Connect with us

Ideias

As consequências de uma intervenção dos EUA na Venezuela

Published

on

A recente escalada da retórica e das ações dos Estados Unidos no Caribe, oficialmente justificada como uma operação de combate ao narcotráfico, convida a uma análise mais profunda de suas múltiplas dimensões.

Para o observador mais atento da política externa norte-americana e da dinâmica regional, as iniciativas observadas durante a administração Trump — e que guardam ressonância com interesses estratégicos perenes de Washington — revelam um propósito triplo: de segurança nacional e regional, de política doméstica e, talvez mais importante, geopolítico.

Ao se desvendarem essas camadas, torna-se patente que a Venezuela, sob o regime de Nicolás Maduro, converteu-se no epicentro de uma complexa equação de interesses, onde o combate às drogas serve como uma justificativa multifacetada para objetivos estratégicos mais amplos.

Para além dos inúmeros problemas diretamente associados ao narcotráfico, o vácuo de legitimidade em Caracas tem implicações dramáticas: o fluxo contínuo de mais de 9 milhões de refugiados desde 2013, desestabilizando fronteiras e recursos em países como Brasil, Colômbia e (indiretamente) Peru; o fortalecimento de grupos armados paralelos, como dissidências das FARC e milícias bolivarianas; e a fragmentação territorial de fato, com áreas controladas por interesses privados ou criminosos, minando qualquer mediação diplomática tradicional. A resiliência do regime, apesar das sanções, sugere a profundidade de sua criminalização e a dificuldade inerente a abordagens não-coercitivas.

A Venezuela como vetor da insegurança transnacional

Desde meados da década de 2010, sucessivos governos americanos vêm tentando construir um consenso doméstico em torno da percepção de que figuras-chave do regime chavista transformaram o Estado venezuelano em uma plataforma logística do narcotráfico e que isso representa uma grave ameaça não apenas para a segurança nacional dos Estados Unidos, mas também para a segurança hemisférica, como um todo. 

A capilaridade dessas organizações criminosas, combinada com sua capacidade de conexão transnacional, de desestabilização institucional e de infiltração nas estruturas estatais, é vista como altamente corrosiva da ordem regional. Nesse sentido, segundo o Departamento de Justiça dos EUA, o Cartel de Los Soles seria não apenas uma organização marginal infiltrada no Exército, mas uma estrutura formal de poder protegida e dirigida pelo alto escalão do governo venezuelano, tendo Maduro como seu líder máximo.

A partir dessa perspectiva, a Venezuela, de fato, apresenta características alarmantes de um Estado em ruína institucional: eleições fraudadas, repressão sistemática e armada à oposição, vastas extensões de terra sob controle de milícias, grupos paramilitares e/ou criminosos e uma economia cada vez mais dependente de fluxos ilícitos. O ouro sem origem declarada, o comércio informal e ilícito de petróleo, o tráfico de armas e, primordialmente, o narcotráfico, formam a espinha dorsal de sua subsistência. Agências de inteligência ocidentais reiteram que o território venezuelano funciona como um corredor vital para a cocaína colombiana, escoada para o Caribe (Haiti, República Dominicana), América Central, México, EUA e Europa.

Além do tráfico de armas e de drogas, há fortes indícios de lavagem de dinheiro em larga escala — via ouro ilegal, criptomoedas e empresas de fachada — e, ainda mais preocupante, conexões com grupos terroristas como o Hezbollah, com relatos de operações no sul da Venezuela, próximo à fronteira com o Brasil.

A proliferação de armas entre milícias e facções criminosas na região agrava ainda mais um cenário que transforma a Venezuela de um simples “Estado falido” em um Estado “ativamente envolvido na desestabilização da ordem regional”.

Esse cenário transforma a Venezuela em um ponto crítico de insegurança transnacional — não apenas um “Estado falido” ou um “Estado criminalizado”, como alguns analistas preferem, mas um “Estado mafioso” ativamente envolvido no colapso da ordem regional.

Essa categorização confere a Washington uma dupla vantagem: por um lado, oferece uma justificativa legal e moral para ações extraterritoriais, sob o pretexto de combater o crime organizado internacional; por outro, o enquadramento do regime venezuelano como um inimigo direto da segurança dos EUA, eleva-o à mesma categoria de cartéis mexicanos e grupos terroristas, inclusive com a designação formal do Cartel de Los Soles como Organização Terrorista Estrangeira (FTO). 

Dessa forma, a operação militar no Caribe, embora camuflada como “antidrogas”, envia a mensagem inequívoca de que o tempo da tolerância diplomática se esgotou. Seu objetivo é multifacetado: interceptar fluxos ilícitos, criar um cerco psicológico e militar para forçar fissuras internas no regime e sinalizar a criminosos e aliados de Maduro que o cerco está se fechando, em um contexto no qual o colapso político e institucional do grupo delinquente que governa a Venezuela, ou sua “implosão”, configura o desfecho almejado.

Essa diretriz ainda elusiva de Washington pode ser preventiva, simbólica ou preparatória para iniciativas de escopo ainda maior, mas seu conteúdo é cristalino: os EUA não veem a Venezuela como um mero problema diplomático, mas como um risco estratégico direto à sua segurança nacional e à estabilidade regional.  A ameaça representada pelo regime venezuelano é multifacetada, perfazendo suas expressões no âmbito do narcotráfico, de Caracas como fator ativo na desestabilização da América do Sul e a promoção, pelo governo venezuelano, da emigração em massa de delinquentes venezuelanos para os EUA a tríade de desafios que o governo Trump busca resolver. 

A política doméstica: o espelho da projeção de força

Do ponto de vista doméstico, as premissas centrais do Make America Great Again (MAGA) encontram um eco potente na projeção de força no Caribe e na promessa de atuar com força contra o narcotráfico e o colapso institucional latino-americano, temas que ressoam profundamente com as preocupações da base eleitoral conservadora. Sem dúvida, a questão da segurança pública nos EUA, intrinsecamente ligada à violência e aos demais problemas associados às drogas e à imigração ilegal, é uma das principais preocupações da sociedade americana.

Nesse contexto, uma operação militar, mesmo que de escopo limitado, serve para demonstrar a determinação do governo em proteger as fronteiras e combater o crime transnacional. É uma estratégia que, embora tenha um componente real, efetivo e necessário de contenção e segurança externa, também comporta certa calibragem para o consumo doméstico, ao reforçar a imagem de Trump como um líder forte e decisivo. 

Assim, no contexto da securitização e transformação de problemas complexos — como o narcotráfico e a imigração ilegal — em “ameaças” que exigem uma resposta enérgica e unilateral, a exibição de determinação militar e a defesa intransigente contra os riscos percebidos mobilizam e galvanizam a base eleitoral, constituindo uma tática político-eleitoral eficaz.

O elemento geopolítico: o quintal estratégico sob disputa

Não menos importante é o elemento geopolítico dessa equação. Os vínculos do regime de Maduro com potências extrarregionais como Rússia, China e Irã são entendidos por Washington como uma ameaça de longo alcance em seu “quintal estratégico” — o Caribe, a América Central e a América do Sul.

De fato, relatórios de inteligência apontam para uma cooperação substancial entre essas nações, sobretudo nos domínios econômico e militar, há décadas. Materiais de emprego militar russos, como radares, drones, sistemas antiaéreos, aeronaves e mísseis, têm sido regularmente transferidos à Venezuela. O Irã não apenas ampliou significativamente a cooperação energética e cibernética, mas também, conforme relatos de inteligência, opera e treina grupos terroristas em território venezuelano. A China, por sua vez, fornece o oxigênio econômico para a sustentação do regime venezuelano.

Essa situação ativa um reflexo histórico profundamente arraigado na política externa dos EUA: impedir a formação de bases avançadas de potências adversárias perto do seu território. A analogia com a Crise dos Mísseis de Cuba (1962) é inevitável e frequentemente evocada por estrategistas americanos. A diferença é que, ao invés de mísseis nucleares, a ameaça atual se manifesta através de tecnologias de vigilância, influência cibernética, propaganda, erosão de coesão social e exploração de fragilidades estatais.

O narcotráfico, nesse cenário, não é apenas um problema em si, mas um vetor que facilita a penetração e a influência dessas potências, que podem operar em um “espaço cinzento” sem a necessidade de confrontação direta. A Venezuela torna-se, assim, um tabuleiro na grande partida da competição entre grandes potências, onde a “doutrina Monroe” — mesmo que reformulada para o século XXI — continua a moldar a percepção de segurança regional dos EUA.

Implicações para o Brasil?

Para o Brasil, a proximidade geográfica com a Venezuela — compartilhando uma fronteira de mais de 2.000 quilômetros — torna qualquer instabilidade no país vizinho um problema direto para Brasília. Uma operação militar na Venezuela, por parte dos EUA, poderia desencadear uma série de eventos que atingiriam a sociedade, a economia e a política externa brasileira.

A mais imediata seria o agravamento da crise humanitária e migratória. O Brasil, que já recebe centenas de milhares de venezuelanos via Operação Acolhida — mais de 500 mil registrados, segundo dados oficiais, mas com estimativas informais significativamente mais elevadas —, poderia experimentar um afluxo ainda maior de refugiados, sobrecarregando a infraestrutura e os serviços públicos de Roraima e demandando uma mobilização sem precedentes de recursos federais e estaduais. Essa pressão humanitária poderia exacerbar tensões sociais e gerar riscos sanitários e de segurança.

Igualmente, a ausência de uma estratégia nacional robusta de acolhimento e descentralização dos migrantes já acarreta sérios problemas na sua integração em outros centros urbanos brasileiros. Esse cenário tem gerado tensões sociais crescentes, impulsionadas pela percepção local de sobrecarga dos serviços públicos essenciais (saúde, educação, moradia), pela concorrência por postos de trabalho informais e, em alguns casos, pela associação a um aumento da criminalidade, o que impacta diretamente a coesão comunitária.

Paralelamente, haveria uma acentuada desestabilização da fronteira norte e o aumento da criminalidade transnacional. A fronteira porosa se tornaria um corredor ainda mais ativo para o tráfico de armas e drogas, fortalecendo grupos criminosos brasileiros (como PCC e Comando Vermelho) e atraindo milícias e dissidentes das FARC. Atividades ilegais como a mineração em terras indígenas, particularmente a Yanomami, seriam intensificadas, com graves consequências ambientais e sociais.

O enfrentamento a essa situação imporia pressões adicionais às forças de segurança. Militarmente, exigiria patrulhamento intensivo em terreno hostil, o manejo de incursões e o combate ao crime transnacional, desviando as Forças Armadas de sua doutrina tradicional. Para as polícias, significaria lidar com atividades criminosas intensificadas, necessidade de especialização e o risco de corrupção, demandando cooperação interagências inédita. Orçamentariamente, demandaria investimentos elevadíssimos em pessoal, treinamento, material e tecnologia adequados. 

As implicações políticas e diplomáticas seriam igualmente desafiadoras. O Brasil seria forçado a navegar um dilema: apoiar o combate ao narcotráfico ou condenar uma intervenção unilateral que violaria a soberania de um país vizinho, tensionando ainda mais suas relações com os EUA? Qualquer dos cenários comporta o potencial de contribuir para aprofundar a fragmentação política sul-americana, o que testaria a capacidade do Brasil de articular uma política externa coerente e influente, as quais não são discerníveis no momento, e geraria intenso debate político interno sobre o papel do Brasil na região. Ademais, eventual militarização da fronteira e a presença de forças externas levariam a um ambiente de maior tensão e desconfiança, exigindo do Brasil uma reavaliação de sua própria estratégia de defesa na região amazônica.

A complexidade da conjuntura exigiria de Brasília uma diplomacia robusta, com a capacidade de buscar promover a convergência de percepções entre segmentos eventualmente afetados, a fim de articular uma resposta que protegesse nossos interesses nacionais e contribuísse para a estabilidade regional, sem abdicar de seus princípios de atuação exterior. Infelizmente, contudo, devido à profunda ideologização dos condutores de nossa diplomacia, pragmatismo, visão estratégica, capacidade de leitura de cenários, realismo propositivo, moderação e acuidade geopolítica não fazem parte do repertório da política externa brasileira.

Conclusão: uma teia de interesses e a lógica da intervenção

A potencial operação militar dos EUA contra o narcotráfico e o regime de Nicolás Maduro transcende a simplificação de uma ação antidrogas. Ela é a manifestação de uma intrincada teia de interesses onde a segurança regional, a política doméstica e a competição geopolítica convergem.

A tomada de assalto do estado venezuelano por uma gangue delinquente fornece a base moral e legal para uma intervenção que visa não apenas desmantelar redes criminosas, mas também influenciar a dinâmica política interna da Venezuela e, crucialmente, reafirmar a hegemonia americana em uma região onde potências rivais extrarregionais buscam expandir sua influência.

As implicações de ações externas na Venezuela são vastas e complexas, projetando um cenário de recrudescimento humanitário e instabilidade regional, com o risco de uma intervenção prolongada. O caso venezuelano ilustra como a segurança interna e a externa se entrelaçam na estratégia de uma grande potência, transformando a ‘guerra às drogas’ em oportunidade para a reconfiguração do tabuleiro geopolítico regional e a promoção de novos alinhamentos. 

Para Washington, Caracas tornou-se um desafio estratégico multidimensional, exigindo uma resposta que, sob a bandeira do combate e desmantelamento de gangues criminosas que desestabilizam política, social e economicamente a região, visa a assegurar a estabilidade e proteger interesses estratégicos na área.

* Marcos Degaut é Doutor em Segurança Internacional, pesquisador Sênior na University of Central Florida (EUA), ex-secretário especial adjunto de Assuntos Estratégicos da Presidência da República e ex-secretário de Produtos de Defesa do Ministério da Defesa

VEJA TAMBÉM:

  • Intervenção na Venezuela? Relembre o resultado das últimas ações militares dos EUA
Continue Reading
Advertisement
Clique para comentar

Deixar uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Revista Plateia © 2024 Todos os direitos reservados. Expediente: Nardel Azuoz - Jornalista e Editor Chefe . E-mail: redacao@redebcn.com.br - Tel. 11 2825-4686 WHATSAPP Política de Privacidade