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Música

Hayley Williams transforma luto em força e entrega uma obra-prima solo

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Hayley Williams sempre foi ousada — desde os cabelos tingidos em cores vibrantes até a postura destemida como vocalista do Paramore. E, quando o assunto é música, essa coragem se mantém. Ao longo da discografia da banda e de seus dois primeiros álbuns solo — Petals for Armor (2020) e Flowers for Vases / Descansos (2021) —, a cantora sempre se entregou por completo, soltando a voz e expondo letras brutalmente honestas. Mas nunca Hayley soou tão corajosa quanto em seu terceiro álbum, Ego Death at a Bachelorette Party.

“Eu vou ser a maior estrela desse maldito karaokê”, declara na faixa-título, de atmosfera sombria. O refrão repete um único verso diversas vezes — “só dá pra subir daqui” — enquanto Williams abandona o sonho de alcançar a lua e se contenta com uma versão mais modesta da fama. Ironicamente, uma música sobre “morte do ego” acaba se tornando um dos pontos altos do trabalho solo mais forte da artista até agora. Em Ego Death at a Bachelorette Party, Hayley vai muito além das estrelas — e sabe disso.

O álbum — que inclui a faixa-título e outras 16 músicas — foi lançado de surpresa no início de agosto, depois que Hayley disponibilizou a coleção no próprio site por meio de um web player retrô. Apesar de ter duração de um LP completo, o projeto não foi inicialmente promovido como um álbum (mesmo que, claramente, fosse). Mas agora, com um título devidamente longo e emo, além de uma tracklist oficial, Ego Death finalmente se apresenta como uma obra coesa.

Definir a ordem das faixas foi parte essencial do processo. Logo após Hayley subir os 17 singles para as plataformas de streaming, dias depois do web player, fãs começaram a criar suas próprias playlists com sequências personalizadas. Um fã mais dedicado — um verdadeiro Haleyhead — chegou a compilar todas essas tracklists alternativas em um site. A experiência, assim como o lançamento inicial, remetia ao início dos anos 2000, aos downloads no Limewire e à dedicação envolvida na criação de mixtapes em CDs e fitas cassete. Segundo Hayley, a ideia era transferir parte da “responsabilidade criativa” para os fãs e se inspirar na forma como eles receberiam a música. Mas, ouvindo Ego Death, fica claro que esse lançamento não convencional foi intencional. Cada letra sincera e cada transição entre faixas mostram como Hayley atravessou um processo profundo de perda e luto para emergir com uma versão renovada de si mesma.

Além de organizar o tracklist e batizar oficialmente o disco, Hayley também incluiu uma música inédita: “Parachute”. É um grito catártico, carregado de arrependimento, com seu impacto mais forte no segundo verso: “Você estava no meu casamento… Você podia ter me dito para não fazer isso”, ela berra. Essa ferida emocional se repete ao longo do álbum. A gravação vocal é crua e intensa; Hayley força a voz até o limite, transformando cada palavra em um grito rasgado. É um registro tão visceral que faz o lamento famoso de “All I Wanted”, do Paramore, soar discreto em comparação.

O disco traz várias outras canções sobre amores perdidos, como a etérea “Dream Girl in Shibuya”, inspirada em Encontros e Desencontros (2003), e a divertida “Disappearing Man”, com um toque Weezer. Ainda assim, “Parachute” sintetiza como poucas faixas a dimensão da dor que atravessa o álbum — especialmente por encerrar o LP, logo depois da delicada “I Won’t Quit on You”, momento de esperança em que Hayley promete não desistir de um relacionamento. Em “Parachute”, essa esperança se desfaz. Mesmo assim, músicas como “Whim” e “Love Me Different” revelam uma artista que não tem medo de abrir as grades do peito e expor um coração cheio de amor, mesmo que marcado pela dor.

Apesar do peso emocional, o disco também traz lampejos de otimismo. Entre faixas melancólicas, há pequenas frestas de luz — como se o sol entrasse pelas persianas e Hayley buscasse desesperadamente sentir seu calor outra vez. Essa dualidade fica evidente até na capa: uma foto em preto e branco, fechada no rosto da cantora, com um quadrado amarelo em torno de sua face, mesma estética usada nos singles. Mesmo nas músicas mais tristes, como a meditativa “Glum” ou a ode ao antidepressivo “Mirtzapine”, Hayley contrapõe versos sombrios — “Na esteira do seu sol, nunca me senti tão melancólica” — a batidas vibrantes e guitarras intensas.

Com 17 faixas, Ego Death pode parecer um disco extenso, mas há uma razão para isso: este é o primeiro trabalho que Hayley lança com total controle criativo. Quem poderia culpá-la por querer aproveitar ao máximo? Em 2024, chegou ao fim o polêmico contrato de mais de uma década com a Atlantic Records, e essa liberdade é um divisor de águas. Na faixa “Ice in My OJ”, com pegada trip-hop, ela dispara contra os “filhos da puta burros que deixei ricos”. E, mesmo com a longa duração, nenhuma música soa desnecessária: cada uma carrega um propósito, compondo um mosaico sonoro único. Hayley pinça influências de diferentes épocas e estilos, deixando pequenos tributos ao longo do álbum — como a banda francesa Phoenix em “Love Me Different”, o refrão da irreverente Bloodhound Gang em “Discovery Channel” e até uma piscadela para “Waterfalls”, do TLC, na faixa-título. O resultado é um caleidoscópio musical que reflete o gosto eclético da cantora.

Outro ponto marcante de Ego Death é seu som mais robusto e percussivo em relação aos álbuns anteriores. O produtor Daniel James, que já havia trabalhado em Flowers for Vases, retorna ao lado de Brian Robert Jones e Joey Howard, músicos da turnê do Paramore, e de Jim-E Stack, colaborador de Lorde, que assina a vibrante “True Believer”. Cada faixa é pulsante, seja mergulhando no synth-pop ou no rock alternativo. Se Petals for Armor tinha uma produção minimalista e Flowers explorava dissonâncias mais intimistas, aqui a música respira, explode e soa pronta para grandes palcos.

Se os dois primeiros discos solo foram um teste de águas, Ego Death é um mergulho profundo. Nunca Hayley soou tão confiante, livre e poderosa. Há, sim, um tipo de morte aqui — a despedida de partes antigas de si mesma —, mas, acima de tudo, o álbum soa como um batismo. Hayley Williams renasce dessas 17 faixas com uma clareza inédita, pronta para um novo capítulo, onde as possibilidades são infinitas.

+++LEIA MAIS: A primeira música que fez Hayley Williams (Paramore) chorar

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