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‘Iracema’ mostra a triste realidade de um Brasil que não mudou, afirma diretor

Cinquenta anos após a sua produção, Iracema – Uma Transa Amazônica, de Jorge Bodanzky, retorna aos cinemas a partir de 24 de julho e continua como um dos filmes mais provocativos e relevantes do cinema brasileiro.
Em uma conversa franca com a Rolling Stone Brasil, Bodanzky e a atriz Edna de Cássia, que vive a personagem Iracema, relembram os bastidores da produção, falam sobre as polêmicas envolvendo as cenas de nudez, os desafios da ditadura militar e a impressionante atualidade do filme. Confira a seguir:
Polêmica sobre nudez
Ao longo dos anos, Iracema – Uma Transa Amazônica foi alvo de discussões sobre a representação do corpo feminino, especialmente por ter como protagonista uma não-atriz, então com 15 anos. Questionado sobre as críticas às cenas de nudez de Edna, Bodanzky é direto:
Na época não houve críticas. O filme estava censurado no Brasil. Na Europa e em Cannes isso não causou estranheza. A nudez ali não é gratuita, é orgânica. Ela faz parte da cena, do contexto. Nunca vi alguém reagindo negativamente durante uma exibição.”
Edna confirma: “Como a gente estava só entre mulheres, era como se estivéssemos se trocando para sair. Sem problema nenhum.” Para ela, o ambiente era respeitoso: “A Conceição [Senna], da equipe, ficou responsável por mim. Minha mãe me entregou a ela como se fosse uma segunda mãe. Nunca houve qualquer tipo de desrespeito comigo.”
A busca pela Iracema
Bodanzky revela que a escolha de Edna para o papel veio após uma longa busca. A personagem precisava ser muito jovem e ter feições amazônicas. “Não dava pra colocar uma menina com cara de sulista no meio da Amazônia”, explica. A seleção final aconteceu por acaso, em um programa de auditório em Belém: “Vi aqueles olhinhos pretos no fundo e falei: ‘Essa é a Iracema’”.
Edna, então uma adolescente, nunca tinha ido ao cinema. “De repente fui chamada para fazer um filme. Conversei com minha mãe e meu irmão, que era meu responsável. Tudo foi feito dentro da lei. Depois disso, fomos para a luta”, lembra.
Cinema sob vigilância
Rodado durante a ditadura militar, Iracema enfrentou riscos constantes. “A Amazônia era área de segurança nacional. Entramos lá com uma certa ingenuidade. Era uma Kombi com poucas pessoas, sempre parados por barreiras militares. Havia risco de perder todo o equipamento”, conta Bodanzky. “Mas tínhamos experiência com ambientes hostis. Gravamos rápido e saímos antes que percebessem.”
Além disso, o filme foi majoritariamente improvisado. Embora houvesse um roteiro — exigência para aprovação junto ao programa de TV que financiava o projeto —, ele era apenas uma bússola. “A gente provocava a situação e deixava rolar. Com não-atores, repetir uma cena estraga tudo.”
Prisão em plena filmagem
Uma das passagens mais marcantes da entrevista foi a lembrança de quando Edna foi detida durante as filmagens em Belém. Ao participar de uma cena no Círio de Nazaré, ela foi interceptada pelo juizado de menores, mesmo com toda a documentação regularizada. “Me prenderam, mesmo com tudo legalizado. Só fui liberada depois que mostramos os documentos”, lembra.
Afeto e autenticidade
Apesar das tensões, as filmagens foram marcadas por cumplicidade e cuidado. Edna lembra com bom humor sua convivência com o ator Paulo César Pereio, protagonista do filme ao lado dela.
Eu xingava ele com gosto! Mas era o meu jeito mesmo, já fumava, tomava cerveja. Era uma moleca doida.Sempre falo que entrei e saí do filme como uma latinha de refrigerante… lacrada!”
Processo de montagem e restauração
O filme foi montado na Alemanha por Bodanzky com uma editora que não falava português, mas possuía uma sensibilidade ímpar. “Ela montava só ouvindo o tom das vozes, o ritmo. E acertou”, diz Bodanzky.
A trilha sonora também foi improvisada: discos brasileiros foram levados na mala, e músicas populares foram sobrepostas às cenas já gravadas. “A música que aparece nas cenas não é a que estava tocando de fato — foi colocada depois. Mas parece que nasceu junto da imagem.”
Graças a um minucioso processo de restauração liderado por Alice Andrade — com materiais encontrados na Alemanha —, o filme voltou às telas com aparência renovada. “Parece que foi rodado hoje”, afirma o diretor.
Edna não escondeu a emoção ao ver Iracema restaurado pela primeira vez. “Parece que foi feito hoje, com os equipamentos modernos de hoje. Achei muito bom mesmo”, diz, surpresa com a qualidade da nova versão.
Bodanzky detalha o processo: a restauração partiu dos negativos originais preservados na Alemanha, país onde o filme foi montado. Segundo ele, o cuidado técnico resgatou a força visual da obra e devolveu ao público um filme “como se estivesse sendo lançado agora”.
Pereio não sabia dirigir caminhão
Paulo César Pereio fazia o papel de um caminhoneiro, mas revelou ao diretor, já durante as filmagens, que não sabia dirigir. “Eu vi ele parado e falei: ‘Pereio, toca o caminhão!’ e ele: ‘Tenho que te contar uma coisa. Eu não sei guiar.’”
A solução foi usar o verdadeiro dono do caminhão para todas as cenas em movimento. “Ele ficou só nas cenas paradas. Me enganou direitinho. Ele me falou: ‘Se eu tivesse contado, você não me contrataria’”, relembra Bodanzky, rindo.
Curtas derivados
Bodanzky aproveitou para falar de dois curtas complementares. Um deles, Era Uma Vez Iracema (2005), funciona como um making of com bastidores e depoimentos da equipe. O outro, Ainda Uma Vez Iracema (2014), apresenta as reações de prostitutas de Belém ao verem o filme. “É o ponto de vista delas: como elas enxergaram essa história, o que mudou, o que permanece igual. Foi um retorno muito poderoso”, explicou o diretor.
No curta Era Uma Vez Iracema, Edna aparece dizendo que não gostava de ser identificada como indígena. Ao ser questionada sobre isso hoje, ela revela uma mudança de perspectiva: “Hoje em dia, já passou o tempo. Amadureci. Fui entendendo mais as coisas. Hoje está tudo de boa.” No mesmo curta, Pereio menciona que a equipe alemã teria sido “xenófoba”. Bodanzky refuta: “Ele inventou isso na hora.”
Um sucesso acidental (e improvável)
O diretor confessa que jamais esperava que o filme se tornasse um marco. “Foi feito para um canal de TV experimental na Alemanha. Tipo um Globo Repórter, nada de cinema”, contou. O que mudou tudo foi uma nevasca que impediu a exibição de uma partida de futebol lá na Alemanha, e Iracema foi exibido no lugar.
A audiência inesperada chamou atenção da crítica europeia, e logo o filme estava nas mãos de Jean Rouch, que o indicou para o Festival de Cannes. A partir dali, a trajetória do filme mudou completamente.
A vida depois do filme
Mesmo tendo protagonizado um dos filmes mais emblemáticos do cinema brasileiro, Edna afirma que preferiu seguir uma vida longe dos holofotes. “Quero ficar do jeito que eu vivo mesmo. Não quero ninguém atrás de mim me chamando para isso ou para aquilo.” Hoje em dia, ela retorna apenas por respeito ao compromisso com Iracema. “Como já assumi aquele compromisso lá atrás, vou ter que seguir. Até quando? Não sei.”
Um Brasil que não mudou
Cinquenta anos depois, Iracema permanece assustadoramente atual. “Todos os problemas que o filme mostra continuam: trabalho escravo, prostituição, queimadas, grilagem, violência contra as mulheres e contra os posseiros. Tudo está lá, talvez até pior. Essa é a triste realidade desse filme”, diz Bodanzky.
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