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Música

Metallica conquista e destrói os Hamptons no menor show em 10 anos

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Olha, não é como se o Metallica tivesse qualquer semelhança com aqueles adoráveis encrenqueiros de 20 e poucos anos que aterrorizavam a Bay Area e além. Hoje, todos estão na casa dos sessenta, mais calmos, mais gentis e, presumivelmente, absurdamente ricos — deuses do rock que você facilmente imaginaria como os vizinhos excêntricos e deslocados em um enclave ridiculamente rico como os Hamptons. A Wikipédia até tenta disfarçar, descrevendo os cerca de 80 km da região como “um famoso resort à beira-mar e uma das colônias de verão históricas do nordeste dos Estados Unidos”. Tecnicamente, isso está certo — do mesmo jeito que dizer que LeBron James é um “jogador popular de basquete bom em marcar pontos” está. Mas os sinais de ostentação encontrados em várias áreas daqui — do tipo “sai da frente, salada de lagosta de 100 dólares” para “aqui nos Hamptons, esses melões custam 400 dólares” — chegam a um nível de paródia que nem Christopher Guest conseguiria imaginar.

Por isso, quando a banda sobe ao palco de uma tenda gigante atrás do Stephen Talkhouse, em Amagansett, na noite de quinta, 28, é impossível não imaginar um universo paralelo no qual os pioneiros do thrash — que um dia chutaram portas de hotéis — agora passam os verões por aqui, ao lado de moradores famosos como Billy Joel, Jay-Z e Paul McCartney (este último, inclusive, curtindo o show na lateral do palco). Nesse mundo alternativo, dá para imaginar o Lars degustando um Chardonnay da Wolffer Estate no Hampton Classic Horse Show. O Robert, alguns metros dali, tomando algo chamado “Heavy Metal Detox Smoothie” em um restaurante natureba local (com pó de suco de grama de cevada, alga atlântica orgânica e spirulina — os mesmos “combustíveis”, presumo, que alimentaram bandas como Exodus e Venom). O Kirk, folheando a revista Modern Luxury Hamptons a caminho da loja de roupas das gêmeas Olsen. E o James, atravessando a rua até a charmosa Amagansett Square, comprando ghee de leite de cabra (US$ 19,95 o pote), mel de acácia com trufas brancas orgânicas (US$ 18,95 o pote) e, seja lá o que for, um tal de “mushroom mocha milk” (US$ 34,95 o pacote) no mercado local. No quintal deles, por assim dizer, está o palco improvisado para 500 pessoas — o menor show que a banda fez em quase uma década.

Para encontrar um show tão pequeno quanto esse, seria preciso voltar a 2016 ou, literalmente, à Antártida. Eles vieram comemorar o Maximum Metallica, um novo canal de música 24 horas dedicado à banda, que estreia nesta sexta-feira na SiriusXM. (A empresa já fez eventos parecidos aqui com Coldplay, Dave Matthews, Ed Sheeran e Mumford & Sons. Todos, claramente, com a mesma energia “Heavy Metal Detox Smoothie”.) “O local deste show não é o típico espaço de show do Metallica”, avisa o site oficial da banda — e não é exagero.

À minha frente, fãs hardcore que viajam pelo mundo para ver o maior número possível de apresentações se aglomeram na grade. À esquerda, Howard e Beth Ostrosky Stern cumprimentam Michael J. Fox, enquanto o baterista do Red Hot Chili Peppers, Chad Smith, e o lutador Chris Jericho circulam por perto. (Colin Jost, Sylvester Stallone e Andy Cohen também estão por ali, cada um no seu canto, embora eu prefira imaginar os três trocando suas lembranças favoritas de Cliff ’Em All.)

À direita, a ex-integrante do SNL Heidi Gardner assiste discretamente ao show, enquanto, atrás de mim, três mulheres de vestidos de coquetel — socialites dos Hamptons ou cosplayers de Real Housewives, difícil dizer — passeiam por ali, já que este é “o show da temporada”. Isso sem contar a aparição de Topper Mortimer, ex-marido de uma Housewife de verdade. Mas vamos ao show.

Definitivamente, não é um lugar comum para o Metallica. Mas, ao longo de 95 minutos, a banda equilibra o surrealismo da ocasião tocando os clássicos — nove das 13 músicas do set estão entre as mais executadas da carreira, com “Whiskey in the Jar” sendo o único “lado B” de verdade. E isso não é uma reclamação: os caras pareciam revigorados por tocar num espaço tão íntimo. “Isso lembra os dias de clube, quando ficávamos todos suados e empolgados”, disse James Hetfield, arrancando rugidos da plateia antes de emendar a explosiva “Fuel”. “Bem perto, pessoal. Todo mundo se divertindo. Super alto. Todo mundo se sentindo seguro e como se fizesse parte disso.”

“Na nossa época, a gente não conseguiu ver eles em shows de clube”, contou à Rolling Stone o superfã Austin Manning, antes do show. Ao lado de dezenas de fãs que chegaram às seis da manhã para garantir um bom lugar, ele comentou: “A gente não viu eles com o [baixista] Cliff [Burton, que morreu em 1986]. Nossa experiência sempre foi festival, arena, estádio. Isso aqui é o mais perto que vou chegar de um show old school.” Manning, que já foi a mais de 80 apresentações e até aparece em um documentário aprovado pela própria banda, chegou na cidade na quarta à noite — e, por sorte, esbarrou com Hetfield em um restaurante local. Segundo ele, o vocalista comentou, rindo, sobre a situação surreal: “É bom ver um rosto conhecido por aqui.”

No palco, porém, Hetfield deixou a música falar mais alto, com exceção de uma divertida provocação antes de “For Whom the Bell Tolls” — “Hoje vai ser alto. Os vizinhos vão saber quem tá aqui” — e uma introdução engraçada antes de “Sad But True”: “Acho que vocês não vão gostar muito da próxima música, mas a gente vai tocar mesmo assim. Ela é boa. Um pouco pesada, mas boa.”

O guitarrista Kirk Hammett e o baixista Robert Trujillo fizeram seu tradicional “doodle” da noite, desta vez dedicando-o a “Crazy Train”, do Ozzy Osbourne — um dos momentos mais aplaudidos do show. E os últimos quatro hinos — “Seek and Destroy”, “One”, “Master of Puppets” e “Enter Sandman” — esmagaram a plateia com a mesma intensidade de quando foram lançados décadas atrás. (Aliás, para o fã adolescente perto de mim que ligou para a mãe só para ela ouvir “Enter Sandman”: vocês dois são incríveis.)

Embora o setlist possa ter sido pensado para um público mais casual, os superfãs saíram felizes. Camila Guerrero Diaz é conhecida entre os devotos da banda como uma das fãs mais dedicadas do Metallica, tendo ido a cerca de 180 shows, ostentando várias tatuagens da banda e recebendo cumprimentos pessoais de Lars na maioria das apresentações. Ela trabalha em um acampamento de mineração no sul da Austrália, em “um lugar remoto ao qual só é possível chegar de avião”. Quando a equipe da banda a convidou para o show há três semanas, a decisão foi fácil. Ela “voltou para a civilização” e pegou mais três voos — de Adelaide para Auckland, de Auckland para Houston e de Houston para Nova York — para estar presente. “As últimas 24 horas da minha vida foram passadas no ar”, contou. Na sexta, ela faria tudo de novo para voltar para casa. (Aliás, essa nem de longe foi a maior distância que ela percorreu para ver a banda. Esse título vai para as 63 horas que passou em um barco para ser uma das poucas sortudas a assistir ao Metallica tocar na Antártida, em 2013. “O cheiro que saía do ralo era horrível, porque todo mundo estava passando mal no barco”, ela lembra. “Mas valeu a pena.”)

E para onde a banda vai a partir daqui? Circulam rumores sobre o interesse do grupo em fazer uma residência no Las Vegas Sphere, mas ainda não está claro se isso tem fundamento ou se é mais um desejo dos fãs. Por enquanto, no entanto, o improvável casamento entre os pioneiros do thrash e a elite abastada dos Hamptons aconteceu de forma perfeita. E talvez, só talvez, amanhã um roqueiro de bigode em forma de ferradura, olhar endurecido e voz grave saia discretamente de um mercado local carregando seu mushroom mocha milk para casa.

Abaixo, veja o setlist do Metallica no Stephen Talkhouse:

1. “Creeping Death”
2. “For Whom the Bell Tolls”
3. “Wherever I May Roam”
4. “Kirk and Rob Doodle” (Ozzy Osbourne’s “Crazy Train”)
5. “Fuel”
6. “Fade to Black”
7. “Sad but True”
8. “The Unforgiven”
9. “Whiskey in the Jar”
10. “Nothing Else Matters”
11. “Seek & Destroy”
12. “One”
13. “Master of Puppets”
14. “Enter Sandman”

+++LEIA MAIS: Após ‘Stranger Things’, a novidade que pode fazer clássico do Metallica ressurgir

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