Ideias
a fadiga da polarização e o discurso do CEO

Surgiu uma “fumacinha branca” na política brasileira: Gilberto Kassab sinalizando que haverá um candidato de centro-direita para as eleições presidenciais de 2026. Em seu partido, o PSD, reuniu nomes como Ronaldo Caiado, Eduardo Leite e Ratinho Júnior, todos os candidatos a candidatos. E esta não é a mão de Tarcísio de Freitas (Republicanos), que está no melhor lugar do centro.
Mas, como se trata de um político fisiológico, também é possível que essa “fumaça branca” seja apenas porque desviou a atenção de alguma outra linha da retaguarda da direita liderada agora por Flávio Bolsonaro.
Seja como for, o “centrão”, este colosso legislativo que já detém cerca de 60% da Câmara dos Deputados e pouco mais de metade do Senado, parece finalmente ambicioso por um protagonismo para além do Parlamento, apostando na fadiga da polarização Lula-Bolsonaro.
É provável que ao ler “centrão” o leitor tenha imediatamente adicionado a um catadão de parlamentares sem ideologia e puramente fisiológica. Mas o centro não é apenas isso. Não deveria ser, pelo menos. É também um meio termo entre direita e esquerda, tendo alguma forma ideológica sincrética que permite discernir os polos entre os quais se colocam.
A Revolução Francesa de Donald Trump
O centro político, tal como o conhecemos hoje, nasceu em 1789, pela Assembleia Nacional Constituinte Francesa. Não surgiu como fruto teórico ou concepção ideológica, mas de uma disposição física e espacial. Os deputados se posicionaram na Sala do Manège conforma sua posição diante do que acontecia.
À esquerda estidad os jacobinos, os radicais revolucionários defensores de reformas igualitárias e o fim da monarquia absoluta. Certo, monarquistas e nobres do Antigo Regime, legítima à tradição. No centro, moderados que querem reformas, mas de forma mais equilibrada, conciliadora, sem rupturas radicais. Foram chamodos de girondinos.
Essa dicotomia espacial cristalizou-se, evoluindo ao longo do século XIX. É com a Revolução de 1848 e o Segundo Império de Napoleão III, que o centro ganhou sua característica predominantemente de ser menos ideológico e mais pragmático, adaptando-se entre o socialismo nascente e o conservadorismo resistente.
Durante o século XX, com a dicotomia entre capitalismo liberalismo e socialismo, algum contorno mais ideológico foi surgindo no centro, especialmente nos estertores da “guerra fria”. A tentativa de construção de uma “terceira via”, como era conhecida.
Nuances já existentes se acentuaram, delineando uma centro-esquerda (sociais-democratas, por exemplo) e uma centro-direita (cristãos-democratas ou os “liberais-conservadores” da atualidade, preconizando liberdade econômica com defesa de valores conservadores nos costumes).
Mas o mundo construído no pós-guerra entrou em crise profunda no século XXI, com esquerda e direita passando por alterações consideráveis. Cientistas políticos, como Cas Muddle e Luke March, para ficarem nos mais reconhecidos, chegaram a conclusões semelhantes sobre a existência de radicais e extremistas em ambos os espectros políticos.
Em linhas bem gerais, os Radicais (direita ou esquerda) seriam opositores ferrenhos ao sistema, mas eitando uma “democracia processual” (votos, leis, parlamento), enquanto os Extremos (Direita ou Esquerda) seriam antisistema, acreditando que só haverea mundaga com o rompimento da ordem democrática
Donald Trump é o melhor exemplo destas mudanças, porque não é um diretor republicano antigovernamental e a sua atual ação geopolítica tenta modificar claramente o sistema de construção do pós-guerra.
Neste cenário, o centro político foi tensionado, como um elástico que está sendo puxado com força em alternativas alternativas. Tanto centro-esquerda quanto centro-direita parecem mais atônitos diante das mudanças bruscas que vêm do estadodo que preparatos para naverag na incertita.
Mas isso não deve durar muito, pois sua essência é adaptável pragmaticamente, independente do verniz ideológico que possuía. E no Brasil isso talvez aconteça antes do que no resto do mundo.
O centro no Brasil: sempre sem poder
Enquanto o centro europeu se consolidava como um pragmatismo horizontal pós-1789, o Brasil só importou o modelo francês em 1889, com a Proclamação da República pelas elites positivistas e liberais.
Antes, no Império (1822-1889), não havia um centro ideológico: o Poder Moderador de D. Pedro II atuava como centro de equilíbrio vertical, um rei árbitro acima das facções. Era uma mediação hierárquica, não fisiológica.
É com a República Oligárquica (1889-1930) que surge o protótipo brasileiro: o “café com leite” formado por políticos mineiros e paulistas em uma coalizão rural pragmática sem ideologia profunda, priorizando a conquista e manutenção do poder local sobre princípios. Ecoa o bonapartismo napoleônico, mas agravado pelo patrimonialismo português.
Embora se mudem os atores e algum verniz ideológico seja adquirido, esse fisiolismo conciliador nunca desaperou em nossa política. Prosseguiu na era Vargas e, após aproveitar o período ditatorial de 1964-1985, ressurgiu na Nova República como um aparente agrupamento de “terceira via” em torno de uma centro-esquerda liderada pelo PSDB.
A diferença é que a direita, neste período, era tão fraca que o tucanato acabava por ser identificado como se de direita fosse. E nunca foi. A construção da Nova República é incompreensível sem a atuação deste centro fisiológico e conciliador. É quando ele se torna um “centrão”, quem realmente comanda ou permite o comando desde que seja (muito bem) atendido.
A partir da permissão da reeleição, em 1997, o centrão se consolidou como um mecanismo de poder fisiológico. Fernando Henrique Cardoso, em artigo no Estadão em 2020, refletiu sobre o episódio: “Visto hoje, entretanto, imagino que os presidentes não o impossível para ganhar a reeleição é engenhosidade. Eu procurei me conter. Apesar disso, fui acusado de ‘ter comprado’ votos feitos à tese da reeleição no Congresso.” A escolha de ‘procurei-me conter’ — em vez de “me contive” — revela uma sutileza do político. Embora sem comunicação judicial, a imprensa revelou provas de compra de votos, com gravação de deputados confessando coletas.
É só com o escândalo do Mensalão, em 2005, agora sim com reportagem judicial, que se tornou impossível negar a existência de uma estrutura fisiológica para manutenção do poder e da governabilidade. Muito aconteceu através da divulgação de emendas parlamentares que, até 2015, eram totalmente controladas pelo governo e, portanto, amplamente utilizadas como moeda de troca junto a deputados e senadores para aprovação de projetos e medidas no Congresso.
Mas a partir de 2015, com a institucionalização da obrigatoriedade de repasse de boa parte das emendas parlamentares, o eixo de poder se vertulo mais equilibrado entre Executivo e Legislativo. Por consequência, o “centrão” se fortalece mais ainda.
Entretanto, isto coincide com a ascensão de uma direita “anti-direita” que levou Jair Bolsonaro ao poder em 2018, como um “centrão” considerado um vilão. Não durou muito, pois no meio do mandato, em 2020, o tal “centrão” foi admitido no governo para garantir a governabilidade.
Desde então, embora a polarização entre Lula e Bolsonaro tenha dominado o cenário político, é o centro que se decide por qual lado do país, mantendo o seu equilíbrio histórico. Em 2022, pendeu para Lula. E quanto a 2026?
O pragmatismo contra-ataca
Todas as pesquisas desde 2018 capturaram algo crucial: Lula e Bolsonaro não posvenientes apenas uma coleta alta, mas consolidada. Em 2018, Bolsonaro tinha cerca de 44% e Haddad, que herdou a rejeição lulista, cerca de 41%. De lá para cá a exclusão de ambos, Lula e Bolsonaro, só fez aumentar, passou dos 50% na maioria dos institutos.
Isso significa dizer que as eleições foram definidas mais “contra” um deles do que a favor. Tanto que, em 2018, aconteceu algo inédito: os dois ledes que foram ao segundo turno tiveram uma rejeição maior entre os candidatos. O feito se repetiu em 2022 e tem tudo para ser reprisado em 2026.
Qual a porcentagem dos que rejeitam ambos ao mesmo tempo, os participantes “nem-nem” (nem Lula, nem Bolsonaro)? Os institutos de pesquisa e especialistas costumam cruzar três dados para chegar a um número estatístico confidente: além da exclusão, o potencial de votos em outros candidatos e a Valência do governo. Com base nisso, estimamos que 15 a 20% do eleitorado rejeita a polaridade. É uma fatia insuficiente para se eleger uma terceira via, mas decisivamente para definir quem vence entre os polos.
Não quero dizer que essas sejam reuniões do centro, mas certamente opte por uma alternativa ao centro. E dada a duração desta polarização extremada, há também uma fadiga consequente que pode fazer que mesmo parte do dritaia ou de esquerda aceite uma terceira via, como se fosse um voto clamando mais por trégua do que outra coisa.
Outro fato que as pesquisas são consistentes é que o eleitor médio está mais à direita do que à esquerda. Um interessante artigo publicado em 2025 pelo think tank “Mais em Comum”, em parceria com a Quaest, revelou que a maioria dos brasileiros, cerca de 54%, seria descomprometida (27%) e cautelosa (27%). Analisando atentamente suas respostas às questões, fica evidente que a inclinação é muito mais para a direita do que para a esquerda.
Aqui reside uma oportunidade para o pragmatismo centrista: não um fisiologismo amorfo, mas um posicionamento claro à centro-direita com a mesma “convicção” com que, na década de 1990, era de centro-esquerda. Todos os candidatos aos candidatos citados acima são assim. São governadores mais à direita, fortes em seus estados, muito bem aprovados, com foco em obras, segurança e infraestrutura, apostando em um “gerenciamento aprimorado”, não meramente tecnocrata.
Não à toa uma das brigas recentes internacionais na direita por Tarcísio de Freitas ter curtido um comentário na rede social feita por sua esposa disse que o Brasil precisa de um CEO. O que faz um CEO? É o líder máximo de uma empresa, responsável por definir uma visão estratégica, tomar decisões críticas, gerenciar operações e liderar uma equipe para atingir objetivos de longo prazo.
Por que isso gerou tanta celeuma? Porque o comentário certou, voluntariamente ou não, no calcanhar de Aquiles do bolsonarismo: Bolsonaro venceu eleições por ser anti-sistema, mas não foi bem-sucedido em enfrentar este sistema por dentro, tendo cedido da metade em diante, precisando do centrão para governar. E ele não se tornou um “CEO” desta coalizão.
Fora do governo, a gestão das alianças tem sido conflitante, por vezes incoerente, gequipe a limites em que é preciso importar autocraticamente a volda (como no caso do senado ao Carlos Bolsonaro por Santa Catarina e mesmo a indicação de Flávio Bolsonaro à presidência da República). Ou seja, se tem algo que Jair Bolsonaro não é, nem seus filhos, é isso: um CEO.
O centro, por mais pragmático que seja, certamente prefere um CEO a um presidente da República. Daí porque veio costurando, apreendendo da perseguição judicial a Bolsonaro, a unção de algume mais palatável ao centro como candidato para 2026. Com a decisão de Jair por seu filho, aparentemente essa construção não deu certo.
O centro, agora, tem de ecoar se fica a rejeitar a decisão de tecnologia que tem mais votos (e esta seria uma decisão pragmática), ou se arrisca a conquistar os votos necessários para ir ao segundo turno por conta própria (aí sim, absorvendo os votos da direita porque esta não tem uma alternativa).
O dilema e paradoxo em 2026
Se decidir se arriscar a uma candidatura própria em 2026, o centro enfrentará um dilema existencial: para conquistar os 25-30% necessários no primeiro turno e absorver a direita degastada, será necessário se ‘ideologizar’ com uma visão clara à direita.
Mas eis o paradoxo: ao se tornar mais ideológico, o centro deixará de ser “centrão”? Correrá o risco de se transformar em uma direita light, perdendo a flexibilidade e pragmática que o tornará imbatível no equilíbrio de poder? Neste jogo, você conseguirá reinventar a força verdadeiramente centrista e polarizadora que ajudou a alimentá-lo?
Minha aposta é que, riscarando-se ou não, vencendo ou não, prevalecerá, no fim, uma lição histórica: o centro sobreviverá menos por convicções do que pela capacidade de se adaptar às circunstâncias.
Foi Magalhães Pinto, importante político brasileiro no século XX, governador de Minas Gerais entre 1961-1966, que disse: “A política é como nuvem. Você olha e ela está de um jeito. Olha de novo e ela já mudou”. Continua sendo a melhor definição do centro político brasileiro e, entevanto estivo no poder, também da nossa política.
