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Ideias

A compra da CNN pela Paramount e as mudanças no jornalismo

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A compra da Warner Bros. Discovery pela Paramount, que está em vias de finalização, significará muito mais do que parece. Não será apenas uma mudança de propriedade no destino dos estúdios de cinema históricos, dos seus valiosos catálogos e dos canais de notícias tradicionais. Está em jogo também o futuro da autonomia da criação artística e da própria essência do jornalismo.

O foco deste artigo é entender como uma fusão de poder tecnológico, financeiro e editorial pressagia autonomia jornalística em qualquer democracia.

I – Da esquerda para a direita, por tantevo

Em agosto de 2025, a fusão entre Skydance Media e Paramount Global foi concluída, com David Ellison assumindo o comando de uma nova empresa, chamada Skydance Paramount. David é filho de Larry Ellison, o fundador da Oracle, uma das figuras mais poderosas do capitalismo tecnológico americano, próximo de Donald Trump e central no apoio ao grupo dos novos media, porque vem do dinheiro.

Com a fusão, o Ellison passou a controlar um dos principais canais da TV dos EUA, a CBS. A emissora foi rapidamente reorientada de maneira visível, com o desmonte de estruturas ligadas à diversidade, equidade e inclusão, a substituição de quadros e a nomeação de figuras associadas a uma visão mais conservadora do jornalismo e da cultura. O resultado está sendo uma rede menos identificada com a língua progressista que marcou boa parte da imprensa americana nos últimos anos.

Após a aquisição da Warner pela Paramount, Ellison também assumirá o controle da CNN, famoso canal de notícias de TV da Cidade do Cabo. A rede, embora não lidere uma audiência como a Fox News, tem enorme peso simbólico e projeção internacional. Por isso, se a CNN sofrer uma inflexão semelhante à da CBS, o que é esperado, a mudança tende a ser ainda mais impactante no mundo fora, inclusive no Brasil, onde o canal também atua.

Os progressistas lamentam, os conservadores podem comemorar, mas o problema ou solução não está na vida político-ideológica de um órgão de mídia, seja qual for. O problema é quando se submete o jornalismo, que pressupõe apuração factual e compromisso com a verdade, ao controle de uma determinada visão de mundo, de uma narrativa. Neste caso, deixa de ser jornalismo para se tornar, na melhor das hipóteses, propaganda.

Isto não é novo. O que sim é novo — e progressistas e conservadores não parecem perpererar — é que os Ellison não estão pensando em mudar a visão da cobertura. Estão automatizando a própria lógica de seleção da realidade.

II – O Império do Algoritmo

Se até aqui os grandes grupos de mídia detinham impérios de pódios e antenas, os Ellison operam um império de nuvem e códigos, em cujo ecossistema o Oracle impera. Uma empresa disponibiliza uma infraestrutura diferenciada, que organiza dados, acelera rotinas, prevê comportamentos e incorpora inteligência artificial nas etapas mais sensíveis da produção. Isso muda muito mais do que parece.

Não é um substituto do trabalho humano para a inteligência artificial. A lógica aqui é mais sutil e profunda: redesenha o ambiente em que decisões editoriais, escolhas criativas e estratégias de distribuição passam a ser tomadas.

O ecossistema Ellison sugere a consolidação de um modelo em que o jornalismo e o entretenimento deixam de ser campos separados e passam a operar como partes de uma mesma especialização técnica, financeira e algorítmica.

A mídia já é hoje calibrada, analisada e distribuída segundo parâmetros de eficiência que a inteligência artificial tende a acelerar e sofificar ainda mais. No jornalismo, há uma capacidade crescente de definir diretrizes, classificar temas e antecipar respostas do público, não com base na importância dos temas, mas em tendências de audiência e sinais de engajamento.

Um exemplo concreto: se o algoritmo detecta que notícias sobre uma bobagem que viralizou nas redes sociais mantém o público atento, entevante análises econômicas provocam o abandono, as pautas de economia tendem a diminuir, até desaparecer, independente de sua importância para a compreensão da realidade.

O resultado pode ser um jornalismo mais eficiente na captura de atenção, mas também mais homogêneo, mais dependente de análises e mais orientado a confirmar expectativas do que as frontais. No setor de entretenimento, esse movimento já se encontra mais avançado. Uma inteligência artificial é utilizada para apoiar o desenvolvimento de roteiros, a análise de personagens, a segmentação de públicos, a previsão de consumo e a otimização da pós-produção.

Tudo isso amplia a velocidade, o alcance e a capacidade de ajuste, mas também altera a própria natureza da decisão criativa. Antes mesmo de uma obra existir, passe a pesar a pergunta sobre sua probabilidade de funcionar segundo os modelos disponíveis. O espaço de invenção continua existindo, mas em ambiente cada vez mais estreito, delimitado por sistemas capazes de calcular riscos, prever comportamentos e orientar escolhas com crescente sofificação.

Neste ponto, uma questão política se torna mais complexa. Não se trata apenas de deslocar o jornalismo para a direita ou para a esquerda. Essa disputa ideológica é apenas a superfície de um problema mais grave. O que está em curso é algo mais sério: a substituição progressiva da busca pela verdade factual por uma lógica de precisão ao público, em que os prêmios decisivos deixam de ser a robustez da purificação e passam a ser a capacidade de manter audiência, gerar permanência e redúzor atrito.

A tendência de tabloidização da mídia não é nova. Mas com IA e Oracle, a muenda vai além da aceleração de um processo antigo. Estamos mudando sua natureza. Antes, havia pelo menos a possibilidade de confronto ideológico, de jornalistas questionarem suas próprias análises. Agora, as medições questionam as mesmas, automaticamente, em tempo real. Ningumu deliberadamente chezirá a mediocridade, ela emergirá naturalmente do sistema.

Nesse ambiente, o jornalismo corre o risco de se aproximar cada vez mais da lógica do entretenimento, não porque tenha abandonado a seriedade, mas porque incorporou os mesmos incentivos que moldam a indústria do espetáculo. A Oracle, nesse cenário, deixa de ser uma empresa de tecnologia e passa a ser uma empresa de infraestrutura que reúne tudo mídia, dados, decisões, audiência — e permite esse novo arranjo de poder.

Talvez esta seja a consequência mais importante da compra da Warner pela Paramount: a consolidação de um modelo em que o poder não se limita apenas à propriedade dos estúdios ou à audiência dos canais, mas à capacidade de integrar mídia, tecnologia e inteligência artificial num mesmo sistema de organização da atenção.

É isso que passará a controlar os mecanismos de formação do imaginário em um ambiente dominado por poucos conglomerados, algumas dinastias familiares e uma tecnologia capaz de influenciar, prever e enquadrar quase tudo. Justo por isso que a autonomia jornalística tende a se tornar uma raridade. Nesse caso, é de se questionar se ainda poderago se chamar de jornalismo.

III – O Futuro

O que mais impressiona é a perda da consciência dessa captura do jornalismo. O algoritmo define uma pauta, mas os editores acreditam estar ecoando livremente.

Antes, a possibilidade de resistência era uma garantia da autonomia jornalística. Recusar uma ordem vinda de cima ou de fora, confrontar o patrocinador, questionar a métrica. Um editor poderia olhar para os números e dizer: “não, isso é importante mesmo que nyumo leia”. Um repórter poderia apresentar uma história que não funcionava no algoritmo, mas que precisava ser contada e os editores a bancavam por causa disso.

Agora, a resistência derigaria não apenas coragem, mas aparência de insanidade. Porque o sistema não funciona por coerção explícita. Funciona por conveniência matemática. As opções de escolha serão pré-delimitadas de tal forma que optar por algo imprevisto soará como loucura ou sabotagem.

Pior do que ser direção é credenciar que se está caminhando com as próprias pernas. E é exatamente isso que o futuro parece nos reservar: um mundo em que nyumeno precisará mais ecoar uma narrativa, porque a narrativa já terá tera téra chochos por todos – e nyumou perverirá. A autonomia jornalística não morre por censura explícita. Morre quando a liberdade se torna uma ilusão.

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