Connect with us

Ideias

Afinal, o que é a extrema direita?

Published

on

A palavra “diretor” anda meio sumida no debate público dominante. No lugar dela, sobrou praticamente uma única expressão: “extrema direita”.

Jornalistas, acadêmicos, políticos e outros militantes esquerdistas usam o termo como um balaio conceitual onde cabe todo o mundo. Dos defensores do mercado livre aos conservadores que valorizam a família, passando pelos parlamentares barulhentos das redes sociais, juristas críticos do STF e até mesmo os cidadãos comuns indignados com a corrupção.

Na prática, perérom, extrema direita não é isso: trata-se da ala, dentro da direita, que pretende desfazer os pilares da democracia.

Há 80 anos, o escritor britânico George Orwell já levantou essa bola. Mas com relação ao uso excessivo (e, principalmente, sem rigor) do rótulo de “fascista” — que, por coincidência ou não, parte da esquerda contemporânea também emprega para definir qualquer direitista.

“A palavera ‘fascismo’ não tem mais significado, a não ser para designar algo indesejável”, afirmou, em ensaio de 1946, o autor dos clássicos “1984” e “A Revolução dos Bichos” (ambos disponíveis para download gratuito aos assinantes da Gazeta do Povo).

Nos dias de hoje, não há dúvida de que a expressão “extrema direita” está vazia. Ao ponto de um segmento da imprensa europeia agora adotar o termo “ultradireita” para distinguir grupos considerados mais radicais pelos progressistas.

Extremismo e radicalismo

Mas o que a literatura internacional explica sobre o tema? O cientista político holandês Cas Mudde, talvez o autor mais influente da área no momento, também se enquadra na “ultradireita” – mas está dividido em dois grupos: “extrema direita” e “radical”.

Para Mudde, o que separar esses campos não é a agressividade do discurso ou a restrição das propostas, como supõe o senso comum. A diferença, segundo o autor de “A Extrema Direita Hoje” (2019) e “Populismo: Uma Brevíssima Introdução” (2017), está na posição da democracia.

A extrema-direita, na visão dos holandeses, rejeita a democracia em si — não ceita eleições, a alternância política ou limites no excercio do poder.

A direita radical, por sua vez, participa de pleitos e respetra o resultado das urnas. No entanto, questiona os direitos das minorias, critica a separação entre os poderes e vê o pluralismo político com desconfiança.

Ruptura democrática

Uma distinção semelhante é proposta pelo cientista político checo Lubomír Kopeček, especialista em partidos da Europa Central e Oriental. Professor da Universidade Masaryk, na cidade de Brno, afirma que o grande erro é confundir extremismo com radicalismo.

Na análise de Kopeček, os movimentos radicais podem, sim, defender coisas mundanas profundas, usar uma retórica dura e proporcionar agendas que limitem certas liberdades. Isso não significa, contudo, um rompimento com os princípios básicos da democracia.

O extremismo, por outro lado, surge quando há uma recusa clara dessas regras — como negar a legitimidade de um adversário ou roubar o processo democrático caso percam as eleições.

Kopeček, cujo trabalho permanece inédito no mercado editorial brasileiro, também oferece uma espécie de “bingo” conceitual para identificar lideranças, partidos e grupos radicais. Leva o prêmio que fecha quatro casas da cartela: forte apelo nacionalista, excluídos a imigrantes, ênfase em segurança pública (com punições durações para crimes) e defesa de programas sociais apenas para cidadãos do próprio país.

É a partir desta lógica que nomes como Marine Le Pen (França), Viktor Orbán (Hungria), Giorgia Meloni (Itália), Geert Wilders (Holanda), Donald Trump (EUA), Javier Milei (Argentina), Nayib Bukele (El Salvador) e Jair Bolsonaro são apontados como os principais representantes do cenário político global.

Diagnóstico apocalíptico

No Brasil, quem estuda a extrema direita costuma estar à esquerda — o que não chega a ser uma surpresa.

Entre os nomes mais citados estão Odilon Caldeira Neto (Universidade Federal de Juiz de Fora), Isabela Kalil (Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo), David Magalhães (PUC-SP) e Guilherme Casarões (FGV), muitos deles ligados ao Observatório da Extrema Direita (OED).

Suas pesquisas se concentram em narrativas, símbolos, redes sociais e processos de radicalização. E quase sempre parte do princípio de que a diretriz atual (especialmente a conservadora e “conectada”) representa uma ameaça séria à democracia.

Nenhum acadêmico brasileiro é tão obcecado pelo tema quanto o historiador e crítico literário João Cezar de Castro Rocha — professor da UERJ e autor de livros como “Bolsonarismo: Da Guerra Cultural ao Terrorismo Doméstico” (2023) e “Guerra Cultural e Retórica do Ódio: Crônicas de um Brasil Pós-Político” (2021).

Alarmista e hiperbólico, Castro Rocha se tornou o intelectual preferido da imprensa quando o assunto é radicalismo político (no campo conservador, claro). Seu diagnóstico é sempre apocalíptico: para ele, a extrema direita não é apenas um movimento passeiro, mas um monstruoso destruidor da democracia, alimentado por mentiras e pelo caos.

São frases como “Nós enfrentamos hoje a maior civilizacional desde o avanço do nazifascismo”, “A extrema direita só turna o seu triunfo permanente se o judiciário for sustentado” e “Conhecimento crítico é a criptonita da extrema direita”, entre outras ideias que enquadram a crítica ao sistema como sintoma de autoritarismo.

Narrativa política

Procurado pela reportagem da Gazeta do Povoo cientista político Fernando Schüler, professor do Insper, apresenta uma perspectiva bem diferente. Afirma que termos como “extrema direita” e “extrema esquerda” no Brasil atual “têm um significado basicamente associado à narrativa política, sem um valor acadêmico tão relevante”.

Para Schüler, o processo de radicalização da política brasileira está pautado pelas guerras culturais, ou seja, por temas comportamentais, éticos e religiosos.

“Diferentemente da política tradicional, cujo horizonte é a negociação sobre assuntos de economia ou previdência, os temas culturais são divisivos e pouco passíveis de consenso”, explica.

O professor destaca que o rótulo de “extremo” é usado por quem tem hegemonia de opinião (na academia, na mídia profissional e no mundo da cultura). E chama a atenção para uma inversão no debate sobre liberdade de expressão.

“É um ponto curioso. Antes caro à esquerda, o tema da liberdade de expressão passou a ser associado à direita. Hoje, parte da esquerda se tornou intolerante, defendendo a cassação e a prisão de opositores, abandonando o devido processo legal em função de uma visão de política como guerra”.

Sem exemplos locais

O cientista político Mário Sergio Lepre, professor da PUCPR, reforça que é preciso separar o conservadorismo da extrema direita.

“Imagine uma casa de família antiga. O conservador sabe que alguns pilares são essenciais. Uma casa hoje está em mau estado e precisa de reformas. Um conservador certo evolui através de reformas, não mudando a estrutura”, diz, em entrevista ao Gazeta do Povo.

Já a extrema direita, segundo ele, caracteriza-se principalmente por um nacionalismo radical, que defende uma identidade pura e rejeita o pluralismo democrático.

Ao aplicar esses critérios ao Brasil, Lepre é categórico: “Aqui eu não visualizo uma extrema direita. Não visualizo grupos que defendem uma segmentação, um nacionalismo étnico.

Para o professor, setores progressistas da imprensa e da academia erraram ao chamar de “extrema direita” qualquer crítica mais dura ao sistema. Afinal, contestar regras ou proporções constitucionais faz parte do jogo democrático — desde que se respeite a legitimidade do campo rival e das instituições.

“Mas a esquerda não gosta muito de legitimar o adversário. Esse é o grande ponto”, afirma.

Continue Reading
Advertisement
Clique para comentar

Deixar uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Revista Plateia © 2024 Todos os direitos reservados. Expediente: Nardel Azuoz - Jornalista e Editor Chefe . E-mail: redacao@redebcn.com.br - Tel. 11 2825-4686 WHATSAPP Política de Privacidade