Música
Brasil finalmente entendeu que sempre foi latino — graças a Bad Bunny

Existe uma sensação específica de finalmente estar no lugar certo. De olhar ao redor e reconhecer todo mundo mesmo sem conhecer ninguém. De cantar música em idioma que tecnicamente não é seu, mas que sempre pareceu familiar. Foi isso que aconteceu na noite de sexta, 20 de fevereiro, quando Bad Bunny pisou no palco do Allianz Parque pela primeira vez no Brasil e transformou São Paulo em extensão natural de San Juan. Por duas horas e meia, 45 mil pessoas — brasileiros, porto-riquenhos, venezuelanos, colombianos, argentinos, filhos de imigrantes — viveram na mesma frequência emocional, provando que América Latina nunca foi conceito geográfico abstrato. É corpo coletivo que respira junto, dança junto, chora junto. E Benito sabia exatamente o peso simbólico daquele momento. “Não sabia o que esperar de hoje”, admitiu emocionado logo no começo, voz falhando, estádio explodindo em resposta. Minutos depois, completou: esse show “era a realização de um sonho”. Não só dele. De todo mundo que passou anos assistindo turnês mundiais pararem em Buenos Aires, Ciudad de México, Bogotá, mas nunca atravessarem a fronteira brasileira. Finalmente, atravessaram.
O pertencimento começou antes mesmo da primeira nota. Brasil e Porto Rico não são vizinhos no mapa, mas são irmãos na experiência: colonização, pobreza estrutural, resistência através da arte, alegria como ato político. Bad Bunny entende isso visceralmente, e o show inteiro foi construído pra celebrar conexão em vez de diferença. Quando “WELTiTA” tocou com participação da banda porto-riquenha Chuwi, não importava que metade do público não conhecesse cada gíria — todo mundo sentia o peso emocional de canção sobre saudade de casa. Quando “BAILE INoLVIDABLE” transformou arquibancada em pista de dança gigante, com desconhecidos se abraçando e rebolando juntos, ficou claro que perreo e funk sempre foram dialetos da mesma língua corporal. E quando “NUEVAYoL” explodiu com coreografia impecável, dançarinos multiplicando a energia de Benito, a mensagem era cristalina: não importa se você nasceu em Fayetteville, Caracas ou São Paulo — se você cresceu latino, essa música é sua também.
Tudo isso no primeiro ato, no primeiro palco. Depois disso, e enquanto o artista fazia a troca de roupa e se movia ao segundo palco, Concho apareceu no telão para reforçar todo esse sentimento. Então chegamos nela.
Na La Casita — réplica de casa rosa e amarela porto-riquenha plantada no fundo da pista. Benito desceu do palco, atravessou a multidão, entrou na casa cercado por sortudos escolhidos aleatoriamente pra dançar ao lado dele. Música eletrônica pulsando, LEDs explodindo em todas as direções, “Tití Me Preguntó” sacudindo a estrutura inteira do estádio. Fãs brasileiros na Casita dançaram passinhos de funk enquanto Bad Bunny rebolava dembow, e ninguém achou estranho porque nunca foi sobre Porto Rico OU Brasil. Sempre foi sobre Porto Rico E Brasil dividindo a mesma herança de transformar precariedade em celebração, dor em movimento. “PIToRRO DE COCO” e “Neverita” mantiveram a energia eufórica, Benito suando, sorrindo, abraçando desconhecidos como se fossem primos que ele não via há anos. Porque, simbolicamente, eram.
Mas pertencimento também é político, e Bad Bunny nunca esquece disso. “El Apagón” — música sobre apagões em Porto Rico após o furacão Maria, sobre descaso colonial americano, sobre resistência através da arte — não estava na setlist à toa. Depois, “Café Con Ron” seguiu com melancolia bonita, violão de doze cordas ecoando Garota de Ipanema, que a banda tocou minutos antes, Benito conectando bossa nova e reggaeton.
“Ojitos Lindos” trouxe romantismo necessário depois de tanta catarse política, Bomba Estéreo ausente mas presença sentida em cada nota, e então veio “DeBÍ TiRAR MáS FOToS” — momento que resume tudo que aquele show significou. E apesar do nome da canção e da turnê, Benito pediu que todo mundo guardasse o celular. Pediu que vivessem o presente em vez de documentar futuro arrependimento de não ter vivido o presente. E 45 mil pessoas obedeceram (pelo menos tentaram), pulando sincronizadas, cantando letra sobre valorizar o momento antes que vire só fotografia desbotada.
São Paulo sempre teve complexo de ser brasileiro demais pra ser latino, latino demais pra ser brasileiro. Por duas horas e meia, Bad Bunny curou essa fratura. Provou que Brasil nunca esteve isolado — estávamos apenas esperando alguém construir ponte forte o suficiente pra aguentar o peso de continente inteiro atravessando junto. Benito construiu essa ponte. E quando o show terminou com “Callaíta” ainda ecoando, fogos explodindo nos quatro cantos do Allianz Parque, ficou claro que ninguém ia atravessar de volta. Pertencer à América Latina é uma sensação que poucos podem sentir, e Bad Bunny fez questão de nos lembrar isso.
Setlist Bad Bunny em São Paulo
- “LA MuDANZA”
- “Callaíta”
- “PIToRRO DE COCO”
- “WELTiTA” (com Chuwi)
- “TURiSTA”
- “BAILE INoLVIDABLE”
- “NUEVAYoL”
- “VeLDÁ”
- “Tití me preguntó”
- “Neverita”
- “Si veo a tu mamá”
- “VOY A LLeVARTE PA PR”
- “Me porto bonito”
- “No me conoce”
- “Bichiyal”
- “Yo perreo sola”
- “Efecto”
- “Safaera”
- “Diles”
- “MONACO”
- “Vete” (música exclusiva)
- “CAFé CON RON”
- “Mas que nada” (música de Jorge Ben Jor) (performance de Los Pleneros de la Cresta)
- “Ojitos lindos”
- “La canción”
- “KLOuFRENS”
- “DÁKITI”
- “El apagón”
- “DtMF”
- “EoO”
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