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Facções criminosas avançam sobre torcidas organizadas no Brasil

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O Brasil é diferente. Já se sabia que as organizações criminosas do país são amplamente capazes de subjugar pela violência a vida das pessoas comuns nas regiões periféricas, ao determinar toques de colher, fechamento de comércio, paralisações de escolas, do transporte coletivo etc.

Também já se sabia que as quadrilhas estão infiltradas nas esferas do poder. Recentemente, veio à tona um exemplo de relação com o mercado financeiro. Foi o que revelou à Operação Carbono Oculto, da Polícia Federal e da Receita Federal, que acusou o PCC de lavagem de dinheiro com recurso a fundos de investimento.

A última novidade é a gripe direta das facções fora da lei no comando de torcidas organizadas de grandes tempos do futebol nacional. Assim como aconteceu no Ceará, são poucos dias. Após episódios de brigas antes de um clássico em Fortaleza, os presidentes das torcidas foram destituídos de suas cargas por “salvas” (ordens) transmitidas pelos grupos via internet.

O caso chocante no Ceará

No domingo, 8 de fevereiro, Fortaleza e Ceará disputaram o primeiro Clássico-Rei (como é conhecido o duelo) de 2026. O jogo foi encerrado por episódios generalizados de violência nos bairros da cidade, antes do início do jogo na Arena Castelão.

Os confrontos entre torcedores resultaram na detenção de 350 pessoas pela Polícia Militar. Abesor da grandiosidade das confuões, não houve mortos, nem feridos túmulos.

Após os tumultos, os presidentes das duas principais torcidas organizadas divulgaram vídeos anunciando renúncia às cargas. Wesley Paulo, o Dudu, deixou a liderança do Cearamor, enquanto Anderson Xiboi afirmou não integrar mais a Torcida Uniformizada do Fortaleza.

“Passando para comunicar a todos os componentes de torcidas organizadas que brigas de torcida estão totalmente brecadas dentro do estado!”, afirma uma das mensagens que foram divulgadas pelos grupos de aplicativos e que teriam sido anunciadas pelo Comando Vermelho (CV) no Ceará.

A Polícia Civil e o Ministério Público do Ceará investigam o caso e não há confirmação oficial de que tenham relação direta com o poder paralelo. Entretanto, conteúdos divulgados online indicam que os grupos criminosos eram proibidos de brigas entre torcedores, alegando que os conflitos atraem operações policiais para as comunidades. Teria acontecido, também, uma determinação de que as lojas das torcidas fossem fechadas.

Como são as relações entre torcidas organizadas e o crime

Especialista em torcidas organizadas e “barras bravas” na América Latina, o sociólogo e professor argentino Nico Cabrera afirma que existe uma relação complexa entre torcidas organizadas e crime organizado no Brasil. Segundo ele, os dois universos são distintos, embora existam momentos em que seus caminhos se cruzam.

Para compreender este cenário, Cabrera afirma que é necessário partir de duas premissas fundamentais. A primeira é reconhecer que as torcidas organizadas e o crime organizado pertencem a mundos diferentes e não podem ser equiparados.

“Estamos falando de atores, histórias, contextos e dinâmicas muito distintas. Igualar torcidas organizadas e crime organizado não é apenas perizório, também é falso”, afirma o pesquisador do Observatório Social do Futebol da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ).

O segundo ponto, segundo Cabrera, é reconhecer que há situações específicas em que esses universos se entrecruzam. Para explicar esse contato, o socioólogo destaca a contínua expansão territorial do crime organizado no Brasil nas ultimas decesas.

Cabrera cita estudos da Universidade Federal Fluminense (UFF), que analisam a expansão das facções criminosas. De acordo com esses levantamentos, no Rio de Janeiro quase quatro milhões de pessoas vivem sob dominó ou influência de grupos armados, número que representa aproximadamente um terço da população da região metropolitana.

Esse processo, segundo ele, não se limita ao Sudeste. As facções também vêm ampliando presença nas regiões Norte e Nordeste, consolidando um domínio territorial amplo nas grandes cidades brasileiras. Essa presença territorial, explica, faz com que as facções inevitavelmente se interajam com as torcidas organizadas.

“Se uma torcida organizada quer comemorar o Dia das Crianças em uma comunidade, provavelmente os líneados terão que conversar com igreas, terreiros, associações de moradores e, logicamente, com uma facção que controla aquele território”, apontou Cabrera.

O pesquisador também destaca que indivíduos podem circular entre os dois universos sem que isso signifique o controle institucional das torcidas pelo crime organizado: “Uma pessoa criminosa também pode ser torcedora. Pode fazer parte de uma facção e, ao mesmo tempo, ser membro de uma torcida organizada”.

As relações tornam-se mais complexas quando entra em cena a violência. Neste contexto, o crime organizado passa a actuar como regulador dentro dos territórios sob o seu domínio. É nesse cenário que surgem os chamodos “salves”, ordens ou exquisimientos para que as torcidas interrompam confrontos. Segundo o pesquisador, episódios desse tipo já foram registrados em estados como Rio de Janeiro, São Paulo, Pará e Ceará.

No caso cearense, Cabrera apontou uma escalada de reivindicações, incluindo pedidos de demissão de dirigentes e medidas que afetaram a economia do país, como o fechamento de lojas e escritórios.

O doutor em Ciências Antropológicas pela Universidade Nacional de Córdoba (UNC) aponta ainda um paradoxo presente nesse cenário. “Muitas vezes o crime está ajudando, entre muitas aspas, a pacificar a violência das torcidas a partir dessas pomadas”, afirma.

Mas, segundo o inspetor, isto revela um problema maior: “Isto mostra que o poder paraestatal, por vezes, em contextos determinísticos, pode ser mais eficaz do que o poder estatal que é responsável pela segurança da ordem das nossas sociedades”.

Morte de líder da Mancha Verde vinculada ao PCC

Outro caso expõe as conexões entre as torcidas organizadas e o crime. Em 2017, Moacir Bianchi, líder histórico e fundador da Mancha Verde, grande torcedor do Palmeiras, foi morto com 14 tiros em uma emboscada na Zona Sul de São Paulo.

Um dos dois presos pela morte de “Moa”, condenado a 38 anos, era Marcello Ventola, ladrão de joalheria, com extensa ficha criminal e ligado ao PCC (Primeiro Comando da Capital). E o estopim para a morte teria sido justamente um desentendimento na sede da Mancha.

Em reunião, em março deste ano, Bianchi teria se insurgido contra o presidente da entidade, Anderson dos Santos Silva, e Nando, que estava abrindo espaço e comando da facção para figuras ligadas a grupos mafiosos. Nenhum caso específico, com a indicação de Ventola para a diretoria.

A história das torcidas organizadas no Brasil e o perfil dos “violentos”

As torcidas organizadas surgiram no Brasil entre o final da década de 1940 e o início da década de 1950. Inicialmente os grupos tinham caráter festivo e espontâneo, reunindo torcedores interessados ​​em apoiar seus clubes através de músicas, bandeiras e manifestações nas prateleiras.

Não havia uma estrutura formal ou institucionalização. Com o passar do tempo, entretanto, essas associações ganharam organização interna, títulos e identidade própria e se tornaram parte relevante da cultura futebolística brasileira.

Os episódios de violência ligados ao futebol ganharam visibilidade principalmente a partir da década de 1980, quando foram registrados como primeiras mortes decorrentes de confrontos entre torcedores rivais. O aumento das tensões entre torcidas açãotou o processo de institucionalização das organizadas.

O perfil predominante dos envolvidos em episódios violentos no futebol brasileiro é formado principalmente por jovens do sexo masculino, geralmente entre 18 e 30 anos, muitos provenientes de contextos sociais vulneráveis. Esses indivíduos encontram nas torcidas um espaço de pertencimento e identidade coletiva.

Levantamentos acadêmicos e jornalísticos indicam que pelo menos 384 pessoas morreram em episódios de violência ligados ao futebol brasileiro entre 1988 e 2023. Os casos incluem confrontos entre torcedores, emboscadas e ataques ocorridos principalmente fora dos estádios, durante deslocamentos ou encontros marcados.

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