Connect with us

Música

”O Último Azul’ olha para o envelhecer de forma generosa’, comenta Gabriel Mascaro

Published

on


Em O Último Azul, novo longa de Gabriel Mascaro, de Boi Neon(2015) e Divino Amor(2019), a atriz Denise Weinberg (Greta) encarna Tereza, uma mulher idosa que se recusa a se submeter às imposições de um destino imposto. Para o diretor, seu filme “olha para o envelhecer de forma generosa“.

Em entrevista exclusiva à Rolling Stone Brasil, diretor e atriz falam sobre a experiência de filmar na Amazônia, o protagonismo de atores locais e a potência de personagens mais velhos, desejantes e complexos e como o cinema pode ser um espaço de transformação e dignidade para todas as idades. Confira a seguir na íntegra:

A Amazônia como cenário de fantasia e descoberta

Natural de Pernambuco, Mascaro contou que sua familiaridade com a Amazônia surgiu ainda na universidade, quando trabalhou com a ONG Vídeo nas Aldeias, formando realizadores indígenas: “Foi um projeto muito lindo, de um antropólogo chamado Van Sankarelli. Viajamos pelo Alto Rio Negro, e eu me familiarizei com essa imagem da Amazônia logo no início da minha carreira”, revelou Mascaro.

O diretor explicou que o filme precisava de um ambiente de fuga e deslocamento, capaz de transmitir isolamento e intensidade emocional: “Só o rio [Amazonas], com seu encanto, mistério e isolamento, poderia permitir uma jornada tão pulsante e singular, onde a personagem Tereza fosse confrontada com uma experiência única”, disse.

Ele destacou ainda o contraste entre a densidade da floresta e a produtividade local, exemplificando com a abertura do filme em uma fábrica de jacarés: “Quase com frio polaco, com a roupa que parece estar na Europa. Queríamos uma Amazônia transfigurada, uma realidade suspensa.”

Além do contexto físico, Mascaro ressaltou o tom lúdico da obra: “O filme começa com uma dança. É quase um jogo, um filme brincalhão, que se permite entrar no gênero do ‘coming of age’, mas aplicado a um corpo que não seja jovem. Foi incrível trabalhar com Denise Weinberg, trazendo energia, protagonismo e orgulho do seu envelhecimento.”

''O Último Azul' olha para o envelhecer de forma generosa', comenta Gabriel Mascaro (Divulgação/Vitrine Filmes)
”O Último Azul’ olha para o envelhecer de forma generosa’, comenta Gabriel Mascaro (Divulgação/Vitrine Filmes)

Um novo olhar sobre corpos mais velhos no cinema

Gabriel Mascaro ressaltou a raridade de protagonistas idosos que ainda se transformam e desejam viver intensamente: “Durante quase dez anos de elaboração do roteiro, pesquisamos referências e encontramos quase nada. A maior parte dos filmes com protagonistas nessa idade lida com finitude ou nostalgia. Quase nenhum mostra um corpo pulsante, desejante, no presente. Por que não olhar para um corpo idoso que ainda pode se transformar, assim como fazemos com jovens no coming of age?”

Ele ressalta como o filme resgata a complexidade e o desejo do personagem idoso, rompendo com a visão tradicional do cinema: “O filme olha para o personagem, para o corpo, para o envelhecer, de uma forma generosa. Mostra que mais do que voar, existe o direito de escolher. Tereza recebe a dignidade que merece. Escrevemos um filme para um corpo idoso, complexo, desejante, ativo.

O diretor afirma ainda que O Último Azul traz um novo olhar para o idoso dentro do cinema: “É uma reparação histórica. O cinema negligencia esse olhar; atores e atrizes idosos costumam ser domesticados, colocados em papéis seguros e previsíveis. Aqui, queríamos justamente o contrário: lançar esse corpo em uma jornada intensa, de transformação e liberdade.

''O Último Azul' olha para o envelhecer de forma generosa', comenta Gabriel Mascaro (Divulgação/Vitrine Filmes)
”O Último Azul’ olha para o envelhecer de forma generosa’, comenta Gabriel Mascaro (Divulgação/Vitrine Filmes)

Os desafios da produção

Gabriel Mascaro detalhou os desafios de se filmar na Amazônia e como a produção conseguiu transformar essas dificuldades em oportunidades criativas. Para ele, a dinâmica do rio e a logística aquática foram os principais obstáculos:

“O desafio natural é a dinâmica do rio, a entender como filmar a ideia do boat movie, a situação da estrutura, dos barcos de apoio, a logística aquática. Foi muito bonito, porque a gente fez um filme muito diferente do modo de operando que é feito no Brasil.”

Mascaro ressaltou a importância de ter contado com uma equipe totalmente amazônica, ao invés de trazer profissionais de outros estados: “A gente fez um filme com a produção toda amazônica. É muito interessante e a gente se enriqueceu muito de poder ter tido essa troca com as particularidades da produção amazônica, de como filmar na Amazônia.”

Denise reforçou a relevância do projeto para revelar novos talentos: “As participações todas que acontecem lá são os atores da cena do Teatro de Manaus, o que é muito lindo também, porque acho que nunca antes teve um filme que conseguiu revelar e mostrar tanto talento.”

''O Último Azul' olha para o envelhecer de forma generosa', comenta Gabriel Mascaro (Divulgação/Vitrine Filmes)
”O Último Azul’ olha para o envelhecer de forma generosa’, comenta Gabriel Mascaro (Divulgação/Vitrine Filmes)

Os símbolos da Amazônia

Gabriel explicou como buscou inspiração para construir o universo do filme, especialmente o caracol da baba azul. Segundo ele, o filme faz uma leitura da Amazônia, incorporando elementos mágicos e simbólicos presentes na floresta:

A gente tem várias entidades sagradas ali na floresta. Você tem os cipós, que têm elemento mágico. Tem os sapos, que também criam alucinações, animais e experiências que são muito próprias em diversas culturas etnográficas na Amazônia.

Para não se apropriar de símbolos sagrados de algumas culturas, a equipe optou por criar um elemento singular para o filme: “O que a gente tentou fazer foi criar um animal novo, singular, o caracol da baba azul, até para não utilizar elementos que são para algumas culturas coisas sagradas. A gente preferiu se inspirar no que acontece na realidade, mas criar nosso próprio elemento da Tereza, o elemento do filme, no mundo do filme.

Valorização do cinema regional

Gabriel destacou o encontro entre o cinema pernambucano e a produção local da Amazônia como um momento de troca cultural e artística: “O cinema do Norte e o teatro do Norte estavam precisando desse encontro de uma cinematografia descentralizada, trazendo a experiência de pessoas como a Denise e Rodrigo Santoro. Foi um encontro muito bonito.”

Denise complementa, reforçando o impacto do projeto sobre atores locais: “Acho que vai ser uma comoção muito grande para eles, que viram filmar, sofreram tudo, mas toda a experiência. Isso vai dar uma confirmação de que é possível. É uma esperança de que é possível.” Ela ainda ressalta a importância de sair do eixo Rio-São Paulo e explorar o talento do Norte e Nordeste:

O cinema no Nordeste dá um banho no cinema do Sudeste. Isso é muito legal, essa miscigenação dentro do Brasil. Tem atores lá que são maravilhosos. Isso é muito importante para a nossa profissão, para o ser humano do Norte que quer ser ator ou atriz.”

Para Gabriel Mascaro, essa visão vem de uma política de descentralização do cinema brasileiro, que começou há cerca de 15 anos: “Hoje a gente está vendo o fruto disso. O desafio é garantir a diversidade do Brasil. Quando celebramos o cinema pernambucano, na verdade, celebramos a diversidade. É bom o Brasil poder ser confrontado com diferentes experiências de Brasil.”

Ele explica que esse cinema regional não é uma disputa com o Sudeste, mas sim uma coexistência de experiências culturais: “O cinema pernambucano é politicamente um olhar descentralizado, mas é filme brasileiro, filmado na Amazônia, com elenco nacional de peso. Mistura uma equipe internacional e busca intercâmbio cultural.”

''O Último Azul' olha para o envelhecer de forma generosa', comenta Gabriel Mascaro (Divulgação/Vitrine Filmes)
”O Último Azul’ olha para o envelhecer de forma generosa’, comenta Gabriel Mascaro (Divulgação/Vitrine Filmes)

Filmar com intensidade e urgência

Gabriel comenta que a intensidade de suas produções vem da sensação de que cada filme pode ser o último: “Quando eu filmo, eu filmo com raiva. Não posso errar. Filmo sempre como se fosse o último filme. É tudo ou nada. Filmar com desespero talvez esteja impregnado no nosso ato de bravura final.”

Ele também destaca a importância da cultura e da referência regional: “No Nordeste, as pessoas que trabalham no cinema são extremamente bem informadas e cultas. As referências são completamente diferentes. Isso dá um upgrade no filme.”

Recepção internacional e temas universais

Denise Weinberg comenta sobre a aceitação do filme em festivais internacionais, como em Berlim:
“Ficamos surpresos com a aceitação. O filme é muito humano e trata de um tema global: o idoso e como a sociedade lida com ele. Isso toca todo lugar do mundo, da China ao Japão.”

Ela ressalta o impacto do cenário amazônico e a inventividade da narrativa: “Todo mundo tem curiosidade pela Amazônia, mas apresentamos uma Amazônia diferenciada. Há inventividade na criação, no estado de mundo alterado, numa colônia de idosos. O filme mistura distopia com utopia, e isso toca profundamente o público.”

Para Denise, o filme surpreende ao inverter expectativas sobre envelhecimento: “As pessoas entram achando que é um filme sobre apocalipse e saem apaixonadas, com desejo de viver e envelhecer. O filme acredita na pulsão da vida, na utopia, mesmo sendo distópico.”

Um sopro de resistência

Um sopro de resistência

Com a estreia do filme nos cinemas a partir desta quinta-feira, dia 28 de agosto, Denise explica o que espera que o público sinta ao acompanhar Tereza:

Eu espero que os velhos se levantem (risos). Mas essa indignação da Tereza não é só para os mais velhos; serve para qualquer idade. Ela não aceita a obediência passiva que tanto nos marca. No Brasil, muitas vezes seguimos no ‘tudo bem, é assim mesmo’. Isso nos trouxe até aqui, mas não é saudável. A Tereza surge como um sopro de resistência, dizendo: ‘não vou, não quero ir’. Ela levanta, desafia, questiona, e inspira outros a fazerem o mesmo.”

A atriz ainda conecta a trajetória de Tereza com questões históricas e culturais: “A obediência que muitas vezes carregamos, herdada de uma história colonizada, nos impede de exercer nossa própria identidade. E aí a história da Tereza ganha dimensão política: colocam os idosos em uma colônia, tiram sua liberdade, e nunca mais os devolvem. É um alerta sobre o que a sociedade faz com quem deveria ser respeitado e ouvido. O Brasil se acostuma a obedecer demais, a aceitar imposições externas, e isso atravessa gerações.

LEIA TAMBÉM:Conheça os 16 filmes brasileiros habilitados a concorrer a uma vaga no Oscar 2026

Qual foi o melhor filme de 2025 até agora? Vote no seu favorito!

  • Anora
  • Conclave
  • Flow
  • O Brutalista
  • Mickey 17
  • Vitória
  • Pecadores
  • Thunderbolts*
  • Homem com H
  • Karatê Kid: Lendas
  • Premonição 6: Laços de Sangue
  • Missão: Impossível – O Acerto Final
  • Como Treinar o Seu Dragão
  • F1: O Filme
  • Superman
  • Quarteto Fantástico: Primeiros Passos
  • Amores Materialistas
  • A Melhor Mãe do Mundo
  • Uma Sexta-Feira Mais Louca Ainda
  • A Hora do Mal
Continue Reading
Advertisement
Clique para comentar

Deixar uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Revista Plateia © 2024 Todos os direitos reservados. Expediente: Nardel Azuoz - Jornalista e Editor Chefe . E-mail: redacao@redebcn.com.br - Tel. 11 2825-4686 WHATSAPP Política de Privacidade