Música
Kali Uchis supera Carnaval, Super Bowl e Doja Cat na ‘The Sincerely, Tour’ em São Paulo

Quase 10 mil pessoas no Vibra São Paulo num domingo de chuva, bloquinhos de pré-Carnaval e dia de Super Bowl com show histórico do Bad Bunny. Quem poderia driblar tudo isso? Kali Uchis! A cantora colombiana lotou a casa de shows com público maior que o da rapper Doja Cat, que esteve em São Paulo na semana anterior. Essa foi a segunda vez dela no Brasil — a primeira foi no Lollapalooza 2023 — mas agora como headliner solo da turnê “The Sincerely, Tour”. E a diferença entre as duas apresentações é clara: Kali agora está consolidada, não precisa provar mais nada para ninguém.
Essa segurança ficou evidente desde o momento político que abriu a noite. Um vídeo de Kali tocou nos telões do Vibra SP: “Somos trabalhadores. Somos humanos”, dizia a voz gravada enquanto imagens de imigrantes passavam na tela. Kali Uchis, nascida nos Estados Unidos mas criada na Colômbia, se considera imigrante, e o vídeo — embora seja parte fixa da estrutura da turnê — ganhou peso extra naquele domingo específico. No mesmo momento, do outro lado das Américas, Bad Bunny comandava o intervalo do Super Bowl inteiramente em espanhol, recusando tradução e listando todos os países latino-americanos. Kali fez coro à mensagem. Cantou em espanhol pela maior parte do show. Não traduziu. E essa escolha linguística não foi apenas uma declaração.
A postura se refletiu na cenografia grandiosa que Kali montou. Ela entrou descendo do alto num balanço coberto de lençóis brancos, como se descesse dos céus. Deitou-se numa cama gigante no meio do palco sensualizando para a câmera que filmava de cima. Foi carregada pelos dançarinos numa liteira — réplica de cadeira usada para transportar rainhas. Performou dentro de uma xícara gigante. Usou asas brancas. Uma lua cenográfica enorme ocupou o fundo do palco, enquanto telões variavam entre imagens de casa rosa de bonecas, desertos, corações e orquídeas. A estrutura era cara, elaborada, teatral. E Kali entregou o que prometeu — cantou tudo ao vivo (mesmo com o volume da voz um pouco abaixo do ideal) e dançou todas as coreografias sem economizar energia.
O show seguiu essa lógica em três atos que percorreram toda a carreira. O primeiro focou nos álbuns Orquídeas (2024) e Sin Miedo (del Amor y Otros Demonios) (2020). O segundo ato voltou no tempo para Por Vida (2016) e Isolation (2018). E o terceiro trouxe Sincerely, (2025), com Kali num vestido roxo longo mostrando vocais potentes em faixas mais intimistas. Por fim, depois de cantar grande parte do seu repertório, veio “Telepatía”, o hit que viralizou no TikTok em 2020 e que o público cantou palavra por palavra.
Essa estrutura coerente se estendeu à interação com o público, ou melhor, à falta dela. Kali falou pouco. Não tentou português. Não fez agradecimentos excessivos. Colocou a brasileira Urias na abertura — gesto que reconhece a música do país, lembrando que Kali já citou influências como Astrud Gilberto e Bonde do Rolê em entrevistas.
A apresentação teve limitações — a acústica abafada prejudicou momentos específicos, e quem esperava proximidade pode ter saído frustrado. Mas nada disso tirou o brilho do que Kali Uchis entregou: um show grandioso e sofisticado, completamente digno da imagem que ela projeta. Cada detalhe reforçou a mensagem de que ela merece ser tratada como diva. E São Paulo validou, lotou o Vibra SP num domingo chuvoso em um dos piores dias para uma apresentação ao vivo. Superou o público da Doja Cat. Cantou junto cada palavra em espanhol. No fim, quando Kali voltou ao palco depois das cortinas fecharem para dar um presente aos fãs, ficou claro que ela entende exatamente o valor que tem — e que os quase 10 mil ingressos vendidos provam que não precisa mudar absolutamente nada.
Setlist Kali Uchis em São Paulo
Ato I
- “Frikitona”
- “Muñekita”
- “Por Que Te Demoras?” (cover de Plan B)
- “Labios mordidos”
- “Me pongo loca”
- “Muévelo” (estreia ao vivo)
- “Pensamientos intrusivos”
- “Hasta cuando”
- “Sad Girlz Luv Money” (cover de Amaarae)
- “fue mejor”
- “Diosa”
- “SI NO ES CONTIGO” (cover de Cris MJ)
- “Dame beso // Muévete”
- “Igual que un ángel”
Ato II
- “Speed”
- “Loner”
- “Melting”
- “Dead to Me”
- “After the Storm”
- “See You Again” (cover de Tyler, The Creator)
- “Moonlight”
Ato III
- “Sugar! Honey! Love!”
- “Lose My Cool”
- “It’s Just Us”
- “For: You”
- “All I Can Say”
- “Angels All Around Me…”
- “telepatía”
Bis
- “no eres tu(soy yo)”
- “quiero sentirme bien”
- “I Wish You Roses”
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