Música
O ‘erro’ de estúdio que originou o som dos anos 1980

Imagine que você está sentado à beira-mar, olhando para o horizonte, vendo as ondas quebrarem naturalmente, escutando o som de seu completo ciclo, desde o primeiro impacto da água até a efervescência da espuma borbulhando na areia: TCHUAAAAaaaaaaaa… tchhh…
Com toda licença poética à associação brasileira dos defensores do uso correto de onomatopeias, seguiremos com o exercício de imaginação sonora (por mais paradoxal que possa parecer essa ação).
Pois bem, agora imagine que um muro se estenda no mesmo local onde antes era só a praia, o mar e a areia. A onda, agora, ao invés de quebrar na areia e ter o seu ciclo completo, se choca com a parede e tem o seu ciclo natural de reverberação interrompido: TCHUAa. Um som curto e seco, apesar de ser feito de água.
Antes que você pense que a Rolling Stone Brasil está flertando com a cultura do wellness para novas publicações, explico: isso aqui não é uma meditação guiada, mas sim sobre música, mais especificamente um assunto que poderia afugentar leitores desavisados: engenharia musical. Guarde o exercício descrito acima, porque ele será muito útil para compreendermos o assunto de hoje: o som de bateria que marcou os anos 1980 (e que voltou!).
Hoje vamos conhecer sobre o gated reverb, um som originado a partir de um acidente de estúdio, mas que soou tão bem que foi impossível descartá-lo e hoje ele habita nosso imaginário.
Qualquer telefone hoje em dia não só é capaz de gravar um som, mas também manipulá-lo. Num simples apertar de um botão, obtém-se uma voz distorcida, uma voz grave, um som que parece que estamos falando dentro de uma catedral, um corredor, etc. Mas, em 1979, não era bem assim.
Se você quisesse ouvir sua voz gravada com um som de catedral, não tinha outra saída: você tinha que ir até a catedral e levar caixas e mais caixas de equipamento para gravar lá mesmo. Essa era a única forma de obter o som dessa reverberação sonora ou, como importamos do inglês para o jargão da produção musical, reverb.
Estúdios e mais estúdios se diferenciavam (e ainda hoje se diferenciam) por suas salas com seus pés direitos altos ou baixos, pelo material de suas paredes — e tudo isso faz a diferença no momento da gravação. Estúdios famosos, inclusive, foram construídos a partir de lugares que já ofereciam um som de “sala” interessante antes mesmo de ser um estúdio. O icônico Electric Lady, em Nova York, estúdio de Jimi Hendrix, responsável por gravações de artistas como Stevie Wonder, Led Zeppelin, Rolling Stones, Taylor Swift, D’Angelo e Frank Ocean, além dos discos do próprio; antes mesmo de ser estúdio, era uma casa de shows. O Van Gelder Studio, dos mais famosos álbuns de jazz da história, era antes uma igreja. Esses dois exemplos mostram que esse som natural da construção, ao qual se chamou “sala”, fazia toda a diferença.
A virada de bateria mais famosa dos anos 1980, presente na música “In The Air Tonight“, de Phil Collins, foi gravada em um estúdio com paredes de pedra que simulavam um castelo! Mas não são os ares de fidalguia de sua arquitetura que a perpetuaram, mas um novo som que começava a dar as caras para o mundo, graças ao sucesso estrondoso do single, que ocupou as paradas de sucesso no ano de seu lançamento, 1981.
E o que há de tão especial nessa gravação? O som da bateria. Em “In The Air Tonight”, ouvia-se em todo o mundo uma bateria que não mais soava “natural” com a reverberação da própria sala (o som do mar quebrando livremente, lembra?), mas agora soava manipulado, controlado (o som do mar quebrando contra a parede). Traduzindo para o universo onomatopaico, a bateria que soava antes como TAAAAaaaaahhhhhhh, passou a soar mais como TAaaah e isso iria mudar a sonoridade das gravações para sempre.
Contudo, essa gravação só foi possível porque, antes de “In The Air Tonight”, Phil Collins, o produtor Lillywhite e o engenheiro de gravação Hugh Padgham entraram em estúdio para gravar a faixa “Intruder” com Peter Gabriel, seu companheiro na banda Genesis.
O console usado para gravar na época, uma mesa SSL 400 B, vinha com uma nova modalidade, um canal para se ouvir através do aquário (não, as metáforas marinhas não voltaram), aquela famosa janela de vidro que separa a técnica (onde fica a mesa de som) da sala de gravação (onde fica o microfone para gravar os instrumentos). Para poder ouvir o que a pessoa está falando, basta apertar um botão chamado talkback e falar no microfone que está na mesa: “take bom, vamos para o próximo”, “vai entrar a bateria, 1, 2, 3, 4”.
Só que, para que quem está gravando ouça bem e o som que sai das caixas da técnica não retorne para o fone do baterista, criando aquele famoso efeito de delay (“sanduíche, iche, iche”), esse microfone precisa ter o seu som comprimido. É como uma porta que abre e fecha, deixando passar apenas os sons falados diretamente nele e bloqueando o ambiente ao redor. Essa porta ou portão, ou passagem em inglês, a gente chama de Gate. OK, mas o que o portão e o gate tem a ver com o som dos anos 1980 e como ele representa a época mais do que cabelos com o penteado permanente?
No momento em que Phil Collins gravava a faixa “Intruder”, a equipe técnica deixou acidentalmente o canal do talkback aberto, captando o som de bateria que o pessoal da técnica ouvia, porém, processado, comprimido pela mesa, com esse gate. Então a bateria que deveria soar “TUM TUM DA TUM, TUM DA”, passou a soar “TCH TCH GUÉH TCH, TCH GUÉH”. E esse “H” é bem o som que a gente acrescenta à vogal, para que soa mais arejada mesmo a onomatopeia. O som agradou tanto que eles resolveram de fato assumir esse como o som de bateria oficial da faixa.
Para não ficarmos só na imaginação, separei aqui parte do material usado em minhas pesquisas: trata-se do trecho de um depoimento, onde o próprio Phil Collins explica tudo isso com uma bateria de boca ou beatbox, para mostrar a diferença dos sons. Vale conferir!
A história do gated reverb nos ajuda a identificar aquilo que acredito que seja o elixir da vida do pop, sua pedra fundamental: a experimentação. Porém, não basta só experimentar, é preciso bancar essa escolha, não subestimando o ouvinte, como o fizeram os artistas Peter Gabriel, Phil Collins, Ryuichi Sakamoto, entre outros pioneiros dessa técnica, dessa sonoridade que em pouco tempo inundaria — em todos os sentidos da metáfora — as rádios e álbuns pelos sete mares afora.
*preparei uma playlist aqui para você que ficou curioso e quer entrar nessa viagem no tempo através das ondas do gated reverb, boa viagem!
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