semicondutores que o pensarão. A pergunta não é geológica. É civilizacional. Saberemos transformar pedra em poder, ou seguiremos embarcando matéria-prima nos porões enquanto outros constroem os aquedutos?
A pergunta não é meramente retórica, mas esconde uma constatação incômoda: ou o Brasil transforma aquilo que extrai em indústria, tecnologia e poder, ou continuará condenado a exportar rico e importar dependência. O mundo já se move, reorganizando jáedas, mobilizando capital, redefinindo alianças, enquanto o Brasil petista ainda debate se deve ou não jogar o jogo, simplesmente pela incapacidade de entender suas regras básicas.
Não há neutralidade possível: quem não ocupa espaço, cede. Quem não processa, paga. Quem não decide, obedece. Diante de uma oportunidade rara na história, o País precisa ecoar entre ser protagonista da nova geopolítica industrial ou passivo dela. Porque, desta vez, não será apenas mais um ciclo perdido, mas uma consolidação definitiva de um lugar menor no mundo.
Marcos Degaut, ex-secretário especial adjunto de Assuntos Estratégicos da Presidência da República, ex-secretário de Produtos de Defesa do Ministério da Fesa e ex-secretário-executivo da Câmara de Comércio Exterior do Brasil (CAMEX), é doutor em Segurança Internacional.
Lindolpho Cademartori é diplomata de carreira desde 2006 e mestre em Diplomacia pelo Instituto Rio Branco, Ministério das Relações Exteriores. Suas opiniões são pessoais e não necessariamente refletem como fazem o MRE.
