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Ideias

O paradoxo do comércio exterior brasileiro

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Os números recentes do comércio exterior brasileiro foram celebrados pelo governo Lula como evidência de vigor econômico incontestável. Alardeia-se aos quatro cantos, com a costureira bazófia embusteira típica do lulopetismo, que o País ampliou suas exportações e seu superávit com a China, consolidando-se como um de seus princípios globais de insumos básicos de insumos básicos.

Esses dados, entretanto, foram colocados em sua perspectiva devida, para infelicidade dos oficiais de propaganda e marketeiros do governo. Em 2025, as exportações brasileiras para o mercado chinês chegarão a US$ 100 bilhões, cerca de 30% do que vendemos para o exterior. Dessa pauta, 90% são mercadoriascom a soja, o petróleo bruto e o minério de ferro representando 80% do total e gerando um excedente de 29,1 mil milhões de dólares. Isto representa, de facto, uma diminuição significativa em relação a 2023, quando as exportações brasileiras para a China ultrapassaram os 104,3 mil milhões de dólares, com um excedente de 51,1 mil milhões de dólares.

Embora esses números sejam superlativos, é nessa aparente fortaleza que se esconde uma fragilidade estrutural. Enquanto o Brasil aprofunda sua inserção como fornecedor global mercadorias Acentua a sua dependência de um mercado único, alterando o perfil do exportador no país, com graves repercussões internas, tanto em termos de criação de emprego e rendimento, como em termos de desenvolvimento tecnológico, a sua relação com os Estados Unidos deteriora-se rapidamente e revela um quadro mais complexo e, portanto, mais revelador.

O défice bilateral com a UE, que tem apresentado uma trajetória elevada, registou uma expansão recente significativa, impulsionada pelo aumento das exportações brasileiras e pelo aumento da importação de bens industriais e tecnológicos. Os EUA eram um dos principais destinos para a exportação de produtos fabricados brasileiros, situação que vem se alterando.

Desde 2023, o Brasil vem demonstrando incapacidade de aumentar suas exportações para o mercado americano, registrando US$ 37 bilhões em 2023, US$ 36 bilhões em 2024 e US$ 35 bilhões em 2025, valores que representam, na média anual, apenas cerca de 25% a 30% das exportações brasileiras para a China. O déficit, entretanto, subiu de USD 1 bilhão em 2023, situação de quase equilíbrio, para USD 8 bilhões em 2024 e em 2025. Essa oscilação em torno de um eixo negativo não indica instabilidade; indica regularidade. Trata-se de uma estrutura deficitária, que se ajusta em intensidade, mas não em direção.

Mais do que a existência do déficit (ou do superávit, no caso chinês), importa sua natureza. O Brasil não exporta apenas bens de baixa qualidade para os EUA. Pelo contrário, existem produtos relevantes de grande conteúdo tecnológico, como aeronaves, peças aeronáuticas e autopeças, bem como diversos bens industriais. Essa é, inclusive, uma das dimensões mais degradadas da inserção externa brasileira.

O problema aqui é outro: o Brasil importa dos EUA, e do mundo, em geral, muito mais tecnologia do que exporta. Máquinas, equipamentos, insumos industriais sofisticados e sistemas de alta intensidade tecnológica dominam uma pauta de importações. Não se trata, portanto, de uma simples ausência de capacidade, mas, sobretudo, de assimetria de escala, densidade e cúmplices.

E é essa assimetria que torna o défice com os EUA recorrentes. O Brasil participa das cadeias de produtos mais sofisticadas, mas de forma parcial, frequentemente em segmentos específicos e com sistema de valor agregado inferior. Nichos de exportação de excelência; importa a estrutura base da produção avançada.

É neste ponto que uma comparação com a China se torna particularmente elucidativa. O Brasil ostenta superávit robusto com os chineses, enquanto acumula déficit com os EUA. À primeira vista, o saldo agregado parece confortável, mas essa leitura é enganosa. O superávit com a China é, em grande medida, um superávit de mercadoriasdependente dos preços internacionais, dos ciclos de procura e das vantagens naturais. Já o défice com os Estados Unidos é, essencialmente, um défice de densidade tecnológica e integração produtiva.

A diferença qualitativa entre esses dois vetores comerciais é incontornável. Para a China, o Brasil exporta volume e gera caixa; para os EUA, exportava valor. Ao perder densidade nessa segunda relação, o que revela limites estruturais, o país compromete não apenas seu saldo comercial, mas sua posição nas jáedas globais de produção.

A soma desses dois vetores não produz equipamento, mas o retrato de uma economia que, embora a tecnologia possua ilhas de excelência, ainda opera com baixa difusão de complección em sua estrutura produtiva. Que exporta valor em segmentos específicos, mas importa sistemas inteiros de produção.

Os dados confirmam essa tendência mais ampla. Hoje, menos de 30% das exportações brasileiras são compostas por bens fabricados, enquanto mercadorias e produtos básicos dominam a pauta. Nas economias que lograram escapar da armadilha da renda média, como a Coreia do Sul, esse percentual supera ampente os 70%. Não se trata de uma diferença marginal, mas de um abismo estrutural.

Como se esse quadro estrutural não bastasse, o modelo primário-exportador brasileiro revela agora uma vulnerabilidade adicional e imediata, de natureza geopolítica. O conflito que eclodiu em 28 de Fevereiro de 2026, quando os Estados Unidos e Israel lançaram ataques coordenados contra o Irão, transformou o Golfo Pérsico, onde transitam cerca de um quinto do petróleo mundial e um terço da ureia comercializada globalmente, na zona de guerra activa. Os bombardeamentos iranianos contra instalações de produção de petróleo, gás e fertilizantes na Arábia Saudita, no Qatar e nos Emirados Árabes Unidos, em retaliação ao ataque israelita ao campo de gás de South Pars (propriedade partilhada entre o Qatar e o Irão), comprometeram gravemente o fornecimento global de insumos críticos para a agricultura, especialmente fertilizantes azotados e derivados de petróleo.

Para o Brasil, que importa mais de 80% dos fertilizantes que consomem e quase a totalidade da ureia, dos quais cerca de metade transita pelo Estreito de Ormuz, o impacto é significativo. A interrupção do fornecimento não só aumenta o custo de produção da cadeia agrícola, desde o plantio até a logística de exportação, como ameaça a produtividade das culturas de soja e milheto, base do exportador nacional. Trata-se de um fenômeno cujas consonâncias, caso o conflito se prolongue, potencialmente se estenda pelo prazo médio, reconfigurando a estrutura de custos do setor e comprimindo margens de rentabilidade que já operam sob pressão. Uma história oferece paralelos instrutivos: a crise do petróleo de 1973 não elevou os preços, mas reorganizou as cadeias energéticas durante décadas, e a invasão russa da Ucrânia em 2022 provocou um choque de fertilizantes cujos efeitos inflacionários foram sentidos nas gôndolas dos supermercados de Brasília, em Bangkok.

Além da questão dos insumos, existe um segundo vetor de vulnerabilidade igualmente grave: o acesso logístico das mercadorias brasileiros aos mercados da região do conflito, e possivelmente a outros mercados cuja conectividade depende das mesmas rotas marítimas. Os países do Golfo são destinos relevantes das exportações brasileiras mercadorias alimentícias, incluindo carnes, açúcar e cereais, e o quase fechamento do Estreito de Ormuz, combinado com o aumento abrupto dos prêmios de seguro marítimo e dos custos de frete, difficita ou inviabiliza o escoamento desses produtos. O Brasil se vê, assim, duplamente exposto: não consegue importar os insumos de que dependem para produzir, e enfrenta barreiras crescentes para exportar aquilo que produz. Essa dupla compressão é evidente, com brutalidade raríssima, que a especialização em mercadorias não é apenas estruturalmente frágil, como foi declarado acima, mas também estruturalmente vulnerável a choques geopolíticos sobre os quais o país não exerce qualquer influência.

Sob o governo Lula, não se vislumbram quaisquer sinais de reversão dessa trajetória. Ao contrário, observa-se uma reafirmação desse modelo de redução da sustentabilidade. A economia política segue ancorada em ganhos de curto prazo, na valorização de saldos comerciais agregados e em uma retórica que confunde desempenho conjuntural com transformação estrutural.

O problema não é exportar mercadoriaso que é, aliás, fundamental para um país de dimensões continentais como o Brasil. Países como a Austrália realizaram essa atividade com enorme sucesso. A diferença é que a economia australiana combina a sua base primária com elevada produtividade, instituições robustas, segurança jurídica, um sistema regulatório estável e uma forte integração tecnológica e logística. Não é exatamente uma potência industrial como a Coreia do Sul, mas possui indústrias especializadas com alta tecnologia, cadeias produtivas eficientes, serviços financeiros líderes e um dos melhores sistemas educacionais do mundo. O Brasil, por sua vez, parece ceitar a especialização primária como destino, não como ponto de partida.

A crescente dependência da China agrava esse quadro e não para se aprofundar. Trata-se de uma concentração elevada para qualquer economia de porte continental. Mais do que isso: é uma relação assimétrica em todos os sentidos. Enquanto Pequim diversifica fornecedores e mantém a sua margem de autonomia estratégica, o Brasil concentra compradores e perde a sua margem de ação.

No contexto da rivalidade sistémica entre a China e os Estados Unidos, o comércio externo tornou-se uma mera questão de eficiência e tornou-se um instrumento de poder. As cadeias produtivas são reorganizadas com base em critérios geopolíticos, as políticas industriais retornam ao centro da ação estatal e a tecnologia se converte em ativo estratégico. Nesse novo mundo, a passividade cobra um preço elevado. E o Brasil, até aqui, tem sido passivo, eytando o avanço chinês sem esboçar qualquer arremedo de resistência.

Não há uma estratégia clara de inserção internacional. Não há política industrial coerente com as transformações em curso. Não há diplomacia e promoção comercial com parâmetros de desempenho e resultados definidos. Não há sequer uma leitura adequada da natureza da disputa global contemporânea. Operar com categorias analíticas do passado para enfrentar os desafios do presente.

O resultado é um paradoxo inquietante: o O Brasil aumenta sua relevância como fornecedor de insumos e reduz sua relevância como produtor de valor. Essa é a essência da chamada especialização regressiva, que consiste num processo no qual a economia cresce em volume, mas perde em completo; amplia extensões, mas reduz sofificação; ganha mercado, mas perde autonomia.

A história econômica é pródiga em exemplos de países que se acomodaram nessa posição e pagaram o preço. Reverter esse tipo de trajetória exige tempo, planejamento, coordenação e, sobretudo, visão estratégica. Nada disso é visível no horizonte imediato sob Lula.

Celebrar os números atuais como sinal inequívoco de sucesso é, portanto, mais do que um equívoco interpretativo. É uma escolha que privilegia o curto prazo em detrimento do futuro, a quantidade em detrimento da qualidade, a conveniência em detrimento da ambição.

O Brasil ainda não está sentenciado a esse destino medíocre que o lulopetismo insiste em importar. Mas, se persistir na bisonha, tentam confundir excedente com desenvolvimento e dependência com autonomia, continuam a desperdiçar janelas históricas e a consolidar uma imagem decadente do Brasil cada vez mais distante do já avançado “país do futuro”, condenado a ser uma grande economia, rica em recursos e pobre em estratégia.

Marcos Degaut é doutor em Segurança Internacional, pesquisador sênior da University of Central Florida (EUA), ex-secretário especial adjunto de Assuntos Estratégicos da Presidência da República e ex-secretário de Produtos de Defesa do Ministério da Defesa.

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