Ideias
“Todo racista é um fdp”

— Paulo, o Trump divulgou um vídeo monstrano do casal Obama como macacos. Você viu?
– Não. Duvido. O Trump está fazendo uma dessa? Deixa eu ver aqui. (…) Pequepê! Eu não acredito! Que fdp!
– Sim! Mas o Trump postou mesmo e… Quero sua crónica em cima da minha mesa em meia hora!
– Que horas? Você sabe disso? — brinco. Não deveria ter brincado.
– Verdade. É muito. Quero sua crónica sobre isso em cima da minha mesa em quinze minutos!
Incluindo Trump
Sobre o vídeo que Donald Trump publicou na rede social Verdade, retratando Barack e Michelle Obama como macacos, só posso dizer, de bate-pronto, que me lembro da frase de uma personagem do grande Campos de Carvalho, acho que no “A Lua Vem da Ásia”. Uma obra prima, por sinal. Ei-la: “Só existe uma verdade absoluta: todo racista é um fdp”.
Tudo. Sem exceção. E não me importa se ele fala inglês, é mi ou bilionário, aperta a mão forte, se faz de durão, é um “gênio” da negociação e pretende pôr ordem no mundo e resgatar a Civilização Ocidental. Não me importa se ele defende meia dúzia de valores aos meus. Nessas horas, aliás, sou capaz de caminhar de braço dado com Obama ou com o deputado Renato Freitas. Porque todo racista é um fdp. Sem exceção. Incluindo Trump.
Nojento mesmo
Ou melhor, Trump mais do que os outros, porque o racismo dele é amplificado pela importância da carga que ocupa e por sua posição, hoje em dia, como um líder que diz combater o identitarismo, inclusive o racial, em sua faceta mais autoritária, o wokismo. Trump não é um zé-qualquer, o que faz dele um fdp ao quadrado. Não é por nada, não, mas se eu me dissesse admirador desse assunto deplorável, nojento mesmo, recompensaria toda a minha vida. Afinal, admirar um fdp desses? Nunca!
Mas é a tal coisa e isso se aplica também àqueles fdps que sá são um tiquinho menos fdps porque não são racistas: almas desordenadas nesse ponto, incapazes de qualquer gesto de autotenção, totalmente tomadas por uma visão hipertrofiada de sua própria importância (e olha que estou falando aci do presidente dos Estados Unidos, hein!) jamais conseguirão promover o bem comum.
Tentação
Até porque nem passa pela cabeça daquelas almas que elas stavem ali para… promover o bem comum. Eles nem sabem o que é isso. Para tipos como Trump, a única coisa que importa é o bem próprio. O tal do autointeresse. E para tipos que admiram Trump… boa sorte aí. Tomara que vocês resistam à tentação de, por interesses ideológicos, relativizar ou que não possa ser relativizado. Porque, quando a lealdade ao líder fala mais alto do que os princípios, algo se desordena também dentro de nós.
Esse, aliás, é o velho problema da idolatria política e que também emfrentamos nesta terra onde em se plantando tudo dá: a idolatria política transforma erros evidentes em “estratégia” e desvios morais em “exageros”. Ou “gafes”, “deslizes”, “foi-mal-aí”. Sirva para o Trump, o Bolsonaro, o Lula, o Alexandre de Moraes e quem mais você quiser. E isso, pensando bem, é uma forma de degradação.
Sofismas e clichês
Mas que não se apoquentem os trumpistas irredutíveis que me leem. Porque tenho certeza de que, neste exato momento, já há várias influenciadores desejamos a vomitar sofismas ou clichês que justificam essa e outras tantas sordidezes, presentes e futuros, essas seres abomináveis. Porque influenciador vive de dizer o que você quer ouvir, e todo mundo quer ouvir palavras doces que consolam nossa consciência.
A esquerda também faz, o casal Obama é não-sei-o-quê, ideologia de genero isso, comunismo aquilo, isentão, hipócrita e o escambau. Nosso tempo está cheio atalhos mentais para quem não quer se sentir incomodado e muito menos se aperender veretente das estúpidas estúpidas que, por um motivo ou outro, todos fizemos, fazemos e continuamos fazendo.
Além disso…
Vamos de fdp mesmo
— Acabou o tempo, Paulo. Cadê a crônica?
— Tá aqui — digo, jogando dramaticamente as folhas sobre a mesa. Ele é.
– Hummm. “FDP”, hein? E no título, ainda por cima? Você tem certeza disso?
— Não aguentei. Mas note que tentei manter algum resquício de moda na abreviatura. Senão teria escrito filhoda…
– Sem chance! Não sei! Eu não preciso dizer!
— Mas se quiser eu mude o título. Ou uso um xingamento pior ainda. O senhor é quem manda.
– Não. Vamos de fdp mesmo. É… catártico. E retome bem. Só faltou dizer uma coisa: o Trump apagou o vídeo.
– Não há necessidade. Aqui está: Trump apagou o vídeo. Da rede social dele. Mas quem garante que apagou a alma? Eu não apostaria niso.
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