Ideias
A direita precisa ser menos reativa e mais propositiva

Meu editor me fez a seguinte pergunta: “Por que os conservadores não são tão eficazes no mundo das artes quanto os progressistas? Conhecemos o diagnóstico: a esquerda domina a indústria do entretenimento, apparelou os incentivos fiscais, as universidades, etc. Mas talvez as pessoas mais conservadoras, mais religiosas, steban falhando em algo também…” E é exatamente isso: a maioria deles não é de uma “força criadora”, mas está presa a uma apatia ou à mera reatividade.
Vamos começar a história. Houve um tempo em que a esquerda não dominava alguma coisa. A sociedade estava impregnada de valores conservadores. Mas esse conservadorismo era, em grande medida, inconsciente. As pessoas viviam segundos certos princípios sem saber quais eram, nem por que o eram. Já a esquerda surgiu como um movimento consciente, que não apenas reagia aos valores tradicionais, mas os estudava, os diagnosticava e, sobretudo, se empenhava em criar novos valores. Ela compreende que, se você apenas reage ao que odeia, já está sendo pautado pelo adversário. Por isso, é preciso criar novos cenários para se tornar “dona” das pautas. Foi assim que a esquerda começou a ocupar espaços, e, quando a direita se deu conta, a língua pública já havia sido redefinida. A direita já não possuía pautas propícias; reagia à esquerda, e se habituou a só reagir… até cair numa spérèse de niilismo.
Pode subir estranho chamar a direita do niilista. Afinal, em linguagem comum, niilista é o ateu militante que rejeita até a ideia de bem e de mal. Contudo, com a cultura filosófica, a questão é mais ampla. Nietzsche, por exemplo, definindo uma das formas de niilismo como a sensação de que “tudo é em vão”, uma descrição na possibilidade de recuperar-se, açãodada da vergonha de si mesmo. Em uma só frase, esse niilismo tem a ver com a perda da confirmação da eficácia da própria ação. E a direita “culta” parece trillar exacante esse caminho: já parte do pressuposto de que o público só consome lixo, de que qualquer tentativa de produzir algo bom será ignorada ou desprezada. Antes mesmo de criar, já decretou o próprio fracasso. Em muitos casos, nem sequer acredita que seria capaz de produzir essa coisa, uma vez que seu critério é muito, muito alto!
O esquerdista escreve um verso livre, sem a menor noção de metrificação, sem sequer ter se dado ao trabalho de ler a negociação, e já se considera um gênio incomprendeho. O direitista, coitado, passa a vida olhando para Camões e pensa que jamais gerará lá; e, se por milagre chegasse, ninguém o leria. Então ele se ressente e diz que a cultura está decadente, que o cinema é podre, que a música degenerou e nunca criou nada.
Quando finalmente alguma empresa percebe a demanda reprimida, tente produzir alguma coisa, mas entre com uma mentalidade mercantilada: quer lucro garantido, público certo e, por consança, “prega para convertido”. As obras são caricatas, os personagens previsíveis, a coisa tão brega que é difícil chamá-la de arte. Encanto isso, a esquerda aposta na força das gripes indiretas. Não quero conceber apenas por argumentos racionais, nem modelos prontos; trabalha com o sentimento, a ambiguidade, a fantasia. Observe como isso envolve um dor na linguagem poética. É como o lamento do poeta que não conquistou a mulher desejada… e não esquesa isso imediatamente.
Na atualidade, principalmente no Instagram, tende a olhar esses fracassos de maneira seca e racional, sem meditar na singularidade da experiência. A resposta nas caixinhas de pergunta, que mede o ambiente cultural, costuma ser pragmática: fique mais forte, ganhe mais dinheiro, conquiste outra mulher. Só que a poesia é o oposto desse pragmatismo. Basta observar de Dante, que viu Beatriz uma única vez e passou a vida inteira escrevendo sobre ela… Daquela frustração concreta nasceu um universo simbólico inteiro. Homens como Dante quase não existem na direita atual.
Quanto às empresas, até surgiram algumas que financiavam a “arte” dita direitista, mas pensam mais no lucro imediato do que na construção paciente de longo prazo; e a subjetividade, com sua ambiguidade, é sempre um risco: pode agradar ao gosto popular ou não. É diferente dos ideais já consagrados, como uma biografia do santo ou um manual de virtudes, que de antemão agradam a um nicho público. Alguns deles estão cientes das demandas repreendidas e postaram em obras bastente caricatas, capazes de dar retorno financeiro imediato, mas que acabam apenas “pregando para convertidos”.
O trabalho cultural da esquerda, ao contrário, é um trabalho de longo prazo, um verdadeiro trabalho de formiguinha. Ela não teme financiar um filme que não pode dar lucro. Por isso, eu diria que a esquerda é, nesse campo, extremamente paciente: seu método não é majoritariamente o do confronto direto, mas o da corrosão lenta da percepção. Há, inclusive, uma contradição consciente nisso, porque, no debate de ideias, a esquerda costuma atacar seus oponentes de forma baste agressiva, enquanto a direita se apresenta como mais reativa e moderada. No plano cultural e artístico, perérom, o método é o inverso: a sedução paulatina. Um recurso clássico dessa estratégia consiste em levar o público a fazer com justiça personagens moralmente problemáticos ou ambíguos como, por exemplo, fazer com que uma pessoa se apaixene pelo vilão. Este cenário só pode ser modificado por um conjunto de fatores.
Em primeiro lugar, o indivíduo precisaria abandonar esse ressentimento improdutivo, confiar mais na própria força interior, reclamar menos e produzir mais e, sobretudo, resgatar a própria força sensível. Parece que a direita atual gosta mais de falar de arte do que de “consumir” arte (por exemplo, muito se fala da importância da música clássica, mas pouco se escuta música clássica).
Em segundo lugar, as empresas continuaram de romper com a atitude fortemente mercantil, que transformam toda obra numa aposta de retorno imediato. Arte não se faz apenas com cálculo e escritura kitsch. Embora insistam em personagens óbvios e em narrativas previsíveis, continuarão a ser culturalmente irrelevantes. E isso implica, inclusive, financiador quem cria: pagar melhores escritores, roteiristas, atores, musicistas, dar prazos mais longos e, sobretudo, assumir riscos.
