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Música

‘Cazuza era uma lâmpada, com várias mariposas em volta’

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Era 1981. Não havia Barão Vermelho, nem RPM. Cursava jornalismo desde o ano anterior na Escola de Comunicação e Arte da USP. Sempre quis ser músico, mas jornalismo é uma profissão multimidiática: lida-se com tudo, de imagem a som. Além disso, Caetano Veloso fez filosofia, Chico Buarque fez arquitetura… temos que estudar algo, mas não o curso de música — porque, daí, se estuda música clássica, orquestração, regência, coisas assim. Por fim, optei por essa graduação porque enquanto lutava por meu lugar na música, infiltrava-me nas gravadoras e fazia contato com grandes artistas.

Procurei trabalho em veículos de comunicação. Passei por alguns até chegar à revista Som Três. Lá, escreviam ídolos meus como Ana Maria Bahiana, Lulu Santos, Júlio Barroso… e Ezequiel Neves, de quem era muito fã, não apenas por seu texto, como também por ser uma personalidade. Ele mentia, fantasiava coisas que não tinham acontecido. Era o nosso Lester Bangs.

Um dia, cheguei no Ezequiel e falei: “Sou Paulo Ricardo Medeiros, que tem uma página do lado da sua na revista”. Fizemos amizade e logo eu conheci o Cazuza. Eles me chamavam de Paul Richard, por essa coisa do rock internacional. Ficamos amigos, pois ele era muito engraçado.

Cazuza era quatro anos mais velho e tinha uma turma. Ele era uma lâmpada, com várias mariposas em volta. Ele era o epicentro da festa. Morava com os pais em Ipanema — e era lá onde eu ficava quando ia para o Rio. Na beira da praia. Ficávamos naquela loucura diurna, uma psicodelia. No fim da tarde já estavam todos loucos. Continuava a festa na casa do Cazuza. Depois, íamos para algum lugar.

Cazuza era um showman. Uma pessoa culta e doce. Escrevia, atuava, fotografava. Ainda procurava um caminho. Além disso, muito carismático e engraçado, de humor ácido: “Perco o amigo, mas não a piada”. Eu era aquele garoto mais novo da Rolling Stone no filme Quase Famosos, que tinha de ligar para casa e dizer: “Não, mãe, fica tranquila”.

Vi tudo aquilo acontecer: Cazuza crescer, o Barão acontecer. Frejat era da minha idade. Íamos para hotéis e a nossa farra era pedir banana split na conta da gravadora. Foi lindo ver acontecer passo a passo — e testemunhar Cazuza logo sair em carreira solo, com Exagerado. Pé na porta.

Entre 1981 e 1991, foram dez anos. Até o fim, Cazuza foi incrível e corajoso. Em nenhum momento
ficou religioso ou se sentiu culpado, em meio ao preconceito enorme por causa da aids. É reconhecido até hoje, pois incorporava sua obra. Ele era o “exagerado”. As músicas são sobre ele.

Porém, ele era focado. Trabalhava bastante. Não era um porra louca. Várias vezes passei na casa dele à tarde e ele estava lá na máquina de escrever fazendo texto. Ele não compunha rabiscando o guardanapo: era sempre na máquina de escrever. Tinha método e horário. Estava em seu DNA o blues, o rock, a dor de cotovelo, a geração beat… foi natural dele o encontro da interseção entre blues e samba. O mesmo com a transição natural do rock à MPB. Ninguém nem notou. Se você tirar o rock de suas músicas, ficam grandes poesias.

A obra dele está intacta. É atemporal. “O Tempo Não Para” tem uma das letras mais incríveis da história da música popular brasileira. Quando toco alguma de suas músicas ao vivo, sempre gera uma reação tipo: “Uau, parece que foi hoje”.

Cazuza era incomparável. Insuperável. Ninguém chegava perto. Ele era o trapezista do triplo mortal carpado. Ninguém nem brincava de chegar perto do grau de sua loucura, tampouco de sua seriedade com o trabalho. Era muito influente. De alguma forma, as pessoas incorporavam e imitavam algo dele. Tinha uma personalidade magnética. Todos o amavam.

É um caso raro em que a obra é tão interessante quanto a pessoa. Carlos Drummond de Andrade é um dos maiores poetas da nossa literatura, mas era um funcionário público. Somente a obra de Drummond fascina; a vida, não. Com Cazuza, é diferente. Vida e a obra interessam. Deixou um trabalho atemporal que rende filme, peça, musical, livro, exposição. Sempre será assim.

*Paulo Ricardo em depoimento dado à Rolling Stone Brasil


Edição de colecionador da Rolling Stone Brasil: Cazuza – Memórias do Poeta

Este texto está presente na edição de colecionador da Rolling Stone Brasil em homenagem ao Cazuza. A revista, disponível na Loja da Editora Perfil, conta com depoimentos de amigos e pessoas próximas, um passeio pela Exposição Cazuza Exagerado, lista das 20 músicas mais regravadas, a discografia comentada e muito mais!

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